Bíblia em Contos

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A Vigília do Salmo no Amanhecer

O dia ainda não havia nascido de verdade quando o velho Ismael chegou à colina. Uma espécie de respiro frio, um intervalo entre a noite e a manhã, envolvia o mundo. Ele sentou-se numa pedra lisa, gastada pelo tempo e pelos seus próprios joelhos, e puxou o manto de lã mais para perto do corpo. Aquela era a sua vigília, o seu turno de testemunha.

No leste, por trás das serras baixas, uma palidez começou a infiltrar-se no negro aveludado do céu. Não era cor ainda, era apenas a promessa dela. Ismael, com os olhos cansados de décadas de leitura à luz de lamparinas, fitava aquele vazio que se preparava para se encher. E então, como o primeiro acorde de uma sinfonia silenciosa, uma faixa de ouro pálido rasgou o horizonte. Não foi um evento brusco; foi um derramar lento, um vazamento de luz pelo rasgão do mundo. A escuridão, que momentos antes parecia um manto espesso, começou a recuar, não em fuga, mas em uma retirada solene, transformando-se em tons de índigo, de violeta, de um azul que doía de tão profundo.

“Os céus proclamam a glória de Deus,” murmurou ele, as palavras saindo como fumaça no ar gelado. Mas não eram palavras lidas agora; eram palavras vistas. Cada raio de sol que se espalhava, pintando as nuvens dispersas com rosa e âmbar, era uma sílaba. O avanço implacável da claridade, revelando os contornos das montanhas, os vales ainda adormecidos, os fios de prata do rio lá embaixo, era uma frase contínua, um discurso sem som. Não havia língua, não havia voz audível, e no entanto, aquela proclamação ecoava até os confins da terra. Aquele dia, como todos os outros que o precederam, saía como um noivo de seu aposento, jubiloso e radiante, e percorria, incansável, a abóbada celeste de um extremo ao outro. Nada, nem o mais profundo dos vales, escapava ao seu calor, ao seu toque revelador.

O sol já estava alto, pequeno e feroz no azul agora intenso, quando Ismael desceu a colina. A luz havia feito o seu trabalho de exposição. No vale, a vida fervilhava com uma clareza crua. Ele observou uma teia de aranha entre dois ramos de zimbro, os fios prateados orvalhados cintilando como uma constelação presa. Viu a estrutura perfeita, a geometria implacável. Não havia discurso ali, não havia palavras, mas um conhecimento silencioso e profundo permeava todas as coisas. A rocha, a planta, o inseto que cruzava a areia quente – tudo carregava a marca, a assinatura invisível. O mundo era um pergaminho aberto, escrito com a caligrafia do Criador.

A tarde encontrou Ismael na sombra fresca da sua tenda. O espetáculo do silêncio findara. Agora, era o momento da Palavra. Ele desenrolou o rolo de couro, seus dedos calejados tocando com reverência as colunas de texto. A luz que vinha da entrada da tenda caía sobre os caracteres hebraicos, negros e definitivos. Se a glória nos céus era um hino expansivo e sem letra, aquilo era uma lei precisa, um estatuto perfeito.

Ele começou a ler em voz baixa, e as palavras eram diferentes de qualquer outra coisa no mundo. Elas não eram como o sol, que aquece e ilumina, mas que também pode cegar e queimar. Elas eram *perfeitas*, *fazendo reviver a alma*. Uma verdade que não se contentava em ser admirada de longe, mas que buscava o íntimo do ser. Os *testemunhos do Senhor* eram *fiéis*, e tornavam sábio o simples – não com a sabedoria dos astros, mas com a sabedoria do caminho. Os *preceitos* eram *retos*, *alegrando o coração*. Ismael sentiu isso, uma calorosa alegria brotando no peito, diferente do júbilo do nascer do sol, mais profunda, mais arraigada. O *mandamento do Senhor* era *puro*, *iluminando os olhos*. E não era a mesma luz do astro-rei; era uma luz interior, que dissipava sombras da alma que nem o meio-dia mais brilhante poderia tocar.

A reverência tomou conta dele, um temor doce e pesado. O *temor do Senhor* era *limpo*, *permanecendo para sempre*. Não era um medo servil, mas o assombro diante de algo imaculado e eterno, diante de juízos que eram *verdadeiros* e *justos*, todos eles. Eram mais desejáveis que o ouro, do que muito ouro depurado. A comparação veio naturalmente. Ele, um homem pobre, sabia o valor do ouro. Mas aquelas palavras… elas tinham um sabor. *Mais doces do que o mel e o destilar dos favos*. O mel ele conhecia, a doçura que grudava nos lábios. A Palavra, porém, tinha uma doçura que se infiltrava, que adoçava o amargo que às vezes subia da vida.

E então, como uma sombra que se projeta de dentro para fora, o rosto de Ismael se contraiu numa expressão de dor. A luz perfeita da Lei tinha um efeito colateral terrível: ela revelava. Revelava não os contornos das colinas, mas os contornos da própria alma. E naquela claridade impiedosa, ele via as falhas, as rachaduras, as manchas escondidas. Quem pode entender os próprios erros?, pensou, com um peso no espírito. As transgressões ocultas, aquelas que nem ele mesmo nomeava claramente, pareciam gritar naquela luz silenciosa.

“Também de pecados ocultos me purifica,” sussurrou, e a súplica era real, nascida do contraste entre a glória proclamada nos céus, a perfeição exposta na Lei, e a pequena, frágil, e muitas vezes torta realidade do seu próprio coração. Era um pedido para que o mesmo Deus que ordenava o curso majestoso do sol e estabelecia estatutos perfeitos, se inclinasse para a desordem secreta dentro dele.

O sol começava sua descida, tingindo o ocidente das mesmas cores com que havia começado o dia. Ismael saiu da tenda. O céu novamente se incendiava, mas agora ele olhava com outros olhos. A proclamação continuava, poderosa e bela. A Lei continuava, doce e exigente. E ele, no meio, era apenas um homem.

Ele ergueu o rosto para o céu que escurecia, as primeiras estrelas cintilando como alfinetadas de luz no veludo azul. As palavras finais do salmo brotaram dele não como uma recitação, mas como um desejo profundamente sentido, a única resposta possível diante de tanto esplendor e tanta verdade:

“Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu.”

Era um pedido por coerência. Que sua vida interior, seus pensamentos mais secretos, e suas palavras faladas no mundo, fossem um reflexo, ainda que pálido e imperfeito, daquela glória e daquela lei. Que entre o discurso mudo dos céus e o discurso claro da Torah, a sua própria existência encontrasse um tom verdadeiro. A rocha sob seus pés era firme. O redentor, ele sabia, era misericordioso. E a noite que caía era apenas o intervalo até a próxima proclamação do amanhecer.

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