O ar na cela era espesso, um mingual de poeira, suor e mofo. Paulo sentia o peso da corrente no tornozelo, não como uma dor aguda, mas como uma presença constante, um companheiro frio que o lembrava de onde estava. A luz entrava por uma fenda alta, cortando a penumbra num ângulo inclinado, iluminando partículas de pó que dançavam num ritmo lento e sem pressa. Ele tinha um bloco de madeira áspero no colo, um fragmento de papiro sobre ele, e um estilo nas mãos calejadas. As mãos tremiam um pouco, não de medo, mas de um cansaço antigo que havia se instalado nos ossos.
Respirou fundo, e o cheiro da cela se misturou ao aroma distante de incenso que alguém, em algum lugar da cidade, queimava. Fechou os olhos por um momento. Não via a parede de pedra úmida à sua frente, mas o rosto de uma mulher idosa, de olhos sábios e mãos acostumadas ao trabalho. Lóide. O nome veio à sua mente como um suspiro. E depois, Eunice. A fé que não era fingida. Ele conseguia quase ouvir a voz de Timóteo, ainda com as inflexões da juventude, fazendo perguntas sobre os profetas, os salmos, a promessa. Aquela fé havia morado primeiro em Lóide, depois em Eunice, e agora, ele sabia, habitava em Timóteo.
Abriu os olhos. A luz na parede tinha se movido um pouco. O pó continuava sua dança silenciosa. Ele começou a riscar o papiro, a tinta escura contrastando com a superfície pálida.
“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus, a Timóteo, meu amado filho…”
A palavra “filho” ecoou em seu peito. Não era apenas uma formalidade. Lembrou-se do dia em que Timóteo se juntara a eles, tímido, talvez um pouco assustado com a estrada poeirenta e os perigos incertos. Lembrou-se dos olhos de Eunice, cheios de lágrimas e de uma confiança resoluta. Ele havia imposto as mãos sobre o jovem, naquela tarde quente em Listra, e algo tangível, um calor, uma corrente, havia passado dele para Timóteo. Não era magia. Era um dom. O dom de Deus. E ele precisava lembrar Timóteo disso agora. Porque o mundo lá fora estava ficando mais escuro. Nero não era um brincalhão qualquer; seu capricho era temperado com crueldade. E muitos, mesmo entre os irmãos, começavam a afrouxar a mão, a olhar para trás, a tentar acomodar a fé ao conforto ou ao medo.
Paulo parou, olhou para a corrente. Não era apenas ferro. Era um símbolo. Ele não se envergonhava dela. Porque ele sabia em quem cria. A convicção era como uma pedra fundacional dentro dele, algo que nem a escuridão da cela podia erodir. Mas Timóteo… Timóteo era jovem. Sua natureza era mais branda, mais propensa à hesitação. Ele podia sentir, mesmo pelas notícias que chegavam, um certo resfriamento, um recuo diante da adversidade que se aproximava.
“Por essa razão, pois, te lembro que despertes o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos.”
Ele escreveu com força, como se as palavras pudessem carregar em suas curvas e traços o próprio fogo do Espírito que ele desejava reacender em Timóteo. Não era um dom de eloquência vazia ou de liderança imponente. Era o dom de um espírito não de covardia, mas de poder, de amor e de moderação. O amor que sustenta, o poder que enfrenta, a moderação que não se deixa levar pelo pânico ou pelo fanatismo. Tudo isso Timóteo possuía. Estava apenas adormecido, soterrado sob o peso das preocupações e talvez de um medo humano e compreensível.
Um rato passou correndo pela sombra, sumindo num buraco. Paulo quase sorriu. Até os ratos eram livres para ir e vir. Ele, não. Mas sua mensagem era. O evangelho não estava acorrentado. Ele podia sentir uma chama dentro do peito, uma urgência que queimava mais forte que a fraqueza do corpo. Timóteo não podia ter vergonha. Vergonha do testemunho do Senhor, nem dele, prisioneiro. Essa era a tentação sutil: separar a fé gloriosa do Cristo ressurreto da realidade sórdida de um apóstolo encarcerado e prestes a ser julgado por um louco.
“Junte-se comigo nos sofrimentos, pelo evangelho, segundo o poder de Deus.”
As palavras saíram como um desafio, mas também como um convite profundo. Era o chamado à comunhão verdadeira, a que compartilha não apenas as alegrias, mas o custo. Paulo pensou em Cristo. A salvação não era uma ideia abstrata, gracejada em reuniões confortáveis. Tinha sido trazida à luz pela manifestação do Salvador, que aboliu a morte. Essa verdade era um alicerce inabalável. E sobre ela ele havia sido constituído pregador, apóstolo e mestre. E por causa dela estava sofrendo, até as algemas. Mas ele não considerava essas algemas uma desgraça. Porque conhecia Aquele em quem havia crido. E estava persuadido de que Ele era poderoso para guardar o seu depósito até àquele Dia.
O “depósito”. A fé. O evangelho. Timóteo. Tudo era um tesouro confiado. E o seu dever, mesmo de dentro da cela, era exortar o filho na fé a guardar esse bom depósito, com a ajuda do Espírito Santo que em nós habita.
A luz na parede agora era apenas uma linha dourada e fraca. O dia terminava. Sua mão estava cansada, os dedos dormentes pelo frio que se infiltrava na pedra. Ele olhou para o que escrevera. Não era uma carta de desespero. Era uma carta de chama. Uma chama que ele via claramente, não na tocha fumegante do carcereiro lá fora, mas no rosto de Lóide, nos olhos de Eunice, no potencial latente no coração de Timóteo. Era a chama da fé não fingida. E ela precisava ser soprada, protegida, alimentada.
Guardou o estilo. A escuridão crescia, engolindo os cantos da cela. Mas dentro dele, e ele orava para que dentro de Timóteo também, aquela luz, alimentada por memória, por amor e por um poder que não era deste mundo, continuaria a arder. Até o Dia.




