O sol daquela tarde em Jerusalém não era dourado, mas sim de um branco poeirento e cruel, que pesava sobre os ombros como um manto de chumbo. Esdras sentiu o suor escorrer por suas costas, sob o linho simples de sua túnica, mas era um calor diferente que o consumia por dentro: um brasa baixa e constante de angústia. Ele tinha voltado do exílio trazendo não apenas ouro e prata para o Templo, mas uma centelha de esperança. Agora, essa centelha parecia ameaçada de se apagar na própria cinza.
As palavras dos chefes ainda ecoavam em seus ouvidos, mescladas ao ruído distante da cidade em reconstrução. Tinham vindo até ele com rostos sérios, não com a alegria de quem traz boas novas, mas com a hesitação de quem entrega um relatório de derrota. “O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas não se separaram dos povos destas terras”, disseram. As abominações dos cananeus, dos hititas, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios e dos amorreus tinham encontrado, outra vez, uma porta aberta. E a porta era o casamento misto.
Esdras não disse uma palavra. Sua reação foi física, um tremor que partiu do espírito para a carne. Levantou-se lentamente, como se cada movimento exigisse um esforço sobre-humano, e rasgou sua túnica e seu manto. Depois, arrancou cabelos de sua própria barba e da cabeça. Sentou-se no chão nuaço, atordoado. Por um longo tempo, até a hora do sacrifício da tarde, ele permaneceu ali, imóvel, um monumento de desolação no meio do pátio.
Aqueles que temiam as palavras do Deus de Israel, os que haviam voltado com o coração inquieto pelo pecado, foram se ajuntando em volta dele. Um, depois outro, até formar um círculo silencioso e pesado. Ninguém chorava alto; era um pranto seco, de quem entende a profundidade da queda. O som que se ouvia era o suspiro do vento quente e, às vezes, o baque abafado de um homem se ajoelhando na poeira.
Quando a sombra alongada da porta do Tembro tocou seus pés, Esdras pareceu acordar de um torpor. Ergueu-se, ainda com os vestidos rasgados, e caiu de joelhos. Estendeu as mãos para o céu que começava a ganhar tons de púrpura. E então a voz saiu, não em um brado, mas em um sussurro rouco que, no entanto, carregava o peso de uma montanha.
“Meu Deus, estou coberto de vergonha e me envergonho de levantar o rosto para ti, meu Deus…”
A oração não era um discurso formal. Era um rio de memória e dor. Ele lembrava a culpa antiga, a espada dos reis da Assíria, o cativeiro babilônico, a desolação que durara gerações. “Por nossos pecados fomos entregues, nós, nossos reis e nossos sacerdotes, à espada, ao cativeiro, ao saque e à vergonha que até hoje nos marca.” Mas então vinha o estranho, o terrível paradoxo da graça: um resto havia sobrevivido, um pequeno fio de misericórdia tinha permitido seu retorno, o Templo estava de pé. E agora? Agora eles repetiam o erro, quebravam o mandamento explícito, contaminavam a santa semente, faziam pactos com a própria iniquidade que Deus ordenara expulsar.
“Depois de tudo o que nos aconteceu por causa das nossas más obras e da nossa grande culpa… poderíamos nós, outra vez, violar os teus mandamentos?” Sua voz quebrou, não por teatralidade, mas por exaustão da alma. “Não irias tu ficar irado conosco até de nós acabar, sem que restasse remanescente algum?”
Ele não pedia perdão. Ainda não. Primeiro, vinha o reconhecimento cru da realidade: “Eis que estamos diante de ti em nossa culpa, porque ninguém pode permanecer diante de ti por causa disto.”
O círculo ao seu redor não era mais silencioso. Um choro contido, profundo, tomava conta dos homens. O ar pareceu ficar mais denso, carregado não apenas do calor do dia, mas do peso de uma consciência coletiva despertada. A luz do fim de tarde tingia as pedras do pátio de um vermelho como de ferrugem, ou como de sangue seco.
Esdras terminou sua oração exausto, as mãos ainda estendidas, mas agora caídas sobre seus joelhos. Não havia mais palavras. Apenas o silêncio que segue um grito da alma. E naquele silêncio, uma presença se fez sentir – não uma voz audível, não uma visão espetacular, mas a pesada e solene convicção de que Deus ouvira. O pecado estava nomeado, exposto sob a luz oblíqua do sol poente. O primeiro passo, o mais doloroso, estava dado. O que viria a seguir – o arrependimento, a confissão pública, a separação difícil e prática das mulheres estrangeiras – seria outra longa jornada. Mas naquela tarde, no pó do pátio, com as roupas em farrapos e o coração em pedaços, um homem tinha plantado novamente a semente da fidelidade. Era uma semente regada com lágrimas amargas, mas era um começo.




