O sol da tarde pesava sobre os telhados de Antioquia, trazendo consigo não só o calor úmido que subia das pedras, mas uma inquietação mais profunda que habitava o peito de Levi. Ele se apoiava na ombreira da porta de sua oficina, os dedos ainda calejados pelo trabalho do dia no couro, observando o vai e vem da rua. Seus olhos, porém, estavam voltados para dentro, para uma batalha silenciosa que o consumia.
Havia semanas que a comunidade dos seguidores do Caminho fervilhava com discussões que pareciam rasgar seu mundo ao meio. Homens recém-chegados da Judeia, com mantos impecáveis e um ar de autoridade inquestionável, falavam com convicção de ferro. “A fé em Jesus, o Messias, é o início”, diziam, seus dedos apontando para os céus. “Mas para a completude, para a verdadeira aliança, é necessário circuncidar-se, observar os dias, seguir a Lei de Moisés à risca. Do contrário, como pode um gentio se tornar plenamente parte do povo de Deus?”
Essas palavras ecoavam na mente de Levi, um judeu de nascimento, criado sob o peso solene e preciso da Torá. Ele a amava. A Lei era como um muro forte que separava o puro do impuro, o santo do comum. Era identidade, era segurança. Mas então chegara a notícia, primeiro em sussurros, depois em rolos de papiro lidos em voz alta nas reuniões: Paulo, aquele fariseu transformado, escrevera uma carta veemente às comunidades da Galácia. E o conteúdo era um terremoto.
Levi fechou a oficina e caminhou sem rumo certo, seus pés encontrando o caminho até um pequeno pátio sombreado por uma figueira velha. Sentou-se na pedra fria, tirou do dobramento de seu manto um rolo que lhe custara caro obter – uma cópia daquela carta. O sol filtrado pelas folhas dançava sobre as letras gregas enquanto ele lia, pela décima vez, mas como se fosse a primeira.
*“Ó gálatos insensatos! Quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado?”*
As palavras eram um soco. “Insensatos”. A pergunta queimava. Ele se lembrava da primeira vez que ouvira falar de Cristo crucificado. Havia uma vergonha nisso, um escândalo. Um Messias morto como um escravo, amaldiçoado pela própria Lei que dizia: “maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”. Como podia aquilo ser a fonte da bênção?
Seus dedos seguiram as linhas, e foi como se uma porta pesada começasse a ranger em sua mente. Paulo não negava a Lei. Mas ele a colocava em seu devido lugar, um lugar que era ao mesmo tempo sagrado e transitório. A Lei, ele argumentava com uma lógica férrea que parecia extraída das próprias Escrituras, veio muito depois. Quatrocentos e trinta anos depois.
Levi fechou os olhos, tentando visualizar. Abraão. O pai da fé. Um homem errante, sem uma terra, sem uma lei escrita, sem circuncisão ainda. E Deus aparecera a ele, fizera uma promessa. Uma promessa unilateral, incondicional. “Em ti serão benditas todas as famílias da terra.” A bênção veio primeiro. A aliança foi selada pela confiança de Abraão, pela sua fé – aquela fé oca, nua, que se agarra apenas à palavra do que promete.
E então veio o Monte Sinai. O fogo, a fumaça, o tremor da terra. Levi sempre imaginara aquele momento como o ápice, a revelação definitiva. Mas Paulo lhe mostrava outra perspectiva: a Lei não anulava a promessa. Como poderia? Uma aliança posterior não podia invalidar uma anterior, ratificada pelo próprio Deus. A promessa era o testamento, a herança garantida. A Lei… a Lei era como um *paidagogós*.
O termo grego fez Levi sorrir, um sorriso amargo. Ele conhecia bem a figura. O pedagogo não era o professor, nem o pai. Era o escravo severo, o custodiante encarregado de levar a criança até a escola, de protegê-la, de discipliná-la com vara se necessário. Era uma custódia temporária, até que a criança atingisse a maturidade. A Lei, então, era aquela disciplina severa e necessária. Ela não dava vida, não justificava. Ela mostrava, com clareza brutal, o abismo entre a santidade de Deus e a inclinação do coração humano. Ela era o espelho que revelava a sujeira, mas não a água para lavá-la. Ela conduzia, sim, mas como um guardião que aponta continuamente para frente, para além de si mesmo.
“A Lei”, sussurrou Levi para as folhas da figueira, “nos encerrou sob o pecado”. Era uma prisão. Uma prisão santa, mas uma prisão. E ele, Levi, sentia as correntes. A ansiedade de cada Yom Kippur, o medo de ter esquecido um preceito, a divisão interna ao ver um gentio temente a Deus como Cornélio – abençoado pelo Espírito, mas ainda assim considerado impuro pela cerca da Lei.
E então, o centro de tudo. O ponto onde a lógica divina, que parecia uma loucura aos homens, se revelava com uma beleza devastadora. Cristo. O Cristo crucificado. Paulo insistia: ele se tornou maldição por nós. Levi relia a frase, sentindo um calafrio. O inocente, o santo, absorvendo sobre si a maldição que a Lei pronunciava sobre os desobedientes. Aquele madeiro, símbolo máximo de vergonha e maldição, tornou-se o lugar da troca. A maldição que deveria cair sobre Levi, sobre todos, caiu sobre Ele. E em troca, a bênção prometida a Abraão – a bênção do Espírito, da filiação, da justiça – jorrava agora, não para os que cumprem uma lista, mas para os que creem.
Como a chuva após uma longa seca, as palavras finais do capítulo banharam seu espírito confuso. *“Pois todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros segundo a promessa.”*
Não havia judeu nem grego. As paredes do pátio de Levi, as paredes que sua mente erguera por uma vida, desabaram num só instante. A circuncisão, as festas, os alimentos – não eram mais o critério. O critério era Cristo. A herança não vinha pela obediência escrava ao pedagogo, mas por ser filho. E a filiação vinha pela fé, pelo confiar-se àquele que levou a maldição para dar a bênção.
O sol já se punha, tingindo o céu de púrpura. Levi enrolou o rolo, segurando-o com uma força nova. A inquietação no seu peito dera lugar a um assombro quieto, uma liberdade que sentia estranha e leve, como aprender a respirar de outro modo. Ele não era mais um escravo sob custódia, vigiado por um tutor severo. Era herdeiro. Herdeiro por uma promessa mais antiga que o Sinai, garantida por um ato de amor mais profundo que qualquer mandamento.
Levantou-se, e ao passar por um grupo de gentios que, recém-chegados de uma reunião, falavam animados sobre Cristo, Levi não os viu com os olhos de antes. Não viu incircuncisos, impuros. Viu irmãos. Co-herdeiros. A mesma fé que um dia levou Abraão a olhar para as estrelas vazias e crer, agora os unia a todos, num só corpo, sob um só Senhor. A jornada da Lei cumprira seu propósito. Ela o conduzira, severa e infalivelmente, até os pés da cruz. E agora, a partir dali, começava a caminhada dos filhos.




