A região em torno de Cesaréia de Filipe tinha um ar diferente. Não era o calor poeirento da Galileia, nem a tensão carregada de Jerusalém. O ar era úmido, fresco, carregado pelo sopro constante que vinha das nascentes do Jordão, que brotavam ali das rochas com um som profundo e perene. Jesus caminhava um pouco à frente, como era seu costume, seus pés descalços pisando na terra úmida à beira do caminho. Os discípulos vinham atrás, em pequenos grupos, conversando baixo. A jornada tinha sido longa, e uma certa fadiga pairara sobre eles nos últimos dias.
Pedro caminhava ao lado de Tiago, seus olhos fixos nas costas do Mestre. Havia algo na postura de Jesus naquele dia, uma solenidade silenciosa, que lhe tirava a vontade de tagarelar. O próprio cenário contribuía para o clima. Colinas verdes e íngremes, grutas escuras onde, diziam, os pagãos antigos cultuavam o deus Pã. E no alto, sobre um esporão de rocha, o palácio de mármore que Herodes Filipe construíra, brilhando de forma quase obscena sob a luz difusa que atravessava as nuvens baixas. Era um lugar de muitas vozes, muitas crenças. Um lugar estranho para se estar.
De repente, Jesus parou. Voltou-se para eles, e seu rosto, embora sereno, tinha uma gravidade que fez com que todas as conversas cessassem. O som das águas nascendo ali perto preencheu o silêncio.
“Quem diz o povo ser o Filho do Homem?”
A pergunta pairou no ar úmido. Os discípulos se entreolharam, um tanto aliviados. Era uma pergunta sobre os outros, sobre o burburinho que eles próprios ouviam nos vilarejos e nas estradas. João foi o primeiro a falar, sua voz um pouco hesitante.
“Alguns dizem que és João Batista, ressuscitado.” Era uma teoria macabra, que sempre os deixava inquietos.
“Outros”, acrescentou Tiago, “dizem que és Elias. Acreditam que o profata voltou para preparar os últimos dias.”
“Ou Jeremias”, disse outro, “ou algum dos antigos profetas.”
Jesus ouviu, seus olhos passando de um rosto a outro. Não parecia surpreso, nem satisfeito. Apenas ouvira. Então, seus olhos, que pareciam enxergar muito além daquelas colinas, fixaram-se neles com uma intensidade quase física. A pergunta seguinte veixe em tom mais baixo, mas carregada de um peso que fez Pedro conter a respiração.
“E vós, quem dizeis que eu sou?”
O silêncio foi completo. Até o barulho das águas pareceu se abafar. A pergunta não era mais sobre rumores, sobre a opinião das multidões. Era uma flecha direta ao coração de cada um ali. Quem era aquele homem com quem partilhavam o pão, cujos pés cansados eles viam ao fim do dia, que falava com uma autoridade que fazia tremer demônios e acalmar tempestades, mas que também ria de uma boa piada e sentia saudades de casa? Quem era ele, realmente?
Simão Pedro sentiu algo fervilhar dentro de si. Não era um pensamento que se formava palavra por palavra; era uma certeza que brotava das entranhas, do lugar mais profundo de sua alma, alimentada por tudo o que vira: o leproso curado, a filha de Jairo, os pães que se multiplicaram, a calmaria no mar revoltoso. E brotou também daquela intimidade única, das conversas à noite, do olhar de Jesus quando ele, Pedro, fracassava e era perdoado. Antes que pudesse racionar, as palavras irromperam de sua boca, carregadas de uma convicção que veio como um rugido:
“Tu és o Cristo, o Messias prometido. O Filho do Deus vivo.”
Assim que as palavras ecoaram, Pedro sentiu-se ao mesmo tempo leve e aterrorizado. Era como se tivesse dito algo enorme, algo que não poderia ser dito em voz alta. Os outros discípulos olharam para ele, uns com admiração, outros com surpresa. Mas os olhos de Jesus… os olhos de Jesus iluminaram-se com uma alegria profunda, solene. Ele não sorriu de maneira convencional, mas seu rosto todo se transfigurou por uma luz interior.
“Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas”, disse, e sua voz era doce e forte como o som daquelas águas nascentes. “Porque não foi carne e sangue que te revelou isso, mas meu Pai que está nos céus.”
Pedro sentiu as pernas fracas. A confirmação não vinha dos homens, mas do céu. Aquela verdade que ele dissera vinha de uma fonte divina.
E então Jesus continuou, e suas palavras adquiriram um tom fundacional, como se estivesse talhando a realidade na própria rocha daquele lugar: “E eu te digo: tu és Pedro.” Ao dizer o nome, havia um trocadilho, uma jogada de palavras no aramaico que falavam: ‘Kepha’ – Pedra. “E sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
A imagem era poderosa. Uma igreja, uma assembleia convocada, não construída sobre o palácio de mármole de Herodes, nem sobre as grutas dos deuses falsos, mas sobre a pedra daquela confissão. Sobre a verdade reconhecida e proclamada. Pedro sentiu um calafrio. Era uma promessa de permanência, de uma força que nem a morte venceria.
“Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus”, prosseguiu Jesus, e seus gestos eram contidos, mas cada palavra era um decreto. “O que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.”
Era uma autoridade espantosa, delegada. Pedro mal conseguia compreender o alcance daquelas palavras. Ele, o pescador impulsivo, recebendo as chaves? Mas a atmosfera de revelação e autoridade era tão densa que a dúvida não encontrava espaço.
Então, num movimento súbito que cortou a glória do momento como uma faca, Jesus baixou a voz e fez um gesto para que se aproximassem mais. A expressão em seus olhos mudou. A alegria solene deu lugar a uma dor antecipada, uma sombra profunda.
“É necessário que eu vá a Jerusalém”, disse, e as palavras saíram custosas, “e que sofra muitas coisas dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas. Serei morto…”
Um gemido coletivo escapou do grupo. Morto? O Messias? Aquele que tinha acabado de prometer uma igreja invencível?
“… e ao terceiro dia ressuscitarei.”
Mas a última parte pareceu perdida no turbilhão de horror que a primeira provocara. Morto. A palavra ecoou nas mentes deles, grotesca, impossível. Pedro, ainda sob o impacto da exaltação, sentiu uma onda de pânico e proteção. Sem pensar, avançou e pegou Jesus pelo braço, com a familiaridade rude de quem quer proteger um irmão.
“Deus te livre, Senhor!”, disse, sua voz um misto de súplica e repreensão. “Isso nunca te acontecerá!”
O olhar que Jesus lhe dirigiu então foi o mais chocante que Pedro já vira. A doce autoridade de momentos antes transformou-se num relâmpago de indignação tão pura que pareceu varrer todo o ar do lugar. Jesus afastou o braço do toque de Pedro como se fosse algo contaminado.
“Para trás de mim, Satanás!”, disse, e a voz não era irada, mas carregada de uma tristeza imensa e de uma autoridade absoluta. “Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, mas dos homens.”
Pedro recuou como se tivesse sido golpeado no peito. Satanás. O mesmo que tentara Jesus no deserto. E ele, Pedro, a pedra de escândalo. A queda foi vertiginosa. Do ápice da revelação ao abismo da repreensão, em um instante. Ele só quisera protegê-lo, afastar aquele horror… mas Jesus vira ali outra tentação: o caminho humano, fácil, sem a cruz. O messianismo segundo a carne e o sangue que ele, Pedro, acabara de transcender.
E Jesus, voltando-se para todos, sua voz agora pesada como a rocha das montanhas ao redor, concluiu: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a vida por minha causa, achá-la-á.”
As palavras finais dissiparam-se no ar úmido, fundindo-se com o som eterno das águas. Pedro ficou parado, olhando para o chão, a confusão e a vergonha ardendo em seu rosto. A jornada de volta ao acampamento foi feita em silêncio total. A verdade era mais gloriosa e mais terrível do que qualquer um deles imaginara. O Messias estava ali. E o caminho até o trono passava, inevitavelmente, por uma cruz. A sombra dela agora se estendia sobre todos eles, longa e fria, mesmo sob o céu nublado de Cesaréia.




