O sol da primavera ainda era fraco, mas já trazia um certo afago ao rosto de Elião, enquanto ele observava o campo de cevada. A terra cheirava a vida renovada. Na sua bolsa de couro, o rolo de pergaminho com os estatutos parecia mais pesado naquela manhã. Era o décimo quarto dia do primeiro mês. O ar em Mispá tinha uma expectativa palpável, um silêncio carregado de memória.
Mais tarde, ao crepúsculo, a casa de Elião não era a mesma. O cheiro do fermento havia sido banido dias antes, uma busca minuciosa feita pelos filhos, num ritual que já riam ao lembrar, mas que cumpriam com solenidade. Agora, o aroma era de cordeiro assado, de pães ázimos achatando-se sobre pedras quentes, de ervas amargas picadas. Seu filho mais novo, Jarede, de olhos arregalados, perguntou pela centésima vez: “Por que esta noite é diferente?” E Elião, com uma paciência que só aquela noite lhe dava, começou a narrar. Não como um sacerdote no tabernáculo, mas como um avô à beira da fogueira. Falou da pressa, do sangue nos umbrais, do silêncio angustiante seguido do grito de liberdade que ecoava no sangue deles. As ervas amargas mastigadas com o pão sem fermento tinham o gosto dessa memória: opressão e pureza, amargor e esperança. A noite era longa, contada em histórias e salmos, até que o primeiro raio de sol do décimo quinto dia iluminasse uma vila transformada em uma só família alongada, partilhando o primeiro pão da colheita.
Sete semanas depois, o calor já se instalara. A colheita da cevada passara, a do trigo estava no seu auge. Os braços de Elião doíam, mas era uma dor boa, de dever cumprido. A contagem dos cinquenta dias — das sete semanas completas — era um fio de expectativa tecido no dia a dia do suor. No quinquagésimo dia, a festa das Semanas, a atmosfera era outra. Não mais a intimidade da casa, mas a aglomeração jubilosa diante do Tabernáculo. O ar estava pesado com o cheiro do pó da estrada e da farinha nova. Elião levava sua oferta voluntária: dois pães levedados, cozidos com o trigo da sua própria lavoura. Era estranho e lindo aquele fermento, símbolo da imperfeição comum da vida, sendo apresentado diante do Santo. Junto com os cordeiros, as ofertas de cereais e as libações, aqueles pães representavam o fruto do trabalho humano, consagrado. Era a festa da provisão concreta, do suor que se transformava em pão, da terra que respondia à fiel obediência. Elião via os pães do seu trabalho sendo entregues ao sacerdote, e uma gratidão profunda, não apenas ritual, apertava seu peito.
O verão seguia seu curso implacável. As primícias já estavam entregues, a colheita principal avançava. E então, no primeiro dia do sétimo mês, um som cortava o ar rotineiro. Não era o shofar para a guerra, nem para a convocação das tribos. Era um toque prolongado, grave, que parecia vir do próprio céu. O Dia do Clamor — o toque da trombeta. Elião parou seu trabalho, e um frio percorreu sua espinha. Não era medo, era uma solenidade esmagadora. Aquele som era um despertar. Um chamado para parar, para lembrar, para se preparar. Olhou para suas mãos calejadas, para os campos quase prontos para a grande colheita. O toque era um limiar. Algo grande e tremendo se aproximava.
Dez dias depois, Elião não comia nem bebia. O jejum era um peso físico, uma leveza estranha na cabeça, uma secura na alma que nenhuma água poderia matar. Era o Dia da Expiação. Em Mispá, um silêncio de tumba. Nenhum trabalho, nenhum fogo, apenas a face voltada para a poeira. Elião sentia o peso do ano inteiro — as omissões, as impurezas inadvertidas, as raivas contidas, a inveja súbita que brotara ao ver a colheita do vizinho. A lei era sagrada, e ele, homem da terra, era profundamente frágil. Ouvia-se apenas, ao longe, o badalar discreto dos sininhos das vestes do Sumo Sacerdote, entrando no Lugar Santíssimo. A vida de Elião, a vida de todos, pendia por um fio, dependente daquele único sacrifício, daquele sangue aspergido. Era um dia de terror santo e de esperança agonizante. Quando o sol se punha, a sensação de alívio era tão física quanto a fome. O perdão não era um conceito; era um ar puro que se respirava de novo.
E então, cinco dias depois, explodia a alegria. A Festa dos Tabernáculos. Sete dias de pura, transbordante gratidão. Elião e sua família não estavam em casa. Habitavam numa cabana frágil, construída com galhos de árvores frondosas — palmeiras, salgueiros, murtas. O teto era de folhas, suficientemente aberto para ver as estrelas. À noite, à luz de lamparinas, eles comiam, bebiam, cantavam. Lembravam os quarenta anos no deserto, a precariedade, a dependência total. Agora, cercados pela abundância da colheita de outono — azeitonas, figos, uvas —, a alegria era uma resposta. Não à sua própria força, mas à fidelidade d’Aquele que os guiara através da aridez. Os sete dias eram uma longa refeição de ação de graças com a comunidade. No oitavo dia, a assembleia solene, um último suspiro de santidade antes de voltar à vida comum. Elião, sentado em sua cabana na última noite, olhando para as estrelas através das folhas, sentia uma paz rara. O ciclo estava completo. Da memória da libertação à entrega das primícias, do clamor ao arrependimento, e finalmente, à alegria vulnerável e confiante sob as estrelas.
No anoitecer do dia seguinte, já de volta à casa de pedra, mais sólida, Elião pegou o rolo de Levitico. Suas mãos, marcadas pelas estações, passaram sobre as palavras. E ele compreendia, não com a mente de um escriba, mas com a pele de um homem que viveu cada fragrância, cada som, cada sabor daqueles dias. Não eram apenas leis. Era a respiração sagrada de um povo, o ritmo dado por Deus para que o tempo comum fosse santificado, e a vida, em sua totalidade — do trabalho à festa, da culpa ao perdão, da escassez à abundância —, se tornasse um ato contínuo de adoração. O vento outonal entrou pela janela, trazendo o cheiro da terra repousada. Outro ciclo começaria em breve. Ele estava pronto.




