O sol da tarde pesava como chumbo derretido sobre os ombros de Jacó. A poeira da estrada, levantada por seus próprios pés, impregnava sua túnica e misturava-se ao suor, formando uma crosta salgada na pele. Cada passo era um esforço, cada olhar para trás, um misto de alívio e um frio na espinha. O cheiro do deserto, um amargo de ervas ressequidas e pedra aquecida, era o cheiro do seu exílio.
De longe, a terra de seu avião Abraão parecia uma miragem, um sonho que seu irmão Esaú certamente não compartilhava. A fúria no rosto de Esaú, aquele ódio cru e justificado, ainda queimava na retina de Jacó mais que o sol. Ele havia deixado para trás mais do que um pai idoso e uma mãe ansiosa; deixara para trás sua identidade. Jacó, o suplantador. O que se apossara da bênção com um guisado e uma pele de cabrito. Agora, carregava apenas um odre de água quase vazio, um cajado de viagem e o peso opressivo da promessa roubada.
Quando o sol começou a se esconder atrás das colinas arredondadas de pedra, uma exaustão profunda, mais da alma do que do corpo, derrubou-o. Não havia cidade, não havia tendas. Apenas um lugar aberto, com algumas pedras dispersas. Uma delas, achatada e de tamanho razoável, serviu-lhe de travesseiro. A textura era áspera, fria contra sua face. Ele se enrolou no manto, sentindo o frio cortante do deserto noturno substituir o calor do dia. O céu, de um azul profundo que rapidamente escurecia para o índigo, parecia uma tampa pesada. Antes de fechar os olhos, um pensamento amargo lhe passou pela mente: “Eis-me aqui, herdeiro da promessa, dormindo no chão como um cão errante.”
O sono não veio fácil. O corpo doía, a mente rodopiava. Mas a fadiga era maior. E então, no limiar entre a vigília e o repouso, algo se quebrou. Não foi um adormecer comum; foi como se o véu do mundo material, já desgastado pela solidão e pelo medo, se rasgasse de alto a baixo.
Ele sonhou. E no sonho, uma escada – ou talvez uma rampa colossal, uma via sagrada – estava firmada na terra, exatamente onde sua cabeça repousava sobre a pedra. O topo dela, porém, perdia-se no céu noturno, tocando os confins da abóbada celeste. E não era uma estrutura silenciosa. Era um fluxo constante, um vai e vem intenso e cheio de propósito. Seres que sua mente só podia captar como luz em movimento, como sombra luminosa, subiam e desciam por ela. Não havia alarde, mas uma atividade solene, urgente e silenciosa. O ar vibrava com uma energia que não era do vento.
E então, uma Presença. Não uma forma, mas uma certeza que se impunha acima de tudo, no ponto onde a escada se perdia na eternidade. Jacó, mesmo em sonho, sentiu os ossos estremecerem, uma reverência primordial nascendo das entranhas. E uma Voz veio. Não soou nos ouvidos, mas no âmago do seu ser, clara como água de fonte e pesada como a pedra sob sua cabeça.
“Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque.”
As palavras ecoaram na caverna de seu peito. Elas traziam consigo o cheiro da terra que seu pai amava, a sombra dos carvalhos de Manre, a memória do altar que seu avião construíra.
“A terra sobre a qual estás deitado, eu a darei a ti e à tua descendência.”
Jacó olhou, no sonho, para o chão poeirento e pedregoso. Esta desolação? Esta solidão? Era dela que falava a Voz?
“A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás ao ocidente e ao oriente, ao norte e ao sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra.”
A promessa que ele ouvira desde criança, contada ao redor do fogo, ganhava agora um palco cósmico. Era repetida para ele, Jacó, o fugitivo, no meio do nada. A universalidade da bênção soava como um contraste violento com sua pequenez ali, deitado no chão.
A Voz continuou, e seu tom alterou-se ligeiramente, tornando-se mais íntimo, mais direto: “Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei voltar a esta terra. Não te deixarei até cumprir aquilo que te prometi.”
Aquela frase atravessou-o como uma lança de fogo e gelo. “Eu estou contigo.” Naquele instante, a solidão que o esmagava rachou. Ele não estava só. O Deus dos seus pais não era um Deus distante, preso a um território ou a uma tenda. Ele estava ali, naquele lugar desprezível, acompanhando um trapaceiro assustado. A proteção era uma promessa viva. O retorno, uma certeza.
O sonho começou a se dissipar. As figuras luminosas pareceram se fundir com as primeiras luzes do amanhecer que tingiam o horizonte de púrpura. A escada desvaneceu-se, mas a sensação da Presença permaneceu, como um perfume no ar.
Jacó acordou de sobressalto. O frio da madrugada fez seus dentes baterem. Ele sentou-se, e seu corpo inteiro tremia, mas não era apenas do frio. Um temor sacro, profundo, tomava conta dele. A paisagem era a mesma – as colinas baixas, as pedras, o deserto acinzentado pela luz fraca. E, no entanto, tudo era diferente.
Ele olhou para a pedra que servira de travesseiro. Era apenas uma pedra. E, ao mesmo tempo, não era. Ela testemunhara. Ela fora a base da escada. Seus olhos percorreram o local, e ele sussurrou para o vento que começava a soprar:
“Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia.”
O medo se aprofundou, um medo reverencial que arrepiava a pele. Ele cobriu o rosto com as mãos. “Quão temível é este lugar! Não é outra coisa senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.”
A ideia brotou nele completa, inevitável. Este ermo, este ponto qualquer no caminho para Harã, era um santuário. O Deus de seus pais havia marcado a terra com sua presença, e ele, Jacó, dormira ali sem saber.
A luz da manhã crescia, clareando os detalhes do chão. Com movimentos lentos, ainda sob o impacto, Jacó levantou-se. Pegou a pedra – pesada, áspera – e a ergueu verticalmente, fixando-a no solo como uma coluna. Era um ato instintivo, um marco de memória. Precisava marcar aquele chão, consagrá-lo.
Em seguida, abriu sua provisão. Não tinha muito, mas tinha azeite. Despejou o líquido dourado e denso sobre o topo da pedra. O azeite escorreu pelas suas faces ásperas, brilhando ao sol nascente, consagrando-a. Era um ato pobre, de um homem com poucos recursos, mas feito com a riqueza de um coração transbordante.
E então, deu um nome ao lugar. A palavra saiu de seus lábios como um voto: “Betel.” Casa de Deus. O lugar não tinha nome antes. Agora, teria para sempre.
Ainda de pé diante da pedra ungida, com o cheiro do azeite e da terra molhada subindo às suas narinas, Jacó fez um voto. Sua voz era rouca, mas firme, dirigindo-se ao céu que agora parecia infinitamente mais próximo.
“Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendi, e me der pão para comer e vestes para vestir, e eu voltar em paz à casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus. E esta pedra que erigi como coluna servirá de casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente te darei o dízimo.”
Não era uma barganha. Era o reconhecimento humilde de um homem que havia tocado no divino e entendido, pela primeira vez, o fio condutor que ligava sua história pequena e falha à grande história da promessa. A bênção primordial, que ele tentara agarrar com astúcia, era-lhe oferecida livremente, com a condição companhia da Presença.
O sol já estava acima do horizonte, aquecendo a terra. Jacó pegou seu cajado e seu odre, agora mais leve. Olhou uma última vez para a coluna de pedra em Betel. O medo ainda estava lá, mas agora se misturava a uma centelha de esperança. A estrada para Harã estava à sua frente, longa e incerta. Mas ele não a percorreria sozinho. A promessa do Êxodo estava selada no coração, e o eco de uma escada entre o céu e a terra o seguiria por todos os dias de sua vida.




