A tarde estava quente e pesada sobre as planícies de Siló, mas um burburinho diferente agitava o acampamento de Israel. Não era o som familiar dos afazeres diários – o tinir das ferramentas, o balido das ovelhas, o riso das crianças –, mas algo mais grave, como o zumbido de uma colmeia perturbada. A notícia chegara em vozes cortantes, trazida por mensageiros cujos rostos estavam nublados pela incredulidade e por uma ponta de terror.
Ela começara com um rumor, um sussurro que correra como fogo em capim seco: as tribos do Leste, Rúben, Gade e a meia-tribo de Manassés, aqueles que haviam recebido sua herança além do Jordão, estavam construindo um altar. Um altar grande, de pedras brutas, à vista de Canaã, perto das margens do rio. Não em Siló, onde repousava o Tabernáculo. Um altar separado.
Finéias, filho de Eleazar, o sacerdote, sentiu um frio percorrer sua espinha que nada tinha a ver com o calor. As memórias foram avassaladoras, instantâneas e doloridas: o relato de seu avô Aarão e o bezerro de ouro, a terra que se abrira, o fogo que consumira os rebeldes. Um altar rival? Era o prenúncio da apostasia, o primeiro passo de volta para o deserto, para a idolatria, para a morte. A assembleia se reuniu, e o clima não era de debate, mas de fúria contida. Homens pegavam suas lanças, não por ordem, mas por instinto. A guerra, tão recentemente silenciada, rosnava novamente às portas.
“Amnésia!” bradou um ancião de Judá, sua voz áspera. “Esqueceram-se já do Senhor que os livrou? Constroem um altar de rebelião?”
Finéias foi escolhido para liderar a delegação. Não com um exército completo, mas com dez chefes, um de cada tribo de Canaã. Homens de peso, de autoridade. A ordem era clara: confrontar. Mas também havia, nas instruções dadas com os olhos baixos, uma sombra de tristeza. Eram irmãos. Haviam lutado juntos, lado a lado, durante sete anos. Sangue e promessas partilhados. Agora, talvez, teriam que derramar aquele sangue novamente.
A viagem para o Leste foi silenciosa, funesta. O Jordão, que haviam cruzado em triunfo, parecia agora uma fronteira melancólica. Do outro lado, o acampamento das tribos do Leste era visível, ordenado, pacífico. E então, viu-se: o altar. Era imponente, inegável, erguendo-se contra o céu pálido. Não um marco discreto, mas uma declaração. O coração de Finéias apertou-se.
Quando se aproximaram, não formaram uma linha de batalha, mas um semicírculo solene. Os homens do Leste saíram ao seu encontro. Não com armas em riste, mas com semblantes sérios, expectantes. Havia uma estranha calma neles. Josué já os despedira com bênçãos, lembrando-os de sua lealdade. O que acontecera desde então?
Finéias ergueu a voz, e ela não tremia, mas carregava o peso de uma dor profunda:
“Assim diz toda a congregação do Senhor: Que transgressão é esta que cometestes contra o Deus de Israel, desviando-vos hoje de seguir ao Senhor, edificando-vos um altar para vos rebelardes hoje contra o Senhor?” As palavras eram duras, pesadas como as pedras daquele altar. Ele prosseguiu, evocando Peor, onde uma praga feriu o povo por sua idolatria, e a contaminação que um ato como aquele poderia trazer a todo Israel. “Se a terra da vossa herança vos parece imunda, passai para a terra da herança do Senhor… mas não vos rebeleis contra o Senhor, nem contra nós.”
O silêncio que se seguiu foi total. Um vento quente agitou as bordas das túnicas. Então, os chefes de Rúben, Gade e Manassés não se ergueram com raiva. Seus rostos se desfizeram em expressões de choque genuíno, e depois, de uma agonia profunda. Um deles, Elidad, homem de cabelos grisalhos e olhos que viram muito combate, levantou as mãos, não em desafio, mas em súplica.
“O Deus dos deuses, o Senhor, o Deus dos deuses, o Senhor, ele sabe!” sua voz irrompeu, carregada de emoção. “E Israel mesmo o saberá. Se foi por rebelião, ou por transgressão contra o Senhor, que nos não salves hoje.”
E então, ele explicou. As palavras saíam em um fluxo, claras, angustiadas. O altar não era para holocaustos, nem para ofertas. Jamais! Era um *testemunho*. Um monumento de pedras mudas, mas de significado gritante.
“Tememos,” disse Elidad, e a palavra soou nua, frágil no ar. “Tememos que no futuro, vossos filhos digam aos nossos filhos: ‘Que tendes vós com o Senhor, Deus de Israel? O Senhor pôs o Jordão por limite entre nós e vós, ó filhos de Rúben e de Gade; não tendes parte no Senhor.’ Assim, vossos filhos farão os nossos filhos cessarem de temer ao Senhor.”
Por isso, construíram o altar. Uma réplica, um espelho. Não para nele sacrificar, mas para ser uma testemunha silenciosa. Uma prova física, irrefutável, de que aquela gente do outro lado do rio também pertencia ao Senhor. Era um lembrete para as gerações futuras de que o altar verdadeiro, o do sacrifício, estava em Siló. E que este, à beira do Jordão, era apenas um sinal. Um sinal de unidade, não de divisão. De lembrança, não de rebeldia.
A revelação caiu sobre a delegação de Finéias como uma onda fria, lavando a ira, deixando para trás um constrangimento profundo e uma alegria aliviada, quase vertiginosa. Olharam para o altar e já não viam uma ameaça, mas um símbolo de sabedoria solene. Viram o cuidado áspero de guerreiros tentando proteger a fé de seus netos.
Finéias deixou escapar um longo suspiro, que carregou consigo toda a tensão dos últimos dias. Seus olhos encontraram os de Elidad, e nesse momento, não havia mais acusador e acusado. Havia apenas irmãos, aliviados por terem escapado de um abismo de equívoco.
“Agora sabemos que o Senhor está no meio de nós,” disse Finéias, sua voz agora suave, “pois não cometestes esta transgressão contra o Senhor. Antes, nos livrastes das mãos do Senhor.”
A volta a Siló foi completamente diferente. Os corações, antes carregados de pedras, agora estavam leves. Relataram tudo à congregação. E a reação foi imediata: um murmúrio de aprovação, cabeças que balançavam em entendimento, e finalmente, louvores. O povo se satisfez. A notícia do *altar-testemunha* correu por todos os acampamentos, e o que poderia ter sido uma mancha de desconfiança tornou-se um cordão mais forte de união.
E do outro lado do Jordão, Rúben, Gade e Manassés deram um nome àquele monte de pedras. Chamaram-no “Ed”. Que significa “testemunha”. Porque, disseram, “ele é testemunha entre nós que o Senhor é Deus.” Um testemunho mudo, de pedra, contra o silêncio equívoco do futuro e contra o rio que separa as terras, mas nunca deveria separar a fé.




