Bíblia em Contos

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O Servo e a Justiça Silenciosa

O sol da tarde era um disco opaco de cobre suspenso na poeira do sertão. Na sombra raquítica de um umbuzeiro, um homem descansava os pés doloridos. Seu nome era Emanuel, mas ninguém o chamava assim. Era apenas “o Servo”. Não era alto, nem de aparência que chamasse a atenção; seus olhos, porém, guardavam uma profundidade quieta, como os poços no inverno, cheios de uma água que ninguém via.

Havia chegado à vila de Cana no início da semana, sem alarde. Não vieram rumores antes dele, nem salmos de anunciadores. Ele simplesmente aparecera, sentado na mureta da velha praça, observando as crianças brincarem. Oferecera-se para ajudar o velho Isaque a consertar o telhado de palha que gotejava sobre a esteira de sua filha doente. Trabalhara em silêncio, suas mãos – calejadas, surpreendentemente fortes – entrelaçando a palha com uma paciência que parecia acalmar até o vento quente.

Naquele dia, fora ao povoado vizinho de Sefelé. O caminho era uma trilha de terra rachada, flanqueada por canaviais murchos. O ar tremeluzia com o calor. No meio do caminho, encontrou uma cena. Dois homens discutiam alto, um deles segurando as rédeas de um jumento que o outro reivindicava. O animal, magro e com o flanco suado, olhava para o chão, como se envergonhado da estupidez humana.

O Servo parou. Não ergueu a voz. Não se interpôs. Aproximou-se do jumento e pousou a mão em seu pescoço, num gesto tão natural que os homens, por um instante, calaram-se. Ele sussurrou algo ao ouvido do animal, algo que nem os homens ouviram. Depois, voltou-se para eles e disse, com uma brandura que era mais cortante que um grito: “A lei diz que a propriedade se resolve com testemunhas e juízes, não com gritos que quebram a cana verde. Vamos à vila. Caminhem à minha frente.”

Não era uma ordem; era uma evidência. Os homens, confusos, obedeceram. Ele seguiu atrás, guiando o jumento. Na vila, o assunto foi resolvido por um ancião com base num documento empoeirado. O Servo não ficou para o veredito. Foi até o bebedouro e deu água ao jumento, balde após balde, com uma persistência calma. A água escorria pelo focinho do animal e pingava no chão de terra, formando um pequeno lamaçal escuro. Um menino que observava jurou depois que, por um momento, aquelas gotas pareciam brilhar como estilhaços de luz.

De volta a Cana, à sombra do umbuzeiro, ele fechou os olhos. Não era um sono, era uma vigília. Em sua mente, ele via outras terras, outros sofrimentos. Via o cárcere escuro onde homens definhavam sem esperança, a chama fraca da fé prestes a se apagar num pavio fumegante. Ele sentia o peso daquilo. Não como um fardo imposto, mas como uma escolha aceita no íntimo do seu ser. Ele não esmagaria o caniço já rachado pela injustiça, nem apagaria a lamparina que mal tremulava. Antes, com um fôlego suave, tornaria o caniço reto outra vez; com um toque de azeite, faria a chama arder limpa e alta.

Abriu os olhos. O céu começava a se tingir de púrpura e laranja. Levantou-se. Seus ossos doíam, mas havia uma firmeza em seus passos. Dirigiu-se à casa de Isaque. A filha dele, uma moça chamada Lídia, jazia febris há dias. O cheiro no quarto era de doença e ervas amargas. A mãe, exausta, fitava o chão de terra batida.

O Servo não fez discursos. Sentou-se no banquinho ao lado do leito. Pegou um pano limpo, molhou-o numa bacia com água fresca e começou a passar na testa da jovem, com uma lentidão ritual. Não orou em voz alta. Seus lábios quase não se moviam. Era como se seu silêncio fosse, ele mesmo, uma oração viva. O suor da febre aos poucos cessou. A respiração ofegante e superficial foi dando lugar a um ritmo mais profundo e tranquilo. Ele não a curou com um estrondo; foi como se ele, simplesmente, tivesse entrado no quarto e, com sua presença, afastado um peso que sufocava o ar. A luz do último raio de sol entrou pela fresta e caiu sobre o rosto de Lídia, agora sereno em um sono natural. A mãe, vendo, não soltou um grito de alegria. Um único e grosso silêncio se fez no cômodo. Ela apenas cobriu o rosto com as mãos e seus ombros tremeram, aliviados.

Na praça, à noite, ele compartilhou a simples ceia de pão e azeitonas com os homens. Falou pouco. Ouviu as queixas da seca, o medo dos cobradores de impostos, a dor surda de uma esperança que murchava como as plantas. Quando falou, sua voz era baixa, mas penetrante como a raiz do mandacaru que busca água no profundo.

“A justiça”, disse, “não virá com o estrépito de carruagens de guerra. Virá como o primeiro fio de verde no solo rachado. Não se ouvirá o ruído de seus passos no alpendre. Vocês a conhecerão pelo sustento que chega em silêncio, como o orvalho que ninguém vê cair, mas que umedece a terra ao amanhecer.”

As palavras não eram grandiosas. Assentaram-se no coração dos homens como sementes lançadas em um bom solo, no escuro, onde ninguém as vê germinar.

Antes de partirem, ele olhou para o céu negro, salpicado de estrelas frias. Seus olhos percorreram a imensidão, como se traçassem um mapa. Do sertão árido ao mar distante, das aldeias esquecidas às cidades orgulhosas que jaziam em trevas que julgavam ser luz. Tudo aquilo estava sob seu olhar. Tudo aquilo estava em suas mãos, não para esmagar, mas para sustentar.

No dia seguinte, ao amanhecer, ele já havia partido. Não deixou rastro, apenas uma sensação estranha no ar, como a quietude que precede uma chuva longamente esperada. No telhado de Isaque, a palha estava firme. No bebedouro da praça, a água parecia mais clara. E no coração de Lídia, que se levantara são e forte, havia uma quieta certeza, inexplicável, de que a luz não teme a escuridão, porque a penetra e, suavemente, a dissipa.

O Servo seguiu pela estrada. A missão não era um espetáculo. Era um caminho. E ele, com paciência infinita, não se cansaria nem desanimaria, até que a justiça fosse estabelecida na terra. E as ilhas, mesmo as mais distantes, aguardariam, sem saber ao certo o quê, a sua lei terna e invencível.

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