O sol da tarde despejava um manto de ouro sobre as pedras de Jerusalém, mas dentro dos aposentos reais, um frio silêncio parecia habitar as sombras mais profundas. Josias, um jovem de feições sérias para seus dezesseis anos, não sentia o calor do dia. Seus dedos traçavam o contorno desgastado de um baixo-relevo na parede, uma figura de algum deus estranho, cujo nome seu avô Manassés provavelmente sabia. Um peso, opressor e estranho, apertava-lhe o peito. Não era medo, mas uma repulsa profunda, como se a própria pedra sob seus pés estivesse gemendo de abandono.
Ele se lembrava dos sussurros. Histórias contadas por Hilquias, o sumo sacerdote, em vozes baixas, sobre um Deus que não era de madeira ou pedra, que havia feito uma aliança com seu antepassado Davi. Essas histórias colidiam com o mundo ao seu redor: os altares nos altos, os postes sagrados junto aos carvalhos, o cheio constante de incenso estranho no ar. Seu pai, Amom, não havia feito nada. Seu avô, menos ainda. O templo do Senhor, diziam, estava lá, no monte, mas seu povo se curvava a Baal e à hoste dos céus em cada esquina.
Uma decisão, quieta e terrivelmente sólida, foi se formando nele naqueles dias. Não foi um clamor dramático, mas um acordar lento e obstinado, como a raiz de uma árvore quebrando a rocha. No oitavo ano de seu reinado, ainda adolescente, ele começou a buscar o Deus de Davi, seu pai. A expressão é vaga nas crônicas, mas podemos imaginá-lo: noites em claro, perguntas insistente aos poucos sacerdotes ainda fiéis, rolos empoeirados sendo consultados com dedos trêmulos. E dessa busca nasceu uma ação concreta, demolutiva.
A ordem partiu dele, mas a execução coube a homens de mãos calejadas. No décimo segundo ano de seu reinado, Josias saiu pelo reino, e Jerusalém viu passar um cortejo diferente: não de guerra, mas de purificação. Ele foi pessoalmente, não como um rei distante, mas como um capataz divino. Os altares de Baal foram os primeiros. Não houve cerimônia. Homens com marretas e alavancas subiam os montes, e o som que se ouvia não era de cânticos, mas do madeiramento estalando, da pedra sendo deslocada do alicerce. Ele mesmo, diante dos olhos atônitos de alguns e dos olhos horrorizados de outros, mandou reduzir a pó os altares de incenso que seu avô erguera. Viu as chamas consumirem os postes sagrados, aquelas vergonhosas representações de Asherah, e a fumaça subir, não como aroma suave, mas como o fedor de um lixo espiritual sendo queimado.
A campanha se estendeu para o norte, até as terras de Naftali, uma região há muito contaminada. Em Betel, o altar erguido por Jeroboão, aquele que desviou Israel, foi profanado. Conta-se que Josias, olhando para os montes de ossos que jaziam nos túmulos ao redor, ordenou que retirassem os ossos dos sacerdotes idólatras e os queimassem sobre aquele altar, cumprindo uma velha profecia feita séculos antes. Era um ato de justiça retrospectiva, macabro e necessário, um fechar de contas com a história.
Mas o coração da reforma estava em Jerusalém. O Templo, a casa do Deus que ele agora buscava com tanta ferocidade, estava em deplorável estado. Séculos de negligência e desvio tinham deixado suas marcas. A cobertura estava furada, as paredes úmidas, o mobiliário sagrado, desgastado ou perdido. No décimo oitavo ano de seu reinado, Josias mandou chamar Safã, o escrivão, um homem de confiança. “Vai à casa de Hilquias, o sumo sacerdote”, ordenou o rei, sua voz já não a de um jovem, mas a de um homem calejado pela responsabilidade. “Diz que ele deve fazer a contabilidade da prata trazida ao Templo, entregá-la aos mestres-de-obra, para que paguem os trabalhadores. Carpinteiros, pedreiros, ferreiros. Que consertem a Casa.”
Hilquias obedeceu. A prata, doada pelo povo, foi contada e entregue. Os trabalhos começaram, o som do cinzel e do martelo ecoando no monte Moriá depois de tanto tempo. E foi no meio dessa reforma prática, física, que aconteceu o achado. Hilquias, provavelmente vasculhando alguma câmara lateral, algum depósito esquecido onde se guardavam coisas velhas, deparou-se com um rolo. A poeira era espessa. O couro, envelhecido. Mas ao desenrolá-lo, suas mãos tremeram. Não era um registro de despesas. Eram palavras. A Lei. O Livro da Aliança, dado por Moisés, perdido, esquecido, abandonado na própria casa de Deus.
Ele entregou o livro a Safã, que o leu. E Safã, pálido, foi ao rei, que naquele momento supervisionava obras em outro setor. “Hilquias deu-me um livro”, disse o escrivão. E leu trechos para o rei. As palavras caíram como machados. Palavras sobre aliança, sobre bênção, mas também sobre maldição. Sobre o que aconteceria se o povo se esquecesse, se virasse as costas. Cada maldição soava como uma descrição precisa dos últimos cem anos de Judá.
Josias não aguentou. Rasgou suas vestes, um gesto antigo de desespero e luto. O terror que o tomou não era covarde, era o terror de quem entende a gravidade. “Ide e consultai o Senhor por mim”, ordenou aos sacerdotes, “porque grande deve ser o furor do Senhor que se acendeu contra nós, pois nossos pais não guardaram a palavra do Senhor.”
Foram até Hulda, uma profetisa que morava na parte nova da cidade. A resposta dela foi severa, sem meias-palavras. Sim, a maldição cairia. A desolação viria. *Mas*, e aqui a misericórdia sussurrou no meio do juízo, porque o rei se humilhara, rasgara suas vestes e chorara, ele não veria a calamidade. Morreria em paz.
Josias poderia ter desistido. A sentença estava decretada. Mas sua resposta foi a de um verdadeiro convertido: uma obediência imediata e total, mesmo diante de um futuro sombrio. Convocou todo o povo, dos maiores aos menores, para o Templo. Subiu ao estrado e leu, em voz alta, todas as palavras do Livro da Aliança. Fez uma aliança diante do Senhor, para seguir seus mandamentos com todo o coração. E obrigou todo o povo a fazer o mesmo.
O que se seguiu foi a reforma mais radical de todas. A Páscoa foi celebrada como nunca desde os dias de Samuel. Todos os resquícios de idolatria foram varridos de Jerusalém e das cidades de Judá. Os médiuns, os feiticeiros, os ídolos domésticos, tudo foi tirado. O texto diz que “não houve rei antes dele que se convertesse ao Senhor com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças, conforme toda a Lei de Moisés; e depois dele nunca se levantou outro tal”.
Josias morreria anos depois, em um combate desnecessário em Megido, seu corpo trazido de volta para Jerusalém em uma carruagem. O povo o chorou. E a desolação, como Hulda profetizara, veio depois. Mas a sua história não é sobre evitar o inevitável. É sobre a beleza de uma resposta íntegra. Sobre um homem que, encontrando-se com a Palavra perdida, não a usou para condenar os outros, mas para rasgar o próprio coração. E, tendo-a rasgado, pôs-se a trabalhar, varrendo o lixo do templo e da terra, na esperança teimosa de que, mesmo sob a sombra de um juízo certo, ainda era digno reconstruir, ainda era tempo de celebrar a Páscoa. Ele obedeceu, não pelo resultado, mas pela verdade encontrada na poeira. E nisso, brilhou como um fogo limpo e singular nos anos crepusculares de um reino.




