O ar em Jerusalém carregava um peso úmido e antigo, o cheiro de pedra aquecida pelo sol, de azeite e de medo. No alto das muralhas, um velho sacerdote, cujo nome a história não guardaria, apoiava as mãos nodosas na pedra de parapeito e olhava para o norte. Seus olhos, embaçados pelos anos, não viam muito além das colinas cinzentas de Benjamim, mas sua alma enxergava mais longe. Enxergava a sombra que descia da Mesopotâmia, grossa e metálica como a fumaça de mil forjas.
A Assíria. A palavra sussurrada nas praças, gaguejada nas orações noturnas, cuspida nos conselhos do rei. Eram a navalha na garganta do mundo. E o profeta Isaías, há tanto tempo, vinha raspando palavras ásperas como sílex contra os ouvidos endurecidos dos poderosos. O sacerdote lembrava-se de alguns dos oráculos, daquela voz que parecia vir do fundo de um deserto interior: “Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidade!”
Mas não eram apenas os próprios líderes de Judá o alvo. Havia uma teia maior, um desígnio que punha calafrios na espinha do velho. Ele via, na mente, os exércitos assírios como um rio de bronze e carne, arrastando-se para o sul. Eram o flagelo, a vara da ira, o bordão da indignação do Senhor. Sim, isso Isaías dissera. O Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, estava levantando a Assíria como um machado na mão de um lenhador. E o bosque a ser talado? As nações. Inclusive Judá, tão cheia de altivez e mãos manchadas de iniqüidade.
O sacerdote fechou os olhos e viu, como em um sonho acordado, o palácio em Samaria, capital do reino irmão do norte, Israel. Já tinha caído anos antes, mas a memória do estrondo ainda ecoava. Viu os muros desmoronando não apenas pela força dos aríetes, mas pelo peso de uma apostasia cultivada por gerações. Bezerros de ouro em Dã e em Betel, altares em todos os montes altos, alianças com potências pagãs em vez de confiança no Santo de Israel. A Assíria fora a foice. Mas Quem tinha afiado a lâmina?
E agora, a tempestade virava-se para Judá. O rei Ezequias, bem-intencionado mas assustado, ouvia conselheiros que sussurravam sobre tributos, alianças com o Egito, qualquer coisa que não fosse depender unicamente daquele Deus invisível cujas exigências eram tão severas. O sacerdote suspirou. Eles não entendiam. A Assíria, em sua furiosa arrogância, também não entendia.
Ele imaginou o rei da Assíria, Sargão ou talvez Senaqueribe, em sua tenda real forrada de púrpura, estudando mapas gravados em couro. Um homem que acreditava ser o punho do próprio destino. “Por meio da força da minha mão o fiz”, ele diria, pensou o sacerdote. “E pela minha sabedoria, porque sou entendido.” Removeria os limites dos povos, saquearia seus tesouros, e derrubaria, como um gigante bêbado, todos os que estivessem em seu caminho. Ele se veria como um lenhador orgulhoso, abatendo as altivas cedros do Líbano, os ciprestes mais formosos. Jerusalém seria apenas mais um monte de árvores caídas para ele.
Mas eis o nó da questão, o mistério que fazia o velho sacerdote tremer não de terror, mas de um assombro reverente. O machado não se gloriaria contra quem o maneja. A serra não se exaltaria contra o serrador. Era uma imagem que o atormentava e consolava ao mesmo tempo. A Assíria era um instrumento, cego e brutal. Executaria uma obra de julgamento, sim. Pisotearia Judá como a lama das ruas, cercaria Jerusalém como um laço, faria tremer os corações mais bravos. Porém, em seu coração, nutriria um propósito próprio: destruir e aniquilar nações não poucas, apagar o nome de Israel e de seu Deus do mapa do mundo.
E então, sussurrou o sacerdote para o vento quente que subia do vale, vem a reviravolta. Quando o Senhor tiver acabado toda a sua obra no monte Sião e em Jerusalém, Ele se voltará. O castigo reservado para a altivez de Judá teria um limite, uma medida. Mas a altivez do coração do rei da Assíria, essa não teria freio. Ela seria sua própria condenação.
O velho imaginou o exército arrogante acampado nos arredores da cidade, suas tochas pontilhando a noite como estrelas profanas. Imagina o Rabshake, o porta-voz assírio, gritando em hebraico rude ameaças blasfemas contra o Deus vivo, equiparando-O aos ídolos mudos das outras nações. “Acaso os deuses das nações as livraram?” berraria. O terror dentro dos muros seria palpável, um gosto de cobre na boca.
Mas então, o sacerdote sorriu um sorriso sem dentes, um sorriso de quem conhece o final da história antes que ela aconteça. Viria a noite. E sobre o arraial assírio, não uma legião de anjos com espadas flamejantes, mas algo mais terrível e silencioso: o sopro do Senhor. Um vento que não agitava as bandeiras, mas que apagava a vida. Ao amanhecer, o silêncio. E diante dos portões, não um exército em ordem de batalha, mas um campo de cadáveres, uma colheita macabra ceifada por uma mão invisível. O machado, depois de usado, quebrado e jogado no fogo.
O julgamento começaria pela casa de Deus. Era um pensamento solene. A Assíria era a fornalha da aflição para purgar a escória de Judá. Mas o que seria da fornalha depois de cumprir sua tarefa? Consumida por seu próprio fogo.
O sol começava a se pôr, tingindo as pedras de Jerusalém com um dourado sanguíneo. O sacerdote afastou-se do parapeito, seus ossos rangendo. Desceu lentamente pela escada de pedra em direção ao Templo. O povo que passava por ele via apenas um ancião curvado. Não podiam ver a visão clara que ele carregava: a de que o juízo de Deus é um rio de duplo curso. Ele corre sobre os ímpios que oprimem, sim. Mas primeiro, muito primeiro, ele limpa e aprofunda seu próprio leito no coração dos que Ele chama de Seus. E no final, apenas um remanescente, um pedaço que sobrou, como as sobras de uma oliveira depois da tempestade, voltaria a lançar raízes. Um remanescente que não confiaria mais em reis, em cavalos, em muros, mas no Santo de Israel.
Dentro do pátio do Templo, o aroma do incenso misturava-se ao cheiro de animais para o sacrifício. O sacerdote parou diante do altar, e em seu coração, as palavras duras de Isaías transformaram-se em uma prece sem palavras, um gemido demasiado profundo para ser articulado. Era um gemido por Judá, pela Assíria, por todos os reinos que se levantam e caem, achando que a história é apenas obra de suas mãos. E no silêncio que se seguiu, ele quase pôde ouvir o rangido distante do machado, manejado por uma Mão que ele não podia ver, mas em cuja justiça, inexplicavelmente, ele ainda esperava.




