O sol da décima hora batia na fachada de pedra do palácio de Tirza com uma força que parecia querer rachar a própria rocha. Dentro, o ar era pesado, carregado do cheiro de ervas amargas e do suor do medo. A criança, Abias, filho de Jeroboão, queimava em febre no leito de cedro. Seu pequeno peito subia e descia com um esforço que partia o coração da mãe, sentada à beira da cama, um pano úmido e inútil entre os dedos finos.
Ela não chorava. Os olhos dela, fundos de noites mal dormidas, estavam secos como o deserto no auge do verão. Olhavam para o menino, depois para a janela estreita, onde um retângulo de céu azul implacável parecia uma afronta. Jeroboão, rei de Israel, não estava ali. Estava no seu lugar de sempre, no pátio dos assuntos do reino, tentando administrar a sombra de um trono que ele mesmo sabia estar construído sobre areia movediça. Dez tribos. Um altar em Betel. Bezerros de ouro que ele insistia em chamar de “representações”. E o silêncio de Deus, um silêncio que doía mais do que qualquer reprovação aberta.
A rainha – cujo nome a história não guardou, apenas seu título de “mulher de Jeroboão” – fechou os olhos por um instante. A decisão, tomada em segredo, a queimava por dentro. Jeroboão dissera, com a voz rouca daqueles que já não acreditam no que falam: “Vai a Siló. Disfarça-te. Ninguém deve reconhecer-te. Procura o profeta Aías. Ele é velho, está cego. Mas… ele sempre falou em nome do Senhor. Leva ofertas. Pão, bolos, mel. Descobre o que será deste menino.”
Ela sentiu um nó de desprezo, rápido e amargo, na garganta. Disfarçar-se? Como se esconder do olhar que via através das paredes e dos corações? Mas era a única tábua de salvação. O único profeta que restava, aquele mesmo que, anos antes, rasgara sua própria capa em doze pedaços e entregara dez a Jeroboão, ungindo-o rei. Aquele que anunciara a divisão do reino por causa dos pecados de Salomão. Agora, cego e amargurado em Siló, era a ele que recorriam.
A viagem foi um pesadelo de poeira e apreensão. Deixou as vestes reais, vestiu-se com roupas grosseiras de camponesa, cobriu o rosto, mas a ansiedade era um perfume mais distinto que qualquer unguento. Siló não era mais o grande santuário dos tempos antigos. Era um lugar diminuído, uma sombra do que fora. A casa de Aías era simples, de pedras irregulares, à sombra de uma figueira velha.
Ela parou à porta, as mãos trêmulas apertando o cesto de oferendas. O cheiro era de terra úmida e lamparina. Antes que pudesse bater, uma voz saiu de dentro, seca e clara como o estalar de um galho seco.
— Entra, mulher de Jeroboão. Por que te disfarças? Eu sou mandado a ti com duras novas.
O coração dela gelou. O disfarce era uma farsa inútil. Avançou para dentro. O velho estava sentado em um banco baixo, os olhos leitosos fixos num ponto vazio do espaço. Mas sua presença era avassaladora. A cegueira física parecia ter aguçado uma outra visão, mais profunda e terrível.
— Vai, diz a Jeroboão — a voz de Aías não era alta, mas enchia o cômodo escuro. — Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Por que te levantei do meio do povo, te fiz príncipe sobre Israel, rasguei o reino da casa de Davi e to dei, e tu não foste como Davi, meu servo, que guardou os meus mandamentos? Antes fizeste para ti outros deuses, imagens de fundição, para me provocar à ira, e a mim me lançaste para trás das tuas costas…
A profecia fluía, implacável. Cada palavra era um golpe de martelo sobre a estátua de barro que era o reinado de Jeroboão. Anunciava uma ruína total, varridura, dispersão. A casa de Jeroboão seria exterminada como se esterco fosse varrido até que não restasse pedra sobre pedra. A rainha escutava, paralisada, o cesto pesando como chumbo em seus braços. O ar, dentro daquela casa, parecia ficar mais rarefeito.
E então, o velho profeta voltou-se para ela, seus olhos cegos parecendo encontrar os dela no escuro.
— E quanto a ti, levanta-te e vai para tua casa. Quando os teus pés entrarem na cidade, a criança morrerá.
Ele fez uma pausa, e naquela pausa houve uma espécie de compaixão feroz, a única centelha de misericórdia em todo aquele juízo.
— Todo o Israel o chorará e o sepultará, porque só este, de todos os da casa de Jeroboão, entrará em sepultura; pois nele se achou algo de bom para com o Senhor, Deus de Israel.
A viagem de volta foi um túnel de desespero mudo. As palavras do profeta ecoavam em sua mente, misturando-se ao som dos cascos do animal sobre a estrada. A ruína do reino, a desgraça do marido… e a sentença sobre seu filho. “Algo de bom.” Por que apenas o menino? Por que poupá-lo da desgraça futura, concedendo-lhe a paz da sepultura, um privilégio negado a todos os outros? Era um consolo amargo, uma gota de água doce num mar de fel.
Quando os muros de Tirza surgiram ao longe, banhados pela luz oblíqua do fim da tarde, seus pés pareciam de chumbo. Cada passo a aproximava do cumprimento da palavra. Transpôs o portão. Ouvia os sons normais da cidade, o riso de uma criança em algum pátio, o chamado de um vendedor. A vida seguia, ignorante e cruel em sua normalidade.
Mal cruzara a soleira do pátio do palácio, um grito, longo e dilacerado, rasgou o ar. Era o grito da ama. A rainha não correu. Caminhou, lenta, solene, como em um ritual. Entrou no aposento. A febre tinha ido embora. No rosto do pequeno Abias havia agora uma paz estranha, uma serenidade que contrastava com o horror estampado nos rostos ao redor. Ele estava morto.
E, como dissera o profeta, todo o Israel o chorou. Houve pranto genuíno, não apenas pelo filho do rei, mas pela promessa perdida, por aquele em quem, talvez inconscientemente, o povo depositava a esperança de um futuro diferente. Foi sepultado com honras, e as lágrimas que molharam a terra de sua cova eram salgadas de um luto que ia além daquela criança.
Jeroboão, ao receber a notícia completa da boca da esposa, silenciou. Não houve explosão de raiva, nem novo ato de rebelião. Era como se, finalmente, a palavra pronunciada pelo velho cego em Siló tivesse drenado dele toda a força, toda a ilusão. Olhou para os bezerros de ouro no santuário de Betel, vistos da janela de seu palácio, e pela primeira vez não viu símbolos de um reino forte, mas apenas metal frio e mudo, incapaz de salvar, de responder, de consolar.
O sol se pôs sobre Tirza. A criança justa estava em sua sepultura. O rei, vivo, começava a habitar a sua. E a palavra do Senhor, pronunciada pela boca de um profeta cego, começava a sua marcha lenta e inexorável através da história, pesada como a pedra de um túmulo, afiada como a ponta de uma espada.




