A cidade de Siquém respirava um ar pesado naqueles dias, um calor que não vinha apenas do sol, mas da memória recente de Gideão. Jerubaal, como alguns ainda o chamavam, estava morto. Setenta filhos deixara, espalhados, uma dinastia que não ambicionara ser uma dinastia. Mas o ar pesado tem seu peso, e o peso buscava um ponto onde se apoiar.
No casebre de sua mãe, em Siquém, Abimeleque respirava aquele ar e sentia seu sabor: poder. Sua mãe era siquemita, um laço de sangue com a cidade, enquanto seus setenta meio-irmãos eram filhos de outras mulheres, filhos plenos de Israel, talvez, mas não de Siquém. Abimeleque via nisso não uma desvantagem, mas uma brecha. Foi aos chefes de Siquém, os *baalim* da cidade, e falou com a voz baixa e convincente de quem oferece o que já se deseja.
“O que é melhor para vocês?”, perguntou, seus olhos percorrendo os rostos dos homens reunidos na sombra do Carvalho dos Adivinhos. “Que setenta homens os governem, todos filhos de Gideão, ou que um só o faça? Lembrem-se: eu sou osso de seus ossos, carne de sua carne.”
A lógica era fria e clara como a lâmina de uma faca. Os homens de Siquém se entreolharam. A ideia de serem governados por uma multidão de estranhos, ainda que filhos de um herói, não lhes agradava. Um só governante, e esse um deles, soava melhor. Soava seguro. E o coração humano, em sua busca por segurança, muitas vezes abre a porta para a tempestade.
Deram-lhe setenta peças de prata do templo de Baal-Berite. Dinheiro de um deus estrangeiro para financiar um reinado de terror. Abimeleque pegou o dinheiro e com ele contratou homens vadios e impetuosos, figuras sombrias que vagavam pelas estradas em tempos que não tinham rei. Seguiu com eles até Ofra, a casa de seu pai.
O que se seguiu não foi uma batalha, mas um abate. Numa só pedra, num ato de brutalidade calculada para economizar tempo e proclamar força, matou seus setenta irmãos. O sangue deles regou a rocha, um sacrifício perverso à sua ambição. Apenas o mais novo, Jotão, conseguiu esconder-se. Ouviu os gritos, viu a carnificina de um esconderijo, e seu coração gelou-se de horror e compreensão.
Enquanto o cheiro de morte ainda pairava sobre Ofra, os cidadãos de Siquém e toda a casa de Milo reuniram-se. Não com temor, mas com uma solenidade distorcida. Junto ao mesmo Carvalho que testemunhara a proposta de Abimeleque, proclamaram-no rei. Era um rei sem trono, sem palácio, um rei feito de medo e conivência, mas era rei. O ar pesado de Siquém agora tinha um nome.
Mas das sombras da floresta do monte Gerizim, uma voz surgiu. Jotão, o sobrevivente, subiu a um ponto alto e gritou para a cidade abaixo, sua voz carregada de uma ironia amarga e profética.
“Ouçam-me, homens de Siquém!”, bradou. “Para que Deus vos ouça!”
E contou uma fábula. Das árvores que saíram para ungir um rei sobre si mesmas. Ofereceram a coroa à oliveira, que recusou, pois seu óleo honrava a Deus e aos homens, e não abandonaria sua produtividade para “oscilar sobre as árvores”. Ofereceram à figueira, que também recusou, pois sua doçura e seu bom fruto eram sua vocação. Ofereceram à videira, que recusou da mesma forma, pois seu vinho alegra a Deus e aos homens. Por fim, foram à sarça, um arbusto espinhoso e improdutivo, que aceitou com arrogância: “Venham refugiar-se à minha sombra! E se não, saia fogo da sarça e consuma os cedros do Líbano!”
Jotão então fixou os olhos na cidade silenciosa. “Agora, se com lealdade e integridade agiram ao fazerem de Abimeleque rei… se agiram bem para com Jerubaal e sua casa… meu pai que lutou por vocês, que os arrebatou das mãos de Midiã… e vocês se levantaram hoje contra a casa dele, e mataram seus setenta filhos sobre uma pedra, e fizeram rei sobre os homens de Siquém a Abimeleque, o filho de sua serva, por ser ele seu irmão… se foi com lealdade e integridade que agiram, então alegrem-se com Abimeleque, e que ele também se alegre com vocês!”
A voz do jovem endureceu, cortante. “Mas se não, que saia fogo de Abimeleque e consuma os homens de Siquém e a casa de Milo; e que saia fogo dos homens de Siquém e da casa de Milo e consuma a Abimeleque!”
Falado isso, Jotão fugiu, desaparecendo na geografia do medo, para Beer. Suas palavras, porém, não fugiram. Ficaram pairando sobre Siquém como a fumaça de um holocausto mal ofertado.
Por três anos, uma paz instável se manteve. Abimeleque reinava. Mas Deus, que não é mencionado em voz alta na ambição de Abimeleque, agia em sussurros nos corações. Um espírito de discórdia, uma *ruach ra’ah*, Deus enviou entre Abimeleque e os homens de Siquém. A traição inicial começou a carcomer os alicerces da aliança perversa. Os homens de Siquém, que o haviam levantado, começaram a traí-lo, pondo emboscadas nos cumes dos montes, roubando de todos os que passavam pela estrada. A notícia chegou a Abimeleque. A sarça começava a pegar fogo.
Surge então um novo personagem, Gaal, filho de Ebede. Veio a Siquém com seus irmãos, e conquistou a confiança dos homens da cidade. Num dia de festa, embriagado de vinho e de audácia, Gaal discursou: “Quem é Abimeleque, e quem é Siquém, para que o sirvamos? Não é ele filho de Jerubaal, e Zebul não é seu oficial? Sirvam antes aos homens de Hamor, pai de Siquém! Por que serviríamos a ele? Ah, se este povo estivesse sob minha mão! Eu tiraria Abimeleque do caminho!”
Zebul, o governador da cidade posto por Abimeleque, ouviu furioso. Enviou mensageiros secretos ao seu senhor, aconselhando: “Veja, Gaal e seus irmãos vieram a Siquém e estão sublevando a cidade contra você. Levante-se de noite, você e os homens que estão com você, e ponha-se de emboscada no campo. De manhã, ao nascer do sol, ataque a cidade. Quando Gaal e seus homens saírem contra você, faça com ele o que suas mãos acharem por fazer.”
A estratégia foi seguida à risca. Abimeleque dividiu seus homens em quatro companhias, escondendo-se nos arredores. Ao amanhecer, Gaal saiu e parou à porta da cidade. Zebul, com frieza cínica, permaneceu ao seu lado. Quando Gaal viu os homens descendo dos montes, Zebul zombou: “Vê as sombras dos montes? Achas que são homens?” Gaal insistiu: “Vejo homens descendo do alto das colinas, e uma companhia que vem pelo caminho do Carvalho dos Adivinhos.” Zebul então deu a facada final: “Onde está agora tua boca, com a qual dizias: ‘Quem é Abimeleque para que o sirvamos?’ Não são estes os homens que desprezaste? Sai agora e luta contra eles!”
Gaal saiu, liderando os homens de Siquém, e travou-se uma batalha feroz. Mas Abimeleque o perseguiu, e Gaal fugiu, ferido, sendo expulso da cidade por Zebul. A primeira chama estava contida, mas o fogo ardia.
No dia seguinte, o povo de Siquém, talvez crendo que o perigo havia passado, saiu ao campo. Abimeleque foi informado. Dividiu novamente seus homens, atacou a cidade, tomou-a. A população foi massacrada, a cidade demolida, e o sal foi semeado sobre suas ruínas – um símbolo eterno de esterilidade e maldição.
Mas a sede de vingança não estava saciada. A fortaleza de Siquém, a Torre, ainda resistia. Para lá fugiram os líderes remanescentes, para o templo fortificado de El-Berite. Abimeleque e seus homens subiram ao monte Zalmon. Cortaram galhos de árvores, cada homem o seu, e os levaram até a fortaleza. Empilharam os galhos contra a torre e lhe puseram fogo. Cerca de mil pessoas, homens e mulheres, morreram naquela fornalha. A sarça consumia os cedros.
Inflamado pelo sucesso, Abimeleque marchou contra Tebes. Cercou a cidade e a tomou. Havia, porém, uma torre forte no meio da cidade. Para lá fugiram todos os homens e mulheres, todos os senhores da cidade. Trancaram-se e subiram ao eirado da torre.
Abimeleque avançou até a porta da torre para atear fogo, como fizera em Siquém. Foi então que uma mulher, anônima, uma das últimas defensoras, lançou uma pedra de moinho superior – uma daquelas pedras grandes, pesadas, usadas para moer trigo – e atingiu Abimeleque na cabeça, fraturando-lhe o crânio.
Ferido de morte, a humilhação do momento foi mais aguda que a dor. Gritou para seu escudeiro: “Desembainha tua espada e mata-me, para que não digam de mim: ‘Uma mulher o matou!’” O jovem obedeceu, atravessando-o com a espada. E assim morreu Abimeleque, o rei de três anos, que matou seus setenta irmãos sobre uma pedra e foi morto por uma pedra lançada por uma mulher.
Ao verem que Abimeleque estava morto, cada israelita voltou para sua casa, para sua tenda, para sua vida. O fogo da sarça consumira a sarça e os cedros que a ela se achegaram. A fábula de Jotão se cumprira com uma precisão terrível.
O texto sagrado encerra o relato com uma sentença seca e profunda: “Assim Deus fez recair sobre Abimeleque o mal que ele havia praticado contra seu pai, matando seus setenta irmãos. E toda a maldade dos homens de Siquém Deus fez recair sobre a cabeça deles. Assim cumpriu-se sobre eles a maldição de Jotão, filho de Jerubaal.”
E Siquém ficou em silêncio, sob o sal e as cinzas, à sombra do Carvalho dos Adivinhos que tudo vira, um monumento mudo ao fato de que a ambição que nasce do sangue e se alimenta de traição, cedo ou tarde, vira fogo e consome a todos que lhe chegam perto. Não há reinado que subsista quando seu alicerce é uma pedra manchada de sangue familiar. A justiça, mesmo quando silenciosa, sabe encontrar seu caminho. E às vezes, seu instrumento é uma simples pedra de moinho, nas mãos inesperadas dos fracos.



