Bíblia em Contos

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O Filho Pródigo: Retorno e Perdão

A poeira do caminho era fina como cinza, e grudava na pele suada de Adir. Ele caminhava há dias, e cada passo parecia mais pesado que o anterior. A bolsa de viagem, outrora cheia de moedas de prata, agora era apenas um fardo vazio amarrado à cintura. O cheiro doce e apodrecido das cascas de alfarroba que ele disputava com os porcos ainda lhe impregnava as narinas, mesmo a quilômetros dali. Era um cheiro de humilhação.

Ele parou por um momento, encostado num tronco retorcido de uma figueira brava. O sol da tarde, dourado e impiedoso, batia nos morros que começavam a parecer familiares. Ali, naquela curva do caminho, ele podia quase avistar o telhado de telhas vermelhas da casa de seu pai. Uma pontada aguda, mais dolorosa que a fome, apertou-lhe o peito. Lembrou-se, não do ouro, mas do cheiro do pão acabado de sair do forno, da sombra fresca das videiras no pátio, do som grave e calmo da voz de seu pai ao anoitecer.

“Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe”. As palavras, agora ecoando em sua mente, soavam grotescas, uma sentença de morte proferida por seus próprios lábios. Ele tinha sepultado o pai em vida, apenas para cavar, com as próprias mãos, a cova de sua miséria. Nos braços de estranhos em terras distantes, gastara tudo. Tudo. Até a dignidade.

O vento mudou de direção, trazendo um cheiro distante de terra molhada e esterco de ovelha. Cheiro de casa. Adir engoliu seco. O discurso que ensaiara mil vezes voltou à boca, amargo como fel. “Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus trabalhadores”. Era o único direito que lhe restava: o direito ao trabalho duro, ao suor que lava, talvez não a honra, mas ao menos a vergonha de comer o próprio pão.

Enquanto isso, no alto da colina, Eliabe, o pai, estava onde sempre estava no final da tarde: no ponto mais alto da propriedade, de onde se via o caminho que serpenteava pelo vale. Seus olhos, marcados pelo tempo e pela saudade, percorriam a estrada vazia todos os dias, com uma paciência que era uma forma de oração. A fazenda prosperava, os campos eram verdejantes, os celeiros, cheios. Mas havia um vazio na casa, um cômodo fechado, um lugar à mesa que ecoava silêncio.

Naquele dia, porém, algo foi diferente. Uma figura diminuta e trôpega apareceu ao longe, uma mancha contra o pó do caminho. Eliabe inclinou-se para frente, a mão sobre os olhos para abrandar o sol. O coração, aquele velho coração que aprendera a bater com uma cadência de esperança e dor, deu uma pancada forte contra o peito. A postura, o jeito de arrastar os pés… mesmo na distância e na ruína, ele reconheceu o andar do filho.

Não houve cálculo. Não houve deliberação sobre a dignidade de um ancião, sobre o protocolo de um patriarca. Uma força primaveril, há muito adormecida, irrompeu dentro dele. Eliabe levantou as abas longas de seu manto e começou a correr. A barba grisalha ondulava ao vento, os pés descalços levantavam nuvens de poeira. Servos que podavam as vinhas pararam, boquiabertos. Nunca tinham visto o velho senhor correr.

Adir, cabisbaixo, mal ouviu o som das passadas. Quando levantou os olhos, viu, incrédulo, uma visão que julgara perdida para sempre: seu pai, vindo em sua direção num trote desengonçado e veloz, o rosto sulcado por emoção violenta. Ele tentou engatilhar o discurso preparado, mas as palavras morreram na garganta.

Eliabe não deixou que ele falasse. Antes que Adir pudesse prostrar-se, os braços fortes do pai já o envolviam, apertando-o contra o peito, contra o cheiro de linho limpo e terra boa que era a essência da memória de Adir. O velho chorava, grandes lágrimas que molhavam os cabelos embaraçados e imundos do filho. Beijava-lhe o rosto, a testa, os ombros ossudos, num frenesi de perdão que dispensava qualquer petição.

“Pai, eu… pequei contra…” tentou Adir, a voz um fio de som.

“Calado, meu filho. Calado”, sussurrou Eliabe, sua voz embargada por um choro rouco. “Tu estavas morto e voltaste à vida. Estavas perdido e foste encontrado”.

E então, sem dar tempo para que a vergonha ou a lógica se recompusessem, Eliabe voltou-se para os servos, que observavam a cena imóveis, e sua voz recuperou a autoridade melodiosa de sempre, agora tingida de uma alegria transbordante. “Depressa! Tragam a melhor túnica, a que está guardada, e vistam nele. Ponham um anel em seu dedo e sandálias nos seus pés! E matem o novilho cevado, aquele que reservamos para a festa. Porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado!”

A casa, então, explodiu num movimento que não via há anos. O novilho cevado, a reserva preciosa para uma ocasião sem igual, foi abatido. O aroma da carne assada sobre o fogo de lenha de oliveira começou a espalhar-se, substituindo, na mente de Adir, o fedor dos porcos. A túnica fina, de lã macia e tingida, pesou-lhe sobre os ombros como um manto de graça. O anel no dedo era frio e pesado, um selo de pertencimento restaurado. As sandálias nos pés, calejados e feridos, eram um luxo esquecido.

A festa já rolava no pátio maior, com música de flauta e tambor, quando o filho mais velho, Iair, voltou do campo. O dia fora longo, de trabalho meticuloso e suor honesto. Ao aproximar-se, ouviu a algazarra e chamou um dos servos jovens.

“O que significa isso?”

“É seu irmão que voltou”, respondeu o servo, com um sorriso aberto. “E seu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou são e salvo.”

Iair não entrou. O som da festa, em vez de alegria, soou-lhe como uma afronta. Um amargor antigo, adocicado pela rotina do dever, subiu-lhe à garganta com força de veneno. Ele ficou do lado de fora, no escuro que começava a cair, ouvindo cada risada como um golpe.

Foi então que o pai saiu. Eliabe, com o rosto ainda iluminado pela festa, viu a figura rígida do filho mais velho contra o crepúsculo. Saiu ao seu encontro. A música continuava atrás deles, um contraponto dissonante ao silêncio que se instalou entre os dois.

“Todos esses anos te sirvo”, começou Iair, a voz contida mas cortante como lâmina, “nunca transgredi um comando teu, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com meus amigos. Mas quando veio esse teu filho, que devorou teus bens com meretrizes, mataste para ele o novilho cevado.”

Eliabe escutou. Não interrompeu. Deixou que a dor do filho que ficou escorresse, amarga e verdadeira. Depois, aproximou-se e pousou a mão no ombro tenso de Iair. Seus olhos, os mesmos que tinham vasculhado o horizonte todos aqueles anos, fitaram os olhos do filho que nunca saíra.

“Filho”, disse, e a palavra soou carinhosa e pesada, “tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era justo alegrarmo-nos e regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.”

A festa dentro de casa chegava ao seu clímax. O irmão mais novo, lavado e vestido, tentava entender, entre abraços e canções, o novo mundo em que habitava. O irmão mais velho permanecia no limiar, ouvindo as palavras do pai, tendo de decidir se entrava naquela luz quente e no som da misericórdia, ou se permaneceria na escuridão familiar de sua justiça própria.

E o pai, aquele que perdera e achara, permanecia entre os dois, com o coração dividido e inteiro, esperando, como sempre esperara, pelo retorno de ambos.

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