Bíblia em Contos

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O Muro de Fogo e a Cidade sem Muros

A pele de Jebul estava pegajosa de suor e fuligem. O ar dentro da tenda, que servia de oficina, tremeluzia com o calor da forja. Fora, Jerusalém respirava com a respiração curta e ofegante de quem está se levantando de uma longa doença. Os alicerces do Templo eram visíveis, pedras pálidas e novas no meio dos monturos escuros, testemunhas mudas de uma ruína que ainda cheirava a cinzas. Jebul bateu o martelo sobre a fivela de bronze, o som seco ecoando na quietude da tarde. Trabalhava para os construtores, consertando ferramentas, forjando pregos. Era um trabalho útil, terra-a-terra, que o mantinha ancorado. As visões dos profetas, os oráculos confusos, aquilo tudo parecia muito distante do peso real de um martelo e da resistência do metal ao fogo.

Foi quando o silêncio mudou. Não era um som, mas uma qualidade no ar, uma pressão súbita, como antes de uma tempestade. O calor da forja pareceu se recolher. Jebul ergueu os olhos, a fivela esquecida na bigorna. Na entrada da tenda, a luz do sol poente não se espalhava como de costume. Estava… contida. E dentro daquela luz, uma forma.

Não era um homem, embora tivesse sua estatura. Era como se alguém tivesse talhado a própria claridade do meio-dia em linhas vivas e angulares. Jebul não conseguia discernir traços, apenas a impressão esmagadora de presença, de uma atenção colossal voltada para ele. O ar ficou gélido.

— Levanta, Jebul, filho de Hur — a voz não veio dos lábios, pois não havia lábios, mas surgiu dentro de sua mente, clara como água de nascente. — Vê.

A visão se desdobrou diante dele, não como um quadro, mas como uma realidade que se sobrepôs à sua. Ele já não estava na tenda. Estava num lugar alto, olhando para a cidade. E viu um homem, outro mensageiro de linhas luminosas, segurando na mão um cordel de linho, a fita de medir dos pedreiros. O anjo mensageiro se preparava para traçar os limites, medir a extensão, definir o que era dentro e o que era fora.

Então, como se o próprio cenário tivesse suspirado, outro ser desceu. Este voava, suas asas eram feitas do crepúsculo e da aurora. Aproximou-se do primeiro mensageiro, aquele com o cordel, e sua voz foi um sussurro que abalou os fundamentos da visão.

— Corre, fala ao jovem — e a palavra ‘jovem’ aqui não era sobre idade, Jebul sentiu, era sobre algo frágil, esperançoso, em gestação — fala-lhe: Jerusalém será habitada como aldeias sem muros, por causa da multidão de homens e animais que haverá nela.

Jebul engoliu em seco. Aldeias sem muros? Era uma sentença de morte. Qualquer vilarejo desprotegido era presa fácil para salteadores, para os exércitos que ainda circulavam como lobos famintos pelas províncias. Era uma insanidade.

E a voz do que voava continuou, agora mais forte, dirigindo-se não mais ao mensageiro, mas atravessando as camadas da visão até chegar a ele, Jebul, como se ele próprio fosse o ‘jovem’:

— Pois Eu serei para ela, diz o SENHOR, um muro de fogo ao redor. E Eu serei a glória no meio dela.

Um muro de fogo. As palavras ecoaram no vazio do peito de Jebul. Ele olhou para a Jerusalém da visão e, de repente, não viu mais pedras soltas e poeira. Viu um círculo flamejante, um incêndio divino que cercava a cidade, um fogo que não consumia, mas protegia. Um fogo que era presença. E dentro desse círculo, não a sombra de um grande edifício, mas uma luminosidade densa e doce, uma glória que permeava tudo, as casas, as ruas, as pessoas. A própria cidade se tornava um recipiente para essa glória. A segurança não vinha mais da espessura da pedra, mas da proximidade do Fogo.

A visão se dissolveu por um instante, e a voz do SENHOR, agora direta, impessoal e ao mesmo tempo íntima como um segredo, prosseguiu:

— Ah, ah! Fujam, então, da terra do norte — e Jebul entendeu: Babilônia, o exílio, o lugar da dispersão. — Pois Eu os espalhei aos quatro ventos do céu. Ah, escapa para Sião, tu que habitas com a filha da Babilônia.

Era um chamado urgente, um grito. Não uma sugestão, mas uma ordem de evacuação. Saia de lá. Deixe o confuso, o seguro, o assimilado. Volte para cá, para este lugar frágil e sem muros, porque aqui há algo que nenhum império tem.

O tom mudou novamente. Tornou-se solene, uma proclamação que fazia o próprio ar vibrar.

— Pois assim diz o SENHOR dos Exércitos, Aquele que, depois da glória, me enviou às nações que vos despojaram: quem tocar em vocês, toca na menina dos meus olhos.

Jebul sentiu um calafrio. A ‘menina dos meus olhos’. A parte mais sensível, mais protegida, mais preciosa. Jerusalém, esse monte de escombros e esperança, não era um projeto de reconstrução humana. Era a pupila de Deus. Tocá-la era provocar um reflexo divino, imediato e devastador. Aquele que mede todas as coisas havia colocado seu tesouro no centro daquela vulnerabilidade.

A visão final chegou com uma força tranquila. Jebul viu as nações, uma miríade de povos, línguas e cores, convergindo. Não com espadas, mas com uma disposição diferente. E ouviu, como se estivesse no meio da multidão:

— Canta e alegra-te, ó filha de Sião, pois eis que venho, e habitarei no meio de ti — e a palavra ‘habitar’ era *shakan*, a mesma raiz da *Shekinah*, da glória que pousa, que faz morada. — E muitas nações se ajuntarão ao SENHOR naquele dia, e serão o meu povo.

Não era uma anexação. Era uma união. O muro de fogo não era uma barreira para excluir, mas um círculo de atração. A glória no centro era um ímã. Jerusalém sem muros, aberta, seria o ponto de encontro.

— E o SENHOR herdará a Judá como sua porção na terra santa, e tornará a escolher Jerusalém.

A escolha. Essa foi a palavra que ficou pairando. Não foi por mérito. Não foi por estratégia. Foi um ato de amor obstinado, como um homem que, depois de uma grande perda, volta ao mesmo lugar e diz: “Aqui. É aqui que quero construir.”

A visão se esvaiu. Jebul estava de joelhos no chão de terra batida da tenda. O suor em seu rosto estava frio. A forja já era apenas brasas moribundas. Lá fora, a noite havia caído sobre Jerusalém. Ele se levantou, os ossos rangendo, e foi até a entrada. Olhou para a cidade adormecida, para os contornos irregulares das poucas casas, para o vazio onde estiveram os grandes muros de Salomão.

Agora, porém, ele não via a falta. Via o espaço. Um espaço que aguardava um preenchimento diferente. Ele respirou fundo. O ar noturno trazia o cheiro da terra revolvida e da pedra lascada. E por um instante, apenas um instante, Jebul pensou sentir, não um calor, mas uma *promessa* de calor, pairando sobre a colina. Como o cheiro distante de um incêndio, ou o prenúncio do amanhecer. Ele voltou para a bigorna, pegou o martelo. O trabalho continuava. Mas cada batida, agora, soava diferente. Não era só o som de construir algo. Era o som de esperar por um Fogo.

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