Bíblia em Contos

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O Salmo da Justiça que Tarda

O sol da tarde era um disco opaco atrás da nuvem baixa e suja que pairava sobre Jerusalém. No átrio do Templo, Asaph, um dos levitas mais idosos do turno de serviço, sentia o peso dos anos não apenas nos ossos, mas na alma. O ar, normalmente embalsamado pelo incenso e pelo cheiro das ofertas, trazia agora um vestígio amargo de cinza e negligência. Ele observava, das sombras de uma coluna, o vaivém dos mercadores, a conversa alta e mundana de alguns sacerdotes mais jovens, alheios ao sussurro sagrado do lugar. Seus dedos, nodosos e frios, tracejaram involuntariamente as cordas da lira que trazia ao colo, mas não produziram som. Era apenas um hábito, o eco de uma música que parecia ter abandonado a cidade.

Nos últimos tempos, uma languidez corrosiva se instalara. A injustiça, outrora um rumor distante nas províncias, agora caminhava com passos descarados pelos pátios da própria Casa de Deus. Asaph vira coisas. Vira o rico ser absolto por um suborno sussurrado, viúvas sendo afastadas da porta com gestos bruscos, os olhos dos órfãos perdendo o brilho antes mesmo de entenderem a perda. Os ímpios, como chamava em seu íntimo, não mais agiam nas sombras. Proclamavam seus feitos, e suas vozes grossas e cheias de vinho barato cortavam o ar, desafiando qualquer olhar que ousasse reprová-los. “O SENHOR não vê”, diziam uns. “O Deus de Jacó não dá atenção”, ecoavam outros, com um riso que era um cuspe no rosto da fé.

Naquela noite, em sua cela diminuta nos anexos do Templo, Asaph não conseguiu encontrar o sono. O silêncio era pesado, mas dentro dele ecoava o clamor que não se ouvia. Um clamor mudo, subindo das casas escuras da cidade baixa, das estradas onde o peregrino era assaltado, dos campos onde a fronteira era mudada ao sabor da gança. Ele se levantou, os pés descalços encontrando o frio áspero da pedra. A lamparina de azeite projetava sombras dançantes e grotescas na parede. E então, como se uma comporta se rompesse dentro de seu peito, as palavras começaram a brotar. Não eram suas. Eram mais antigas que ele, mais profundas que sua dor. Vinham do abismo da justiça divina, e ele era apenas o vaso, rachado e frágil.

“Ó Deus, a quem a vingança pertence”, sussurrou, e a voz saiu rouca, carregada de uma fúria sagrada que ele mesmo não sabia possuir. “Mostra-te, ó Deus da retribuição. Ergue-te, juiz da terra, e paga aos soberbos o que merecem.”

As palavras fluíam agora, um rio turbulento. Ele falava dos ímpios, da sua arrogância que esmagava o povo de Deus como grãos sob uma mó. Falava das viúvas, dos estrangeiros, dos assassinatos inocentes – e cada imagem era um rostro que ele conhecera, uma história que lhe corroera a paz. “Até quando, SENHOR?”, a pergunta ecoou na cela, um lamento milenar. “Até quando os perversos triunfarão?” Ele descrevia a petulância deles, sua crença tola na impunidade, como animais ferozes que julgam a floresta vazia de caçadores. “Insensatos!”, exclamou, não com desprezo, mas com uma espécie de horror piedoso. “Quando entendereis? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? Aquele que formou o olho, não verá?”

Aquela verdade simples, tão óbvia e tão esquecida, encheu-o de um calor repentino. A lógica da insensatez humana era monstruosa. Criar um Deus onisciente e depois viver como se Ele fosse cego. Instituir leis eternas e depois quebrá-las como se fossem teias de aranha. Asaph sentiu que a oração mudava de tom. Da petição indignada, mergulhava na sólida rocha da doutrina. O SENHOR não era um espectador distraído. Ele era o professor supremo, aquele que disciplina as nações. Aquele que conhece os pensamentos do homem, e sabe como são vãos.

“Bem-aventurado o homem a quem tu, SENHOR, repreendes”, murmurou, e agora havia uma gota de consolo amargo no cálice da sua angústia. A repreensão era a prova da paternidade divina. O silêncio de Deus seria o abandono. A disciplina, por mais dolorosa, era o liame que impedia a alma de se perder totalmente no caos. Ele pensou nos longos anos de sua vida, nas secas da alma, nas noites de dúvida. Tudo aquilo não era ausência. Era a mão do ourives, dura e precisa.

“Porque o SENHOR não rejeitará o seu povo”, disse, firmando a voz. A promessa era um remédio para o coração enfermo de desalento. A justiça tardaria, mas não falharia. A queda dos malfeitores era certa, como a lei da gravidade que faz a pedra rolante encontrar o vale. E no fim, quem estaria de pé? Não os poderosos de hoje, com suas espadas e seus decretos. Mas aquele cuja mente e cujo coração estivessem ancorados no Eterno. Aquele que, no segredo, dizia: “O meu pé vacila”. Porque aquele que reconhece o próprio vacilar é quem busca, e encontra, a mão que sustenta.

A madrugada começava a clarear, uma faixa cinzenta e fria na fresta da janela. Asaph estava exausto, mas uma paz sólida, como a pedra fundamental do Templo, instalara-se em seu espírito. A injustiça não tinha a última palavra. A arrogância dos ímpios era, em si mesma, a prova de sua condenação. Eles construíam sobre a areia movediça de sua própria autossuficiência. Ele, Asaph, o velho levita de mãos trêmulas e coração por vezes assustado, construía sobre a rocha do Deus que julga, que ouve, que vê e que, no tempo devido, se levanta.

Ele pegou a lira. Desta vez, os dedos pressionaram as cordas, e um som doce e melancólico encheu a cela. Não era um canto de triunfo imediato, mas de certeza profunda. Era a música do “ainda”. Do “apesar de”. Do “eu creio”. Enquanto a luz da manhã crescia, lavando as sombras da noite, Asaph compunha, em seu coração, o salmo da justiça que tarda, mas que jamais falha. E sabia, com uma clareza que vinha das entranhas da fé, que o refúgio para o espírito oprimido não era a vingança rápida, mas a certeza inabalável de que o trono no céu não está vazio. Está ocupado. E dali, tudo se vê.

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