Bíblia em Contos

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A Ceia Dividida de Corinto

O sol da tarde despejava sobre Corinto uma luz âmbar e poeirenta, que entrava pelas frestas das portas do *oikos* de Gaio, onde a igreja se reunia. O ar carregava o cheiro do pão ainda quente, trazido por Priscila, e o aroma mais terroso das lentilhas e azeitonas que os mais pobres contribuíam. No *triclínio*, os lugares de honra junto às mesas baixas já estavam ocupados. Lúcio, um negociante de tecidos com anel no dedo, e Cláudia, sua esposa, cujas vestes finas contrastavam com os panos simples da maioria, riam baixo entre si, servindo-se generosamente do vinho melhor que haviam trazido.

Na sala adjacente, mais escura e abafada, e no pátio, amontoavam-se os outros. Estavam lá os escravos como Sóstenes, de mãos calejadas, a mulher que vendia púrpura perto do porto, com seus dedos manchados, e velhos artesãos cujas costas já não se endireitavam completamente. Entre eles, sentado num banco de pedra, estava Marcos, um liberto que trabalhava como cortador de couro. Ele observava a cena com um nó no estômago que não era de fome, mas de uma amargura familiar. A ceia do Senhor, que deveria ser o ápice da sua comunhão, transformara-se num espelho da própria cidade: dividida, hierárquica, cheia de vergonhas.

Ele se lembrou da carta. Palavras circulavam, faladas em sussurros antes das reuniões. Paulo, o apóstolo, havia escrito. Alguns diziam que eram repreensões duras. Outros torciam o nariz, murmurando sobre tradições. O irmão encarregado da leitura, um judeu helenista chamado Crispo, parecia especialmente preocupado naquela noite.

A reunião começou com cânticos. As vozes dos de fora, robustas e desafinadas, erguiam-se em salmos, mesclando-se às vozes mais contidas dos que estavam no *triclínio*. Havia uma unidade ali, na melodia, que a prática logo desfaria. Terminado o canto, Crispo se levantou. Seu rosto estava sério à luz das lamparinas de óleo.

“Irmãos e irmãs,” começou, sua voz era grave mas clara, “antes de partilharmos o pão e o cálice, é preciso que reflitamos juntos. Recebemos ensinamentos do Senhor, através do apóstolo, e alguns destes ensinamentos temos negligenciado, ou pior, distorcido.”

Um silêncio incômodo se instalou. Lúcio, na sala ao lado, parou de falar e olhou para a entrada, com uma expressão entre a curiosidade e o incômodo.

Crispo então leu. Eram as palavras de Paulo, mas na boca de Crispo ganhavam o sangue da urgência. Falava de cabeças cobertas e descobertas, de anjos presentes na assembleia, de honra e desonra. Marcos ouvia, perplexo. A princípio, aquilo parecia distante, uma questão de costumes judaicos que pouco lhe dizia respeito. Até que as palavras mergulharam no cerne da ferida.

“Quando, porém, vos reunis na igreja,” lia Crispo, e cada sílaba caía como uma pedra nas águas paradas do coração de Marcos, “fico a saber que existem divisões entre vós… Quando vos reunis, não é para comer a ceia do Senhor; porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, enquanto outro se embriaga.”

Foi como se uma luz bruta iluminasse a cena que se desenrolava todas as semanas. O “tomar antecipadamente a própria ceia” não era uma metáfora. Era literal. Enquanto ele, Marcos, e os outros do pátio ainda cantavam, os mais abastados no interior já haviam começado sua refeição, seus banquetes privados dentro da ceia comunitária. A fome que ele sentia às vezes não era espiritual; era a vergonha de ver os pedaços de carne e as taças cheias, enquanto ele dividia um naco de pão seco com o velho ao seu lado.

Crispo continuou, e a voz agora tremia ligeiramente, não de medo, mas de convicção. “O cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão, um só corpo; pois todos participamos do único pão.”

A palavra “comunhão” ecoou na sala. *Koinonia*. Partilha. Participação comum. Não era um símbolo vago; era a realidade espiritual mais visceral, manifestada no ato mais material: comer juntos. Como poderia haver *koinonia* quando o corpo estava fracturado pela arrogância e pela indiferença? O corpo de Cristo, partido na cruz, estava a ser partido outra vez na arrogância dos coríntios.

Marcos olhou para suas mãos, sujas de restos de couro e tinta. O corpo de Cristo. Ele, cortador de couro, liberto, fazia parte desse corpo. Lúcio, o negociante, fazia parte. A mulher de dedos roxos, fazia parte. A recusa em se ver como um só, em se esperar, em partilhar o mesmo pão e o mesmo cálice, era uma mentira gritada no rosto do Crucificado.

Crispo concluiu a leitura com uma exortação solene: “Portanto, meus irmãos, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, para que não vos reunis para condenação.”

O silêncio que se seguiu foi pesado e úmido. Ninguém se movia. Até os sons da rua pareceram se calar. Então, do *triclínio*, surgiu Lúcio. Seu rosto estava rubro, mas não de vinho. Ele caminhou até a entrada que separava as duas salas, seu olhar percorrendo os rostos no pátio. Ele não disse nada por um longo momento. Finalmente, com uma voz rouca, diferente da sua voz habitual de negociações, disse: “Trazei o pão. E o cálice.”

Foi um movimento desajeitado no início. Os que estavam dentro trouxeram as vasilhas de comida, os jarros. Os que estavam fora entraram, sentando-se no chão, mesclando-se. Ninguém fez um grande discurso. Apenas, pela primeira vez, todos olharam para o mesmo pão, para o mesmo cálice, antes de partir. Quando Crispo ergueu o pão e deu graças, suas palavras — “Isto é o meu corpo, que é partido por vós” — tiveram um sabor novo, amargo e doce ao mesmo tempo. Partido por todos. Por Lúcio. Por Marcos. Por Cláudia. Pela mulher de dedos roxos.

Ao receber o pedaço de pão em suas mãos ásperas, Marcos não viu apenas um símbolo. Viu uma promessa e um juízo. O corpo uno. Suas lágrimas, quando vieram, não foram de tristeza, mas do alívio agonizante de um homem que, finalmente, vê sua própria casa, e percebe, com dor e esperança, que ela precisa ser refeita, tijolo por tijolo, começando pela mesa.

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