Bíblia em Contos

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Dedicação das Tribos no Tabernáculo

Lembro como se fosse ontem. A poeira fina do deserto ainda impregnava o ar, misturando-se ao cheiro de madeira de acácia recentemente cortada e ao aroma denso do azeite da unção. O Tabernáculo erguia-se, enfim, completo no centro do acampamento. Um estranho silêncio reverente pairava sobre nós, quebrando-se apenas com o balido esporádico de um cordeiro ou o arrastar de sandálias na areia. A Presença havia descido, e uma solenidade nova, pesada e doce, assentara-se sobre o povo.

Foi Moisés quem nos reuniu, a voz dele mais rouca que o normal, carregada de uma emoção que não tentava disfarçar. “A casa está pronta”, disse simplesmente. E nós entendemos. Não era apenas uma tenda. Era o lugar do Encontro. E agora, como se movidos por um único coração, os líderes das tribos, os príncipes, aproximaram-se.

Naquele primeiro dia, foi Naassom, filho de Aminadabe, de Judá. Um homem de ombros largos, com o rosto queimado pelo sol e linhas profundas ao redor dos olhos – olhos que naquele momento brilhavam com uma humildade que eu nunca lhe vira na guerra. Ele não se aproximou com pompa. Veio com seus irmãos atrás, puxando carroças de bois. O rangido das rodas de madeira era o único som. E então começaram a descarregar.

Não foi um simples depósito de objetos. Era uma coreografia de reverência. Primeiro, a carroça. Pura, forte, feita para transportar o sagrado. Dois bois jovens, com chifres pintados de ocre, bufavam quietos. Depois, a prata. Duas bacias pesadas, reluzindo contra a poeira do chão, cheias até a borda com flor de farinha amassada com azeite. O cheiro era suave, de pureza. A fragrância do azeite se espalhou.

Mas foi a oferta de prata que nos fez suspirar. Um prato de cento e trinta siclos, uma taça de setenta. O peso deles na mão de Moisés devia ser imenso, não pelo metal, mas pelo significado. Cada siclo era um “resgate da alma”. E o sangue, claro. Um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano. Os levitas os receberam com mãos hábeis, e o som abafado do ritual começou no altar de bronze. O cheiro da carne queimando subia, diferente da fumaça comum das fogueiras. Era um cheiro que falava de entrega, de cobrir, de aproximar.

E um bode. Sempre um bode, para a expiação. Naassom colocou as mãos sobre a cabeça do animal, e por um momento, vi seus lábios se moverem em silêncio. Uma confissão privada, um peso transferido. O animal, impassível, era conduzido. Era duro de ver, sempre era. Mas era necessário. A santa justiça de Deus exigia aquilo. A misericórdia Dele providenciava o caminho.

E assim foi, dia após dia. Cada manhã trazia um novo príncipe, uma nova tribo, o mesmo cerimonial, e no entanto, nunca era repetitivo. Era como se cada oferta fosse a primeira. Netanel, de Issacar, trouxe suas carroças com uma dignidade tranquila. Eliabe, de Zebulom, com o vigor de um homem acostumado às praias de Quinerete. Elisama, de Efraim, Gamaliel, de Manassés… cada rosto contava uma história diferente de submissão.

Lembro-me de Abidã, de Benjamim. Um homem baixo e intenso. Quando entregou a taça de prata, suas mãos tremiam ligeiramente. Não era medo. Era o tremor de quem toca no véu do Santo. Aijezer, de Dã, o último, completou os doze dias. Quando seu bode foi levado, um alívio profundo, quase tangível, pareceu descer sobre todo o acampamento. Um ciclo se completava. A totalidade de Israel, tribo por tribo, príncipe por príncipe, havia se apresentado diante do Senhor com o mesmo tributo de lealdade.

Moisés entrava na Tenda do Encontro depois de cada dedicação. Nós ficávamos do lado de fora, em silêncio. E ele saía, sempre com o mesmo relato: a Voz que falava com ele de cima do propiciatório, entre os querubins. Era real. Tão real quanto o peso da prata nas mãos, quanto o cheiro do incenso. Aquele ritual meticuloso, aparentemente monótono para um observador distraído, era o fio que nos costurava à realidade divina. Cada carroça, cada prato, cada animal morto, era uma palavra em uma longa oração de gratidão e dependência.

Às vezes, à noite, olhando para as brasas do altar que nunca se apagavam, eu pensava na simetria daquilo tudo. Doze tribos, doze dias, ofertas idênticas. Para alguns, poderia parecer desperdício. Para nós, era uma lição viva. A santidade de Deus não faz acepção de pessoas. O acesso a Ele era o mesmo para o poderoso Judá e para a pequena Benjamim. A mesma graça, o mesmo resgate, o mesmo sangue. A repetição não era vazia; era um refrão, um cântico gravado no tempo, ecoando que a aliança abrangia a todos igualmente.

E as carroças e os bois? Foram dados aos levitas, aos filhos de Merari, para o transporte pesado do Tabernáculo nas jornadas que viriam. Nem mesmo um prego daquela oferta foi para o uso comum. Tudo era sagrado, porque tudo partira de um coração que queria, de alguma forma, tocar no mistério de habitar com Deus.

Anos se passaram. Cruzamos rios, lutamos batalhas, caímos e nos levantamos. Mas nunca esqueci aqueles doze dias na sombra do Sinai. A lição ficou: Deus se agrada da entrega meticulosa, do coração que se expressa em atos concretos, da obediência que não busca ser original, mas ser completa. A oferta de Naassom não era mais importante que a de Pagiel. Juntas, formavam um mosaico de submissão. E naquele deserto vasto e árido, aquele foi o princípio de nosso lar. Pois onde o povo oferece com um só coração, ali, mesmo sob uma tenda, Deus monta a sua tenda no meio de nós.

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