Bíblia em Contos

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A Última Chance em Mispá

O sol da tarde caía pesado sobre os campos queimados ao redor de Ramá. O ar ainda carregava o cheiro de cinza e desespero, um fantasma daquela última e terrível investida babilônica. Entre os grilhões que rangiam e o choro abafado dos cativos, eu, Jeremias, me vi de súbito puxado para fora da coluna de prisioneiros. O capitão da guarda, Nebuzaradã, um homem de rosto calejado e olhos que haviam visto demasiado, fitou-me com uma curiosidade que beirava o respeito.

— O SENHOR, teu Deus, pronunciou esta calamidade sobre este lugar — disse ele, sua voz áspera como pedra lascada. — E agora Ele a cumpriu. O SENHOR fez como havia falado. A culpa é de Judá, que não ouviu a sua voz. Por isso tudo isso lhes sobreveio.

Ele soltou os grilhões de minhas mãos. O metal caiu no chão poeirento com um baque surdo. Meus pulsos estavam marcados, mas a sensação de peso, aquele peso constante, simplesmente se desfez. Olhei para ele, sem compreender. Ele então me deu uma escolha: seguir para a Babilônia, onde teria cuidado e provisões, ou ficar. Ficar onde? Tudo era ruína.

— Vai, volta a Gedalias, filho de Aicam, a quem o rei da Babilônia nomeou governador sobre as cidades de Judá, e habita com ele no meio do povo. Ou vai para qualquer lugar que achares conveniente.

A escolha não era realmente uma escolua. O profeta do SENHOR não podia buscar o conforto de um exílio dourado enquanto os restos do seu povo jaziam espalhados como cacos. Aceitei provisões: um pouco de comida e um presente. Era pouco, mas era tudo. E assim, deixando para trás o som dos passos arrastados dos meus irmãos rumo a uma terra estrangeira, virei-me e comecei a caminhar de volta para o sul, para Jerusalém. Ou melhor, para o que dela restava.

A visão era de partir a alma. Onde antes se erguiam portões imponentes, agora havia brechas abertas a golpes de aríete. As muralhas, outrora um colo seguro, pareciam dentes quebrados no maxilar de um cadáver. O cheiro era pior aqui: morte, madeira queimada, e uma tristeza tão densa que se podia quase tocá-la. Não havia ninguém. Apenas o zumbido de moscas e o lamento do vento por entre as fendas das pedras. Não era um lugar para se viver. Segui adiante, em direção a Mispá.

Mispá era diferente. Situada numa colina, escapara da destruição total. E para lá, como gotas de água escorrendo para o ponto mais baixo, tinham começado a convergir os remanescentes. Judeus que se haviam escondido nas cavernas dos montes, nos vales profundos, no deserto que beirava o Jordão. Eram rostos esquálidos, olhos arregalados de medo e fome, homens e mulheres que haviam perdido tudo, menos o instinto de sobreviver. E no centro daquilo tudo, tentando trazer ordem ao caos, estava Gedalias.

Ele não tinha a aparência de um governante. Era um homem magro, de semblante sério mas não cruel, com uma ansiedade profunda cravada nos cantos de seus olhos. Recebeu-me não como um profeta, mas como um velho amigo. Seu pai, Aicam, outrora me protegera. Agora, na casa de governo improvisada, ele me falou com a voz rouca da responsabilidade.

— Fica comigo, Jeremias. Serás os meus olhos e os meus ouvidos. O povo precisa de esperança, não apenas de ordens.

E Gedalias trabalhou. Trabalhou como se pudesse, com as próprias mãos, costurar o tecido rasgado da nação. Proclamou aos soldados que haviam ficado escondidos, aos camponeses, a todos aqueles rostos perdidos:

— Não temais servir aos caldeus. Habitai na terra e servi ao rei da Babilônia, e bem vos irá. Quanto a mim, eis que habito em Mispá. Vós, colhei o vinho, as frutas de verão e o azeite, armazenai-o nos vossos vasos, e habitai nas cidades que tomastes.

Era uma mensagem de pragmatismo, quase de rendição. Mas era também um sopro de ar puro. Aos poucos, uma frágil normalidade começou a brotar. Homens que ainda tinham força foram para as vinhas. Mulheres limparam as cisternas. O som do machado nas árvores, não para construir máquinas de guerra, mas para lenha, encheu o ar. Chegavam notícias de que em outras províncias, remanescentes também ouviam falar do governo de Gedalias e vinham. Homens como Joanã, filho de Careá, um líder militar astuto, e Jesanias, de Maacati, e seus homens. Todos vinham com suas espadas ainda embainhadas, desconfiados.

Num desses dias, Joanã veio a Gedalias em particular. Seu rosto estava tenso.

— Gedalias, sabes que Baalis, rei dos amonitas, enviou Ismael, filho de Netanias, para te tirar a vida? — sussurrou, os olhos escrutinando a sala vazia. — Não acredites neles. Deixa-me ir, e matarei Ismael. Por que razão haveria ele de te matar, dispersando assim todo o povo que se reuniu a ti?

Gedalias olhou para ele por um longo momento. Vi nele não ingenuidade, mas uma exaustão profunda, uma recusa a mergulhar novamente no poço da violência e da desconfiança que tinha levado Judá à ruína.

— Não faças tal coisa — respondeu, a voz firme mas cansada. — Pois o que dizes acerca de Ismael é falso.

Joanã partiu, frustrado. A tensão, porém, permaneceu no ar, como o cheiro de uma tempestade distante. A vida seguiu. A colheita foi melhor do que o esperado. Em Mispá, por um breve e precioso instante, pareceu que a paz, ainda que sob o jugo babilônico, era possível. Comíamos pão juntos, Gedalias, eu e todos os capitães e o povo. Riamos de coisas pequenas. Era um frágil feixe de luz em meio a uma escuridão imensa.

Até que Ismael veio. Veio com dez homens, aparentemente em paz. Gedalias, mantendo sua palavra, recebeu-os para uma refeição no pátio da residência. Eu não estava presente. Havia ido às caves verificar os vasos de azeite. O silêncio que se seguiu ao banquete foi rompido não por palavras de concórdia, mas por um grito abafado e o som metálico de espadas sendo desembainhadas. Depois, um silêncio ainda mais pesado.

Quando a notícia chegou até mim, trazida por um servo pálido e trêmulo, o sol já se punha, tingindo as nuvens de um vermelho que parecia sangue. Gedalias, o homem que acreditara na possibilidade da ordem, jazia morto. Com ele, caíam os judeus e os caldeus que com ele estavam. Ismael, a ferramenta de Baalis, cumprira sua missão sinistra.

O caos retornou, mais voraz do que nunca. O povo, aquele povo que começara a respirar, entrou novamente em pânico. Ismael capturou os remanescentes em Mispá e partiu, rumo a Amom, buscando o favor do rei que o enviara. A frágil colheita de esperança fora pisoteada antes mesmo de amadurecer.

Fiquei para trás, entre as sombras alongadas de Mispá. Olhei para os campos onde, por algumas semanas, homens e mulheres haviam trabalhado com um propósito. Agora estavam vazios outra vez. O jugo babilônico parecia, naquele momento, não um castigo, mas uma ironia terrível. Tínhamos tido uma chance, um vislumbre de graça em meio ao juízo. E a escolhemos destruir com nossas próprias mãos, movidas pelo ódio, pela desconfiança e por ambições mesquinhas. O vento soprava, trazendo o cheiro da terra revolvida. Era o cheiro do vinhedo que nunca seria completamente colhido.

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