O dia amanheceu frio sobre os escombros de Jerusalém. O ar carregava ainda o cheiro de cinza antiga misturado ao odor úmido da terra revolvida. Ezra apoiou as mãos calejadas na pedra irregular da muralha inacabada, seus dedos encontrando as marcas de cinzel deixadas pelos homens no dia anterior. Seus olhos, cansados de noites mal dormidas, percorreram o vale abaixo. Não era mais a cidade gloriosa dos cantos de seus pais, mas um coração partido, batendo devagar, teimando em não parar.
Um vento súbito desceu do monte, mais cortante do que o fio de uma espada caldeia, e Ezra encolheu os ombros sob o manto esgarçado. A lembrança do inverno no exílio, o desconsolo de uma terra estrangeira onde até as estrelas pareciam mudas, apertou-lhe o peito. Foi então que ouviu. Não uma voz, mas um som. Um murmúrio profundo que vinha não dos homens, mas das próprias pedras, das fundações do mundo. Era como se a cidade, em sua agonia, suspirasse. E naquele suspiro, uma verdade desceu sobre ele, não como uma revelação estrondosa, mas como a chegada lenta do calor ao amanhecer.
Ele olhou para os trabalhadores que já se agitavam lá embaixo, pequenos como formigas sobre a imensidão da ruína. Homens de costas curvadas, mulheres carregando cântaros, crianças correndo com pães escuros nas mãos. E compreendeu, de repente, a canção que há dias fermentava em seu espírito. Não era um hino de triunfo rápido, mas um canto tecido de fios paradoxais: lamento e louvor, memória da ferida e evidência da cicatriz.
“É bom cantar louvores ao nosso Deus”, ele sussurrou para o vento, e as palavras pareceram ganhar vida própria, ecoando no silêncio de seu íntimo. “É coisa suave e decorosa.” Suave como o óleo sobre uma contusão. Decorosa como um manto limpo sobre ombros desnudos. O louvor, naquele contexto, não era a negação da dor, mas sua transformação. Era dizer, diante do que ainda estava por fazer, que Aquele que ordenara o universo também recolhia os pedaços.
Seus olhos pousaram sobre um grupo de homens reunidos em torno de um ferido. Um jovem, filho de Jônatas, escorregara na pedra solta e quebrara o pé. Os rostos estavam sombrios, a perda de um dia de trabalho pesava mais que a dor do rapaz. Ezra desceu devagar, apoiando-se nos degraus irregulares. Aproximou-se e, sem dizer nada, pôs a mão sobre o tornozelo inchado e descolorido. Não era um curandeiro, nem pretendia sê-lo. Mas naquela manhã, a convicção o inundava. “O Senhor sara os quebrantados de coração”, pensou, enquanto seus dedos tocavam a pele quente, “e ata-lhes as feridas.”
A oração que surgiu de seus lábios foi simples, quase rouca. Uma petição pelo jovem, sim, mas também por todos ali, por aquela geração inteira que carregava fraturas invisíveis. E ao erguer os olhos, viu não um milagre espetacular, mas a tensão no rosto do rapaz diminuir, substituída por uma surpresa tranquila. A cura maior, Ezra sabia, começava por dentro, no lugar onde o desespero se transformava em espera.
A tarde trouxe consigo a sombra alongada das colinas e um novo desafio: a comida era pouca. As provisões trazidas da viagem estavam no fim, e a terra, ainda não completamente restaurada, dava pouco. Um murmúrio de ansiedade começou a circular. Ezra, porém, subiu a um ponto mais alto e apontou para o céu, onde nuvens pesadas e escuras começavam a se acumular no horizonte, vindas do mar.
“Ele conta o número das estrelas”, disse, sua voz se firmando, não como um grito, mas como uma afirmação sólida, “a cada uma chama pelo seu nome.” Os homens olharam para ele, confusos. Que tinham a ver as estrelas com seus estômagos vazios? Ezra deixou que o silêncio se instalasse antes de continuar. “Grande é o nosso Senhor e de grande poder; o seu entendimento é infinito.” Se Aquele que nomeia a infinitude dos astros conhecia a medida exata de suas necessidades, então a ansiedade era uma ofensa à Sua ciência. A fé, naquele momento, era crer que o mesmo Deus que ordenava o cosmos não era indiferente à fome de seus filhos.
E as nuvens chegaram. Não com violência, mas com uma chuva generosa e constante, que encheu as cisternas há muito secas e lavou a poeira da destruição. No dia seguinte, ao amanhecer, a geada cobriu os campos com um manto branco e quebradiço. Alguns reclamaram do frio. Mas Ezra, caminhando à beira do campo, viu naquela geada uma lição silenciosa. “Ele envia a sua palavra à terra”, murmurou, observando os cristais reluzentes ao sol nascente, “e ela se derrete; faz soprar o vento, e correm as águas.”
A palavra d’Ele era soberana. Tanto a que congelava, disciplinando a terra, quanto a que derretia, trazendo alívio. O ciclo do rigor e da misericórdia não era capricho, mas pedagogia divina. E o povo, aos poucos, começava a aprender. Não eram mais apenas sobreviventes, mas alunos de uma sabedoria antiga e nova.
Os meses se passaram. A muralha cresceu, pedra sobre pedra. A neve veio, rara e bela, cobrindo tudo de um silêncio sagrado. Ezra lembrava-se dos invernos brutais da Mesopotâmia, onde o frio era um carcereiro. Aqui, porém, olhando os flocos cair lentamente sobre os telhados reconstruídos, ele via outra coisa. “Ele dá a neve como lã”, cantarolava baixo, “espalha a geada como cinza.” Era um manto, não uma prisão. Um descanso para a terra exausta.
E quando o granizo despencou, duro e ruidoso, destruindo uma pequena horta nos arredores, houve clamor. Mas Ezra, com uma paciência que ele mesmo não conhecia, reuniu os desolados. “Ele lança o seu gelo em pedaços”, afirmou, seu rosto sério. “Quem pode resistir ao seu frio?” Havia uma força tremenda e indomável na natureza, um lembrete de que eles não controlavam nada. A submissão não era derrota; era o reconhecimento da pequenez humana diante do Criador, a única posição segura para uma criatura.
Então, veio a primavera. O vento mudou, soprando do sul, quente e promissor. “Faz soprar o vento, e as águas correm”, ele disse, agora para uma pequena multidão que o buscava para ouvir seus cânticos. As torrentes, antes congeladas, desceram das colinas com força, irrigando os vales. A terra, que parecia morta, explodiu em verde. E Ele, o mesmo que dominava o inverno, agora enviava sua palavra para fazer brotar.
Aos pés da muralha quase concluída, Ezra viu as ovelhas de Levi, robustas e com lã espessa, pastando. Viu os bois fortes puxando o arado. Viu as crianças, agora com rostos menos angulosos, brincando. E a última estrofe do seu salmo, que amadurecera como fruto ao sol, completou-se em seu coração. A força do animal, a fertilidade da terra, a paz das crianças… nenhuma daquelas bênçãos era um direito adquirido, nem obra exclusiva do suor humano. “Ele não se deleita na força do cavalo, nem se compraz nas pernas do homem.” A força militar, a velocidade, o poder humano – tudo o que as nações veneravam – eram insignificantes para o Eterno.
O seu agrado, o seu sorriso benevolente, estava sobre outra coisa. Ezra fitou seu povo. Não um exército, mas uma comunidade. Não conquistadores, mas adoradores. Gente que aprendera a temer, não com um medo servil, mas com a reverência amorosa de quem conhece sua própria fragilidade e a força do que a sustenta. Gente que, na pobreza, aprendera a esperar na sua misericórdia.
Naquela noite, sob um céu lavado onde as estrelas cintilavam como faróis distantes, Ezra reuniu-se com os anciãos e as famílias no novo pátio do Templo, ainda sem teto, aberto para o firmamento. E com uma voz que já não era rouca, mas cheia de uma serena autoridade, cantou. Cantou o salmo inteiro, do primeiro ao último versículo. A canção da cidade quebrada e restaurada, do coração ferido e curado, do povo que aprendera que o verdadeiro poder não estava na pedra da muralha, mas no louvor que ascendia de seus escombros. Era um canto imperfeito, humano, cheio das marcas da própria história que contava. E soou, na quietude da noite, como a coisa mais verdadeira e decorosa que aquelas pedras, e aqueles corações, já tinham ouvido.




