Bíblia em Contos

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Bíblia

A Unção do Pastor

A estrada para Belém subia e descia com a preguiça dos séculos, marcada pelas rodas de carroças e as patas de rebanhos. Samuel sentia o peso dos seus anos nos ossos, a cada solavanco da mula. O ar carregado do fim da tarde cheirava a poeira quente e a esterco seco. A ordem do Senhor ainda ecoava dentro dele, um turbilhão encoberto pela calma aparente do profeta. “Enchi um chifre de óleo”, pensou, enquanto a bolsa de couro batia ritmadamente no flanco do animal. “Mas como explicarei a Saul? Um sacrifício. Será suficiente.”

Os anciãos da cidade vieram ao seu encontro com o rosto tensionado pela desconfiança. “Vens em paz, Samuel?” A pergunta pairou no ar, carregada do medo recente das caprichosas iras do rei. Samuel assentiu, a voz grave abafando a meia-verdade. “Em paz. Vim para sacrificar ao Senhor. Santificai-vos e vinde comigo ao sacrifício.” O ritual os acalmou. A santificação era um processo conhecido, que trazia uma previsibilidade sagrada ao caos dos dias.

Na casa de Jessé, o ar era denso de suor e expectativa. A família, alinhada, parecia esculpida na própria terra de Judá. Eliabe erguia-se primeiro, imponente como um cedro, seus ombros largos e seu olhar firme pareciam feitos para portar uma coroa. O coração de Samuel estremeceu de um velho hábito. “Certamente é este o ungido do Senhor, aqui diante de mim.” Era a lógica dos homens, a estatura que inspirava exércitos.

Mas então veio a Voz, não um trovão, mas uma percepção clara e fria como água de nascente no peito: “Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado. Porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.”

Samuel passou adiante, um estrangeiro numa terra própria. Abinadabe, depois Sama. Um por um, sete filhos fortes, saudáveis, as faces queimadas pelo sol, passaram diante dos olhos aparentemente distraídos do profeta. E a cada um, um silêncio dentro dele. Nada. Apenas o eco do ritual e o crescente desconforto de Jessé. Sete. O número da completude. E, no entanto, um vazio.

“Acabaram-se os moços”, disse Jessé, os braços abertos num gesto de impotência. A voz de Samuel soou mais áspera do que pretendia. “São estes todos os teus filhos?” Havia uma insistência divina pulsando em suas têmporas. A cerimônia parecia fadada ao absurdo.

Foi então que Jessé, com um leve encolher de ombros, como quem se desculpa por uma irrelevância, murmurou: “Ainda falta o menor, que está com as ovelhas.” Havia um desdém casual na frase, não por maldade, mas pela absoluta inconcebibilidade. O rebanho, a poeira, os trabalhos menores. Samuel não permitiu hesitação. “Envia mensageiros e traze-o, porque não nos assentaremos à mesa até que ele aqui venha.”

A espera foi curta, mas para Samuel cada momento foi um longo exame de consciência. O sacrifício pronto, os filhos perplexos, o pai confuso. E então, a porta da rua se abriu contra a luz do crepúsculo.

Ele entrou não com a solenidade de um príncipe, mas com a pressa contida de quem deixou uma tarefa pela metade. O cabelo, avermelhado como a terra de Edom, estava em desalinho. Seus olhos, de um claridade desconcertante, pareciam captar a luz que fugia do dia. Havia poeira em suas roupas simples e o cheiro do campo e dos animais o envolvia. Mas era uma beleza diferente: não a do mármore polido, mas a da rocha viva, da terra fecunda. E havia algo em seu porte, uma quieta disponibilidade, como a de um riacho que segue seu curso sem esforço.

A Voz veio, suave e total: “Levanta-te, e unge-o, porque é este mesmo.”

Não houve fanfarras. Nenhum clarão sobrenatural que cegasse a todos. Apenas Samuel, o velho profeta de mãos trêmulas, erguendo o chifre de óleo. O óleo, denso e perfumado, escorreu pela testa de Davi, desceu pelas têmporas, misturou-se à poeira do caminho em seu rosto. Foi um ato íntimo, quase secreto, no meio daquela família atônita. Não havia coroa, nem cetro, nem juramento de homens. Apenas o óleo, símbolo de uma eleição invisível, e o Espírito do Senhor, que se apoderou de Davi a partir daquele dia, com a força silenciosa de uma semente que rompe a terra.

Samuel partiu depois da refeição, o coração aliviado e pesado ao mesmo tempo. Em Belém, as luzes se acenderam uma a uma. Nos campos, agora sob as estrelas, um jovem pastoreava suas ovelhas, a testa ainda úmida do óleo do destino, seu coração batendo um ritmo novo, desconhecido, que só Aquele que vê o íntimo poderia ouvir. O rei estava escolhido. Mas a verdadeira coroação, Samuel sabia, acontecera ali, na penumbra de uma sala, no coração de um menino que cheirava a campo e a céu aberto.

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