Bíblia em Contos

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Bíblia

O Aroma Perdido da Unção

A memória é um lugar estranho. Às vezes, ela não chega como um pensamento, mas como um cheiro, um gosto no ar, uma sensação de temperatura na pele. Foi assim naquela tarde, sentado na cinza, com o corpo dolorido e o silêncio pesado dos amigos como uma sentença. De repente, não foi o cheiro de cinza que senti, mas o aroma antigo, doce e pesado, do azeite escorrendo sobre minha cabeça.

Lembro-me dos dias em que o Onipotente ainda era meu companheiro de caminhada. Não num sentido tolo, como se eu pudesse apontar sua sombra ao meu lado na estrada poeirenta. Mas era uma certeza no peito, uma luz por trás de tudo. Sua lâmpada brilhava sobre minha cabeça, e eu caminhava pela escuridão à sua luz. Era uma guarda, uma presença. Nos dias do meu vigor, quando a força dos meus joelhos não me falhava e os músculos das coxas respondiam como cordas de bronze, Deus estava com meus filhos ao meu redor. Eram dias de abundância, sim, mas era a abundância da paz. O leite dos rebanhos não era tão doce quanto aquele senso de cobertura, de favor.

Ah, os outonos! Quando eu saía para o portão da cidade e tomava meu assento na praça, na rua larga. Os jovens me viam e se escondiam, recuavam, temerosos. Os anciãos se levantavam e ficavam em pé, em respeito. Os príncípios calavam a voz e punham a mão sobre a boca. A voz dos nobres emudecia, e a língua se lhes pegava ao paladar. Os ouvidos que me ouviam me chamavam feliz; os olhos que me viam davam testemunho a meu favor.

E por quê? Não por minha riqueza, primeiro. Mas porque eu era olhos para o cego e pés para o aleijado. Era pai para os necessitados. E as causas que eu não conhecia, investigava com cuidado. Quebrantava as presas do injusto e dos seus dentes fazia soltar a presa. Era um trabalho sujo, às vezes. Não era só dar ordens de longe. Era interpor o próprio corpo entre o opressor e o oprimido. Lembro-me de um caso, de um homem da tribo dos nômades do sul, cujo filho havia sido levado por um mercador ganancioso para pagar uma dívida inventada. Fui até as tendas do mercador, ao calor do meio-dia, quando todos repousavam. Ele recebeu-me com vinho e palavras suaves. Mas eu pus diante dele os registros dos grãos, as testemunhas silenciosas que ele pensara ter comprado. Não levantei a voz. Apenas coloquei a verdade na mesa, pesada como pedra. Seus olhos fugiram dos meus, e ao cair da tarde, o menino estava de volta aos braços do pai. Nada tomei por isso. A justiça era meu salário.

Então diziam: ‘No meio de nós morará Jó, um ramo fresco junto à água, uma árvore que não definha mesmo na estação do calor seco’. Meu caminho era banhado de nata, e as rochas vertiam para mim ribeiros de azeite.

Eu saía para o portão, e na cadeira preparada, esperavam. Homens de rosto fechado pela dor, mulheres de olhos baixos pela vergonha da pobreza. A viuvez, a orfandade, a doença que afasta até os familiares – todos vinham. E eu ouvia. Deus me deu ouvidos para ouvir o que não era dito, o grito abafado pelo medo. Minha justiça me vestia como um manto; meu juízo era como um turbante e uma túnica. Fazia justiça ao pequeno, conhecia o caso do estrangeiro que ninguém queria acolher.

Quebrei a mandíbula do perverso e da sua boca arranquei a presa. E não eram apenas palavras. Houve uma vez em que um grupo de salteadores aterrorizava as caravanas que passavam pelo desfiladeiro leste. Os anciãos tremiam. Contratei homens bons, armei-os não para atacar, mas para defender. Fomos e estabelecemos uma guarda. Houve confronto? Houve. Um deles, o líder, um homem de olhos frios como pedra de rio, foi trazido à minha presença. Esperava arrogância. Em vez disso, viu em meus olhos que eu não temia sua fama, nem cobiçava seus espólios. Só exigia que o terror cessasse. Ele cedeu. Não por minha força, mas por uma autoridade que vinha de um lugar que nem eu mesmo compreendia totalmente. Era como se a causa certa me vestisse de uma armadura invisível.

Dizia então comigo mesmo: ‘No meu ninho expirarei, e os meus dias serão multiplicados como a areia’. Minhas raízes se estendiam até as águas, o orvalho passava a noite nos meus ramos. Minha honra se renovava em mim, e o meu arco se reforçava na minha mão.

Os homens me ouviam e esperavam em silêncio; retendo a respiração para meu conselho. Depois que eu falava, já não replicavam, e minha palavra era como orvalho final sobre eles. Esperavam por mim como pela chuva, e abriam a boca como pela chuva serôdia. Se eu lhes sorria, mal ousavam acreditar; e a luz do meu rosto não faziam cair por terra. Escolhia o caminho para eles e me assentava como chefe; habitava como rei entre as tropas, como quem consola os que choram.

Era uma boa vida. Uma vida reta. Não uma vida perfeita, longe disso. Havia tristezas, preocupações com as colheitas, com a saúde dos filhos. Mas era uma vida com eixo, com centro. O temor do Senhor era o princípio, e dali fluía tudo o mais: a sabedoria para julgar, a coragem para enfrentar, a compaixão para socorrer.

O sabor do azeite na memória, porém, é amargo agora. Porque a lembrança do favor é a medida exata da profundidade da sombra onde agora me assento. A luz se foi. A cadeira na praça está vazia, ocupada por outros. Os que eu consolava, agora me evitam. E o silêncio que outrora era de respeito, hoje é de incompreensão e horror.

Mas naqueles dias… ah, naqueles dias, caminhava na luz. E ela era tudo.

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