A cidade ainda dormia sob o cinza frio da madrugada quando eu desci até o portão. Não era o portão de ferro da minha casa, mas aquele antigo, de madeira carcomida, que dá para a estrada poeirenta que leva ao vale. O ar cheirava a terra molhada e à folhagem densa que cresce à beira do riacho. Sentia um cansaço nos ossos, daqueles que não são só do corpo, mas de uma alma que ruminava perguntas sem resposta.
Foi então que a ouvi.
Não era um som, no início. Era mais como uma ressonância, algo que vibrava no peito antes de alcançar os ouvidos. Parei, inclinei a cabeça. O vento trazia o farfalhar dos bambuzais. De longe, o primeiro canto de um sabiá. E no meio disso, uma voz. Clara, mas não estridente. Profunda, mas não grave. Era como se a própria luz do dia que começava a raiar tivesse encontrado uma forma de se expressar.
“É a vocês, ó homens, que eu clamo; dirijo meu chamado a todos os viventes.”
A voz não vinha de um lugar. Vinha de todos. Do musgo úmido no muro de pedra, do tremor das folhas de bananeira, do curso lento da água entre as pedras. Eu me virei, buscando uma figura, uma forma. Nada. Apenas o mundo ao meu redor, comum e ao mesmo tempo extraordinariamente vivo.
“Entendam, ó ingênuos, a prudência; e vocês, tolos, adquiram bom senso.”
As palavras não me repreendiam. Elas me envolviam, como quem convida um amigo perdido a sentar à sua mesa. Sentei-me num velho tronco à beira do caminho, o coração batendo forte. E a voz continuou, e agora eu via, não com os olhos, mas com uma percepção que há muito estava adormecida.
Ela falava de um tempo sem tempo. “O Senhor me possuía no início de sua obra, antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes que a terra existisse.” Eu via, em flashes silenciosos, abismos sem forma, a vastidão do nada antes do algo. E ali, uma presença, um arquiteto feliz, e com ele, esta voz – a Sabedoria – como uma criança mestra, um prazer diário, brincando diante dele em todo o tempo.
A narrativa se desdobrava diante de mim. Eu a via, a Sabedoria, não como um conceito, mas como uma artista entusiasmada, presente em cada pincelada da criação. Quando Ele traçava um círculo sobre a face do abismo, era ela quem sussurrava a beleza da curvatura. Quando firmava os céus, ela regozijava-se com a altura azul. Quando estabelecia os fundamentos da terra, ela estava ali, ao seu lado, como a confidente de todos os mistérios.
“Então eu estava ao seu lado como arquiteto; e era o seu encanto todos os dias, brincando perante ele em todo o tempo; brincando no mundo, na sua terra, e achando as minhas delícias com os filhos dos homens.”
O sol já havia nascido, lançando fios de ouro sobre as folhas molhadas. A poeira do caminho começava a brilhar. E o tom da voz mudou, do êxtase cósmico para uma ternura imediata, próxima.
“Agora, pois, filhos, ouçam-me; felizes os que guardam os meus caminhos.” Era um convite urgente, amoroso. Ela estava ali, não apenas nos umbrais sombrios das portas antigas, mas no movimento da feira lotada, no cruzamento das ruas da cidade, à entrada das casas. Ela gritava para que todos ouvissem. “A minha boca proclama a verdade, os meus lábios odeiam a impiedade.” Não era uma verdade árida, de dogmas, mas a verdade do equilíbrio, da justiça que sustenta o mundo, do temor ao Senhor que é, em si, odiar o mal.
Eu sentia um calor no rosto, não do sol, mas de uma vergonha doce. Quantas vezes eu a procurara nos lugares errados? Nos livros espessos de argumentos secos, nas discussões intermináveis que só alimentavam o orgulho? E ela sempre estivera aqui, clamando nas esquinas, oferecendo um conselho reto, conhecimento findável. “Pois quem me acha, acha a vida e alcança o favor do Senhor. Mas quem me falta, violenta a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte.”
A última palavra ecoou, não como uma ameaça, mas como um fato solene, pesado como uma pedra no lago tranquilo da manhã. A voz se foi. Ou melhor, fundiu-se de novo no murmúrio do riacho, no canto agora em coro dos pássaros, no farfalhar das folhas ao vento que se levantava.
Levantei-me do tronco, os joelhos trêmulos. O mundo era o mesmo. A estrada poeirenta, o muro de pedra com musgo, os bambuzais ao longe. E, no entanto, tudo era profundamente diferente. Cada coisa parecia agora um reflexo, um eco daquela presença que brincara no início, que se deleitava com a terra e com os filhos dos homens.
Não tive uma visão. Não ouvi uma voz com os ouvidos da cabeça. Mas naquele instante, sentado à beira do caminho numa manhã comum, compreendi que a Sabedoria não é um prêmio para sábios. É um clamor nas vielas da existência. É a lógica de amor por trás de cada estrela e de cada gota de orvalho. É a voz que transforma a rotina em sacramento e o caminho simples, em uma vereda que conduz para a vida.
Poeirei as calças e comecei a andar de volta para casa, com um passo mais leve. O dia começava, e com ele, a tarefa de aprender a ouvir, em tudo, o seu chamado.




