Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

Doze Dias de Consagração

O calor do deserto de Sinai pesava como um manto de lã grossa sobre o acampamento. A poeira fina, levantada pelos pés de milhares, pairando no ar, dourada sob o sol implacável, grudava na pele suada e cobria as tendas da congregação com uma camada pálida. No centro de tudo, porém, brilhando com uma solenidade que fazia os olhos se desviarem e depois retornarem, em temor reverente, estava o Tabernáculo. Recém-erguido, suas cortinas de linho fino, azul, púrpura e carmesim tremulavam levemente na brisa quente do entardecer. O aroma do azeite da unção, misturado ao cheiro do bronze polido e da madeira de acácia, era um perfume santo que se distinguia de todos os outros odores do acampamento.

Moisés havia ungido e consagrado tudo. O altar, os utensílios, a própria tenda. Uma sensação de expectativa, solene e profunda, pairava sobre os príncipes das doze tribos. O Senhor havia falado de dentro daquela santidade, e agora era hora de responder. Não com palavras precipitadas, mas com uma oferta meticulosa, planejada no coração.

No primeiro dia, um ruído suave de passos e o arrastar de rodas sobre a areia compacta anunciaram a chegada de Naassom, filho de Aminadabe, príncipe de Judá. Ele vinha à frente de sua oferta, e não era algo trazido às pressas. Havia um deliberado, um pesado amor em cada item. A carroça, puxada por dois bois robustos de pelagem escura, rangia sob o peso. Sobre ela, uma grande bacia de prata, tão polida que refletia o céu abrasador, e outra mais fina de prata também, cheia de farinha fina amassada com azeite. Havia ainda um incensário de ouro, pesado e trabalhado, cheio do precioso incenso moído. Mas o que mais chamava a atenção eram os animais: um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano para o holocausto; um bode para a oferta pelo pecado; e para o sacrifício pacífico, dois bois, cinco carneiros, cinco bodes, cinco cordeiros de um ano. Era a riqueza de Judá, oferecida sem hesitação.

Naassom não disse nada. Seu rosto estava sério, marcado pelo sol e pela responsabilidade. Ele apenas apresentou os animais e os utensílios diante do altar, suas mãos fortes tocando cada item com um cuidado último. Arão e seus filhos, vestidos com seus linho brancos, moviam-se com uma eficiência silenciosa, recebendo tudo. O sangue dos primeiros sacrifícios da dedicação correu sobre as pontas do altar de bronze, escuro e vital, e a fumaça do holocausto subiu em uma coluna reta no ar parado, um cheiro suave ao Senhor. Moisés observava, seu rosto um estudo de gravidade e gratidão. Ele sabia que aquela não era apenas uma oferta; era a tradução de um coração coletivo para a linguagem do sacríficio.

No dia seguinte, foi a vez de Natanael, filho de Zuar, de Issacar. O ritual foi idêntico em substância: a mesma bacia de prata de setenta siclos, o mesmo incensário de ouro, os mesmos animais perfeitos, selecionados dos melhores rebanhos. Mas havia uma diferença no ar. Natanael era um homem de olhos pensativos, e sua oferta foi feita com uma solenidade mais quieta, mais introspectiva. Enquanto os levitas ajudavam a descarregar os animais, ele fitou o Tabernáculo, e parecia estar ouvindo algo por trás do silêncio das cortinas. A fumaça subiu novamente, e o povo, à distância respeitosa, observava. Começava a se formar um ritmo, uma liturgia de generosidade.

E assim se passaram os dias. Cada amanhecer trazia o sol cortando a névoa fria do deserto, e com ele, um novo príncipe, à frente de uma carroça idêntica em conteúdo, mas única em sua apresentação. Eliasafe, filho de Deuel, de Gade, um homem de ombros largos e mãos calejadas, apresentou sua oferta com a força prática de um homem da fronteira. Elisama, filho de Amiúde, de Efraim, o fez com a dignidade de uma tribo que carregava o nome do filho preferido de José. Gamaliel, filho de Pedazur, de Manassés, com a humildade de quem vinha da outra metade da mesma herança.

Dia após dia, o altar recebeu o fogo sagrado. A pilha de bacias de prata, incensários de ouro e bacias de prata para a aspersão cresceu ao lado da tenda, um tesouro silencioso da consagração coletiva. A carne dos sacrifícios pacíficos era compartilhada entre os sacerdotes e os ofertantes, e nessas refeiões santas, à sombra do Tabernáculo, um profundo senso de unidade se estabelecia. Não era a unidade de um exército, mas de uma família peregrina, aprendendo a adorar.

Abidã, de Benjamim; Aiezer, de Dã; Pagiel, de Aser; Aira, de Naftali… Os nomes e as faces se sucediam, cada um trazendo o mesmo tributo, mas cada manhã tinha seu próprio sabor. O povo começou a conhecer a paciência de Deus. Ele não se apressava. Recebia cada tribo, individualmente, com a mesma atenção completa. Não havia pressa no deserto; havia o tempo necessário para que cada coração se expressasse plenamente.

Finalmente, no décimo segundo dia, chegou Aira, filho de Enã, príncipe dos filhos de Naftali. Quando sua oferta foi apresentada e o último cordeiro imolado, uma quietude diferente pairou sobre o pátio. Algo estava completo. Uma roda havia girado inteira. As doze tribos, em sua totalidade, tinham se dado ao Senhor no início de sua jornada.

E então, quando o silêncio após o último sacrifício começava a se fundir com os sons normais do acampamento, aconteceu. Moisés entrou na tenda do encontro, buscando ouvir a voz que guiava sua vida. E ele ouviu. Não uma voz de trovão, mas a mesma voz que falara da sarça ardente, agora vinda de cima do propiciatório, entre os dois querubins de ouro batido que guardavam a arca da aliança.

A voz falou com ele. As palavras eram claras, íntimas, destinadas apenas a ele naquele momento sagrado. Era a confirmação. A aceitação. Cada bacia de prata, cada punhado de incenso, cada vida animal oferecida havia sido uma oração em forma sólida, e agora o Senhor respondia, não com uma lista de agradecimentos, mas com a presença viva de sua palavra. Era como se o próprio altar, impregnado com o cheiro de doze dias de fogo consagrado, agora respirasse a resposta divina.

Moisés saiu da tenda. Seu rosto não irradiava glória cintilante como no monte, mas uma paz profunda, gravada, como a água que encontra seu leito após muito tempo. O povo, olhando de longe, viu sua expressão e entendeu, sem precisar de anúncio. A oferta fora aceita. A jornada poderia continuar. O Tabernáculo não era mais apenas uma estrutura no centro do acampamento; era um coração que havia batido, forte e ritmado, ao longo de doze dias, e agora repousava, cheio da presença que o habitava. A nuvem que pairava sobre a tenda pareceu, naquele entardecer do décimo segundo dia, um pouco mais densa, um pouco mais próxima, como um manto de assentimento cobrindo a generosidade de um povo aprendendo a ser santo.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *