Aquele verão no deserto chegou com um vento pesado, carregado de poeira e do cheiro seco da pedra. A memória da terra de Gósen, úmida e verde, já era como um sonho distante para muitos de nós. Éramos um povo marcado pelos anos de errância, pela pele curtida sob um sol que não perdoa. E então, diante de nós, estava aquela terra de Basã. Não era o que imaginávamos quando falavam da Terra Prometida – aquela sim, diziam, manava leite e mel. Basã era outra coisa: áspera, gigantesca, uma terra de gigantes.
Lembro-me de Moisés diante da assembleia, seu rosto mais sulcado do que os vales que havíamos atravessado. O cajado em sua mão parecia uma extensão de seu próprio braço, desgastado e firme. “Ogue, rei de Basã”, sua voz soou clara, cortando o sussurro inquieto da multidão. “Ele e todo o seu povo nos saíram ao encontro, para a batalha em Edrei.” Havia um silêncio então. Edrei. O nome soava como o choque de espadas. Todos sabiam das histórias. Ogue, o último dos refains, sua cama de ferro ainda visível em Rabá, um monumento de terror. Diziam que um homem comum não chegava à altura do seu joelho.
Mas Moisés não falava com triunfalismo. Havia uma gravidade em seus olhos, uma fatiga profunda. “Não os temais”, disse, e a ordem soou menos como um grito de guerra e mais como uma afirmação solene, um lembrete. “Porque o SENHOR, vosso Deus, é quem peleja por vós.” A fé naquela hora não era um sentimento caloroso, era uma decisão dura, tomada com os dentes cerrados, olhando para as muralhas imaginárias que cresciam em nossas mentes.
A marcha para Edrei foi silenciosa, apenas o rangido das rodas dos carros, o baque ritmado dos pés no chão árido, o resfolegar dos animais. O ar parou. Quando os vimos, foi como se as montanhas tivessem se erguido e começado a marchar. Eram enormes, sim, uma linha de sombras que bloqueava a luz do entardecer. Um frio percorreu a espinha de até o mais bravo entre nós. Lembro do cheiro de suor e medo, metálico, misturado à poeira.
Então começou. Não foi uma batalha como as outras. Houve o grito, o embate, o caos de sempre – o tinir das lanças, os gritos guturais, o tropel dos pés. Mas havia algo diferente no ar, uma pressão, como antes de uma tempestade. E a tempestade veio. Não do céu, mas através de nós. Uma força que não era nossa nos movia, afiava nossos golpes, entorpecia o terror dos inimigos. Foi menos uma conquista e mais um desmoronar. Como se Ogue e seu exército, aqueles titãs de um mundo antigo, fossem feitos de barro seco, e alguém tivesse dado um empurrão. Quando o pó baixou, no crepúsculo sangrento, não restava um só. A terra de Basã, com suas sessenta cidades fortificadas, muros altíssimos e portas trancadas com ferrolhos, estava silenciosa. Um silêncio total, pesado, que só é ouvido depois do fim de tudo.
Tomamos posse da terra. Era estranho caminhar por aquelas cidades vazias, entrar nas casas onde ainda havia brasas nas lareiras, ver objetos cotidianos abandonados. Havia uma riqueza ímpar, gados incontáveis, pilhas de espólio. Mas a vitória tinha um gosto agridoce. A mão de Deus fora demasiado visível. Era como ser um instrumento cego de uma vontade maior. Sentia-se gratidão, mas também um temor reverencial que apertava o peito.
Foi então, no acampamento que montamos nas planícies de Moabe, que os chefes das tribos de Rúben e Gade se aproximaram. Eram homens práticos, de olhos acostumados a avaliar a terra e o gado. Viram a terra de Jazer e de Gileade, próxima da que havíamos conquistado, e viram que era boa para a criação. “Esta terra é lugar de gado”, disseram a Moisés, “e nós, teus servos, temos gado em abundância.” A petição foi feita com cuidado, mas a intenção era clara: queriam ficar ali, do lado leste do Jordão. Não na Terra Prometida.
Vi a expressão de Moisés se fechar. Não era raiva, era uma decepção profunda, um eco de uma dor antiga. Ele os chamou de “irmãos” e então lançou a pergunta que cortou como uma faca: “Ficariam vossos irmãos indo à guerra, e vós, aqui, sentados?” A acusação de desânimo, de quebrar a unidade do povo, pesou no ar. Foi um momento tenso. Mas eles se adiantaram, propuseram um pacto: construiriam currais para seus rebanhos e cidades para suas famílias, mas todos os homens válidos marchariam na frente de seus irmãos, através do Jordão. Não voltariam para seus lares até que cada tribo recebesse sua herança.
Moisés olhou para eles por um longo tempo. Seus olhos pareciam ver além daquele vale, além do Jordão, para algo que só ele contemplava. E então concordou. Com termos claros, duros como a pedra daquela região: “Se assim o fizerdes”, disse, “estareis livres perante o SENHOR e perante Israel; e esta terra vos pertencerá por herança perante o SENHOR.” Aos filhos de José, de Manassés, também coube parte da terra de Basã, a terra dos gigantes.
Naquela noite, sentado à entrada de minha tenda, olhando as fogueiras que pontilhavam o vasto acampamento, pensei em tudo. Pensei em Ogue, o último gigante, cujo grande nome foi reduzido a uma história que contaríamos a nossos netos. Pensei nas cidades fortificadas, que não foram fortificação suficiente. Pensei na petição das tribos do leste, no desejo humano pelo que é bom e imediato, mesmo que fique às margens da promessa maior.
E pensei em Moisés. Ele nos deu ordens, designou a terra, preparou o caminho para Josué. Mas havia uma sombra em seu rosto que a vitória não dissipava. Ele nos levou até aqui, até as margens. Ele nos mostrou, de maneira incontestável, que o Deus que tirou um povo do forno do Egito era o mesmo que despedaçava reinos de ferro e desbaratava gigantes. Ele nos preparou para a herança. Mas a ele, pessoalmente, foi dito, com uma clareza que devia doer mais que qualquer ferida de guerra: “Não entrarás nela.”
A conquista de Basã não foi um fim. Foi um prólogo. Um lembrete colossal, esculpido em cidades de pedra e leitos de ferro, de que a verdadeira batalha nunca é apenas contra carne e sangue. É contra o medo que paralisa, contra a acomodação que nos faz escolher o bom em detrimento do melhor, e contra a desobediência que nos mantém do lado de fora. E, de forma mais misteriosa, é também sobre aceitar o próprio limite, como Moisés, e seguir servindo mesmo quando a visão da terra desejada é tudo o que se tem, e tudo o que nunca se pisará.
O vento noturno sussurrava nas fendas das colinas de Basã, carregando o cheiro da terra conquistada. Do outro lado do rio, invisível na escuridão, estava Canaã. Aguardávamos o amanhecer, e o início do resto da história.




