O sol não aquecia. Era o que Davi pensava, encostado na pedra fria da varanda, os olhos vazios sobre os telhados de Jerusalém. Um vento cortante, prenúncio de um inverno rigoroso, agitava as pontas do seu manto, mas a friagem que sentia vinha de dentro. Havia semanas que o palácio, outrora cheio do eco de vitórias e do som de harpas, parecia um grande sepulcro de silêncio. O cheiro do incenso no altar lá embaixo, na cidade, chegava até ele, mas trazia consigo uma acusação, não um conforto.
Ele fechou os olhos e viu de novo o rosto de Urias, o hitita. Não o rosto do guerreiro leal, austero, que lhe apresentara relatos de batalha. Viu o rosto que sua imaginação pintara, no escuro de seus aposentos: o rosto de um homem traído, manchado de poeira e sangue, caindo sob as lanças amonianas por ordem *sua*. Uma ordem escrita com as próprias mãos, um decreto de morte disfarçado de estratégia militar. E por quê? Para esconder outra mancha, uma que já impregnava as próprias paredes do seu quarto, o perfume nos travesseiros, o eco de passos leves no corredor vazio. Bate-Seba.
O profeta Natã fora direto como uma flecha. A parábola do cordeirinho do homem pobre, roubado pelo rico, ainda ecoava em seus ouvidos como um gongo. “Tu és esse homem!”. As palavras não haviam sido gritadas, mas sussurradas com uma autoridade que partira sua alma ao meio. Não havia lugar para se esconder. Nem nos aposentos mais reclusos, nem nos labirintos do próprio pensamento. O pecado não estava apenas no ato; estava entranhado nele, como uma tintura negra que tingira até os ossos.
Davi se ergueu, pesado. Os pés arrastaram-se sobre os ladrilhos frios em direção a um pequeno quarto, um lugar sem adornos, onde guardava rolos de lei e um pequeno altar de pedra não lavrada. Ajoelhou-se, e o ato físico do joelho dobrado sobre o chão áspero foi uma confissão em si. Ajoelhar-se era algo que um rei quase não fazia. Agora, era tudo que podia fazer.
As palavras não saíram como um cântico. Saíram como um gemido roubado, um fio de voz que se desfazia no ar parado do quarto.
“Tem misericórdia de mim, ó Deus… segundo a tua benignidade.”
Benignidade. A palavra era um absurdo. Ele não merecia benignidade. Merecia a espada, a vergonha pública, a morte de um usurpador. Mas ele não pedia justiça. A justiça o esmagaria. Ele pedia algo que só podia vir do caráter do próprio Deus, algo imerecido, inexplicável. A *hesed*, a misericórdia aliançada, teimosa, que não desiste.
“Apaga as minhas transgressões.” Não era “perdoa”. Era “apaga”. Como se riscasse um registro escrito a tinta indelével. Como se uma esponja molhada passasse sobre uma lousa suja de culpa. Ele sentia o peso daquele registro. Cada olhar cobiçoso, cada mentira arquitetada, cada silêncio cúmplice, a ordem fatal… tudo estava escrito, e ele podia ler cada linha.
“Lava-me completamente da minha iniquidade.” Lembrou-se dos banhos rituais, da água corrente sobre as mãos e os pés. Era superficial. Sua sujeira era mais profunda. Era como a nódoa de vinho tinto num tecido de linho fino, que quanto mais se esfrega, mais se entranha. Precisava de uma lavagem que só um milagre poderia operar. “Purifica-me do meu pecado.” O verbo era aquele usado para a cerimônia do hissopo, o raminho que aspergia o sangue do sacrifício sobre o leproso, declarando-o limpo. Ele era um leproso da alma.
“Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.” Ah, isso era a mais pura verdade. Podia distrair-se por momentos, nas reuniões do reino, no sorriso do filho nos braços de Bate-Seba. Mas era só fechar os olhos. Urias estava ali. O adultério estava ali. A conspiração assassina estava ali. Um espectro triplo que não se dissipava.
“Contra ti, contra ti somente pequei.” Foi o ápice da sua confissão. Não havia relativização. Não podia culpar Bate-Seba por se banhar onde ele podia vê-la. Não podia culpar a fraqueza da carne, o tédio do poder, a solidão do palácio. O alvo final de todo aquele horror não era Urias, nem Bate-Seba, nem mesmo o próprio reino. Era Deus. Deus, a quem ele cantara louvores enquanto planejava o mal. Deus, cuja lei ele, o rei ungido, havia pisoteado com os pés sujos de ambição e luxúria. Foi uma traição íntima, pessoal.
“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” Não era uma desculpa. Era um reconhecimento desesperado de que a raiz do problema não estava apenas no ato, mas na natureza. Aquele fruto podre havia brotado de uma árvore que já nasceu inclinada. A culpa era sua, sim, mas a propensão para o mal vinha de mais longe. Era uma doença hereditária da alma.
“Eis que desejas a verdade no íntimo.” A frase lhe veio como uma revelação. Deus não queria sacrifícios grandiosos naquele momento. Não queria holocaustos de novilhos pelos mil. O que aquele olhar santo procurava era algo no escuro, no profundo, nas entranhas do seu ser: um fragmento de verdade. A verdade nua e crua da sua vergonha. Um coração que parasse de tentar se justificar e simplesmente dissesse: “Sim, Senhor. Fui eu.”
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro.” Aqui estava a súplica mais audaciosa. Ele não pedia um conserto. Pedia uma criação. Como Deus criara os céus e a terra do nada, do abismo, Davi pedia que das ruínas do seu coração partido, Deus gerasse algo novo, algo que nunca existira ali antes. Um coração que não se voltasse mais para a cobiça, para o engano, para a autopreservação mortal.
“E renova em mim um espírito inabalável.” O seu espírito, outrora corajoso diante de Golias, estava abalado. Trêmulo como uma folha de outono. Precisava do sopro firme de Deus, daquele *ruach* que pairava sobre as águas do caos no princípio, para trazer ordem ao caos dentro dele.
“Não me lances fora da tua presença.” O pior castigo, percebia agora, não seria a guerra ou a desgraça. Seria o silêncio. A sensação de que, quando ele clamasse, só encontraria o eco da sua própria voz num vácuo. A presença de Deus, mesmo quando o confrontava, era vida. A ausência seria a morte definitiva.
“Torna a dar-me a alegria da tua salvação.” A alegria. Lembrou-se dela. Era uma sensação física, como a luz do sol depois de um inverno longo. A leveza de saber-se amado, guardado, em paz. Tudo isso ele trocara por um momento de prazer vão. Agora, implorava por uma migalha daquela festa perdida.
Por um longo tempo, ficou ali de joelhos, em silêncio. As palavras tinham secado. Restava apenas um sentimento esgotado, um vazio que, de forma estranha, era menos pesado que a culpa opressora de antes. Era o vazio de quem despejou todo o lixo para fora, e agora aguarda uma nova mobília.
Lá fora, o vento continuava a uivar. Mas, dentro do quarto, Davi percebeu um detalhe. O cheiro de mofo e velho poeira parecia um pouco menos intenso. Ou era impressão sua? Levantou-se, os ossos rangendo. Nos olhos, ainda havia sombras profundas. Nos ombros, ainda o peso de consequências que viriam – a espada nunca se afastaria da sua casa, como Natã dissera.
Mas algo mínimo, quase imperceptível, havia mudado. A prisão da negação se rompera. Ele estava nu diante do céu, culpado, quebrado, mas, pela primeira vez em meses, verdadeiro. E, num canto remoto da alma, onde a esperança teima em não morrer, brotou uma frágil certeza: o Deus a quem ele ofendera tão profundamente era também o único que podia ouvir um grito que vinha do mais fundo do abismo. E, talvez, apenas talvez, fosse capaz de responder.
O salmo estava escrito no seu coração antes de ser gravado num pergaminho. Era a história de um homem que aprendera, da forma mais dolorosa possível, que a misericórdia é sempre um milagre. E que os corações são tão difíceis de criar quanto os mundos.




