Bíblia em Contos

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Bíblia

Deserto e Decisão

O sol do deserto não era apenas uma luz; era uma presença opressora, um peso de bronze que aplainava o horizonte e extraía até a última memória de umidade da terra. Jesus sentiu a areia áspera nas pregas da túnica, o gosto do pó no céu da boca. Quarenta dias. A contagem não era de estações ou de noites, mas da lenta dissipação da força humana. A fome já não era um rugido; era um silêncio profundo dentro dos ossos, um vácuo que parecia consumir até os pensamentos.

Foi nessa paisagem reduzida à sua essência mais crua que a voz chegou. Não veio com trombetas ou ventos tempestuosos, mas sussurrou no próprio eco do seu cansaço. A forma que se materializou não era grotesca, mas terrivelmente lúcida. Parecia um homem do deserto, conhecedor de seus segredos e armadilhas.

“Se és Filho de Deus,” disse a voz, suave como a sombra passageira de um abutre, “manda que esta pedra se transforme em pão.”

Jesus olhou para a pedra à sua frente, lisa e quente. Não era apenas pão que a sugestão oferecia, mas um atalho. Um escape imediato da fraqueza que o prendia à terra. Podia sentir, quase palpar, o aroma quente do pão de cevada. Mas viu mais: viu uma multidão faminta tentando saciar a alma com comida que perece, viu a obediência sendo trocada pelo conforto. A resposta veio baixa, raspada pela sede: “Está escrito que nem só de pão viverá o homem.”

O deserto pareceu se contrair. Em um instante, não estavam mais na vastidão árida, mas no pináculo do templo em Jerusalém. A cidade estendia-se abaixo como um mapa em relevo, o burburinho da vida subindo como um zumbido distante. O vento cortante do alto agitava suas vestes.

“Se és Filho de Deus,” a voz insistiu, agora com um tom de desafio intelectual, “lança-te daqui abaixo. Pois está escrito: ‘Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem’ e ‘Eles te susterão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.’”

Era uma armadilha dourada, uma tentação de espetáculo. Fazer de Deus um mero garantidor de proezas vazias, reduzir a fé a um salto no vazio esperando uma rede invisível. Jesus sentiu a vertigem, não do altura, mas da proposta. Olhou para os pátios onde pessoas comuns oravam com fé simples. “Também está escrito,” respondeu, a voz firme contra o assovio do vento, “‘Não tentarás o Senhor, teu Deus.’”

Novamente, a paisagem se dissolveu. Desta vez, subiram a uma altura indescritível. Não era um monte, mas uma elevação da própria percepção. De um só relance, Jesus viu todos os reinos do mundo habitado. Não como mapas, mas como pulsação: a ambição de Roma, a sabedoria da Grécia, o mistério do Egito, a riqueza da Pérsia. O brilho do poder, a sedução da ordem imposta, a glória que os homens chamam de história, tudo passou como um rio de luz e sombra diante dele.

A voz ao seu lado perdeu qualquer disfarce. Era pura e clara autoridade mundana. “Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque a mim me foi entregue, e dou-a a quem quero. Portanto, se me adorares, tudo será teu.”

Era a oferta final. Evitar a cruz. Alcançar os fins sem os meios dolorosos. Ter o mundo, sem o preço do sangue derramado. Por um momento que pareceu uma eternidade, o silêncio pesou. Jesus podia ouvir o próprio coração bater em um ritmo humano, cansado. Olhou para a glória efêmera, depois voltou-se para a figura que oferecia o atalho.

“Está escrito,” disse, e as palavras saíram como uma sentença final, lavando o ar de toda ilusão, “‘Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto.’”

A presença se foi. O deserto voltou, comum e áspero. A fome e o cansaço também retornaram, mas agora eram apenas sensações físicas, não tentações. E, em um detalhe que apenas um observador humano notaria, foi então que os anjos vieram. Não em glória, mas discretamente, para servi-lo. Talvez lhe oferecendo água fresca de um odre, ou o fruto seco de um tamareira solitária. O socorro veio na obediência, não no lugar dela.

Dias depois, Jesus voltou para a Galileia. A fama dele, como um riacho após a chuva, já corria pelas vilas. Ele ensinava nas sinagogas, e as pessoas se apertavam para ouvi-lo. Havia uma autoridade diferente nele, não a dos escribas, que citavam uns aos outros, mas a de quem traz uma notícia direta da fonte.

Num sábado, em Nazaré, sua cidade natal, foi à sinagogua como sempre fizera. O ar cheirava a cera e a rolos de couro envelhecido. Rostos conhecidos: homens com quem trabalhara, mulheres que o viram crescer. O servo da sinagoga entregou-lhe o rolo do profeta Isaías. Ele desenrolou-o, o som do pergaminho ecoando no silêncio expectante. Seus dedos encontraram a passagem. E leu, e cada palavra caiu como uma semente no solo quieto:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor.”

Enrolou o rolo, devolveu-o ao servo. Todos os olhos estavam fixos nele. A luz da manhã entrava pelas janelas altas, iluminando a poeira suspensa. E ele disse, com uma simplicidade que cortou o coração da rotina: “Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos.”

No início, foi só um murmúrio de admiração. “Não é este o filho de José?”, ouviam-se sussurros. Sorrisos de incredulidade. Era o menino que brincara nessas ruas, o jovem carpinteiro. A graça que esperavam em um profeta distante recusava-se a ser enquadrada na familiaridade.

Ele percebeu o ceticismo brotando como erva daninha. “Sem dúvida, citareis para mim este provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’; faze também aqui na tua terra tudo o que ouvimos ter-se feito em Cafarnaum.’” Sua voz não era irada, mas pesada de uma tristeza antiga. “Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra.”

E então, falou do passado que eles conheciam das Escrituras. Lembrou-lhes da viúva de Sarepta, nos dias de Elias, quando a fome apertava Israel, e o profata foi enviado a uma estrangeira. Lembrou de Naamã, o sírio, curado por Eliseu, enquanto tantos leprosos em Israel permaneciam doentes.

Foi como acender um pavio. A admiração transformou-se em fúria santa e ofendida. O ar, antes pesado de quietude, tornou-se elétrico de indignação. Aquelas histórias eram uma afronta. Ele insinuava que a graça de Deus podia ultrapassar seus muros, seus privilégios de povo escolhido. A raiva subiu como uma maré. Gritos, não mais sussurros. Cadeiras arrastadas.

Uma massa compacta de homens, seus vizinhos, seus conhecidos, cercou-o. A fúria cega os empurrava. Levaram-no à força, não por uma procissão, mas como um turbilhão, para fora da cidade, até o cume do monte sobre o qual Nazaré estava edificada. Seu propósito era claro e brutal: precipitá-lo dali abaixo.

Os rostos que outrora foram familiares eram agora máscaras rígidas de fanatismo ferido. Ele caminhava no meio deles, não lutando. Havia uma calma estranha em seus olhos, como quem vê um roteiro antigo se desenrolar. No instante em que chegaram à borda, onde o chão caía abruptamente sobre os vales rochosos, um silêncio súbito, quase físico, pareceu congelar a multidão. Não foi um milagre espetacular. Foi algo na presença dele, uma autoridade que emanava daquela paz interior, que abriu um caminho invisível por entre eles.

E ele, simplesmente, passou pelo meio da turba. E seguiu seu caminho. O caminho que não passaria por atalhos de pão, de glória, ou de poder concedido. O caminho que descia do monte da rejeição, em direção a Cafarnaum, em direção à cruz.

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