A manhã chegou à colina com uma luz que parecia lavar o mundo. O sol ainda não castigava, apenas aquecia a terra úmida da noite anterior, e um cheiro forte de ervas esmagadas e poeira úmida subia do chão onde muitos já se assentavam. Zéfano, um pescador aposentado de mãos nodosas como raízes, chegou cedo e escolheu uma pedra lisa perto de um velho oliveira. Ele não vinha por esperança grandiosa, mas por um cansaço antigo, um peso nos ombros que a rede vazia de anos não explicava.
A multidão se formava como um rio lento. Havia mulheres com crianças agarradas às saias, rostos marcados pela labuta; jovens com a inquietação nos olhos; velhos como ele, cujas histórias estavam gravadas em rugas profundas. Um grupo de escribas mantinha-se um pouco afastado, vestes impecáveis, observando com expressão entre o cético e o vigilante. O ar tremulava com o murmúrio de muitas vozes, o zumbido de moscas e o balido distante de um rebanho.
Então Ele subiu para um lugar mais elevado, não um palanque, apenas um pequeno outeiro natural onde Sua silhueta se desenharia contra o céu. Sentou-se. Um silêncio inquieto começou a se espalhar, quebrando-se apenas pelo choro súbito de um bebê, rapidamente acalmado. Quando falou, a voz não trovejou. Tinha uma estranha claridade, como água corrente em meio ao silêncio da pedra.
“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.”
Zéfano fechou os olhos por um instante. A palavra ‘humilde’ ecoou de um jeito diferente. Não era sobre ser pequeno, mas sobre ter o espírito esvaziado de si mesmo. Ele pensou em sua própria teimosia, na raiva contida por uma vida de fracassos modestos. ‘De espírito’. Aquilo entrava como uma lufada de ar puro num cômodo fechado há anos.
A voz continuou, tecendo imagens que viravam o mundo de cabeça para baixo. Os que choram sendo consolados. Os mansos herdando a terra. Os que têm fome e sede de justiça sendo saciados. Zéfano olhou para suas mãos calejadas. Mansidão? Ele sempre a confundira com fraqueza. Mas a palavra, na boca Daquele, soava como uma força tranquila e imóvel, como a rocha sob seus pés.
Um homem ao seu lado, de rosto queimado pelo sol e vestes remendadas, sussurrou para o companheiro: “Ouviste? Os misericordiosos… alcancem misericórdia.” Era um cobrador de impostos, reconhecido pelo cheiro de tinta e papel. Seus olhos estavam marejados de uma emoção bruta.
Depois, palavras que cortaram como faca: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça”. Zéfano viu um dos escribas franzir a testa, incômodo. A justiça d’Ele não era a das leis minuciosas, mas algo que vinha de dentro, uma retidão do coração. E então, o inesperado: “Vós sois o sal da terra”. Ele olhou para a multidão poeirenta e comum. Sal. Algo que preserva, que dá sabor, misturado, não visto, mas sentido. “Vós sois a luz do mundo”. Uma mulher próxima, com o rosto meio coberto, ergueu levemente a cabeça, seus olhos faiscando por um segundo.
A narrativa se aprofundava, e Zéfano sentia o chão de suas certezas rachar. “Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo…” Cada exemplo era um golpe na muralha da mera aparência. A ira no coração equiparada ao assassinato. O olhar cobiçoso à adulteração. A recomendação de dar a outra face, de caminhar a segunda milha, de amar os inimigos. Não era um código novo, era uma revolução do âmago. Era como se Ele dissesse: a lei habita aqui, dentro, onde ninguém vê, e é dali que a vida verdadeira brota.
Ele falou do amor aos inimigos, e Zéfano pensou no romano arrogante que lhe confiscara parte do pescado anos atrás. Um nó de ódio antigo, pequeno e duro, que ele carregava sem perceber. A ideia de orar por aquele homem era absurda, desconcertante. Mas a voz era pacífica, firme: “Para que vos torneis filhos do vosso Pai celestial”.
A exortação à piedade discreta, à oração no secreto, ao perdão sincero, aos tesouros no céu – tudo isso Zéfano ouvia com a sensação de estar sendo desnudado. Não era uma condenação, era um convite para respirar um ar mais puro, mesmo que doesse nos pulmões acostumados à névoa do rancor e da autopreservação.
“Ninguém pode servir a dois senhores…” A conclusão era lógica, avassaladora. Uma vida dividida não se sustenta. E então, as palavras finais, que fixaram-se na mente de Zéfano como uma inscrição na pedra: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha”.
A voz cessou. O silêncio que se seguiu era espesso, carregado. Não houve aplausos, nem gritos. Havia uma comoção quieta, como se todos tivessem testemunhado algo imenso e delicado ao mesmo tempo. O sol agora estava alto, e a sombra da oliveira havia se movido. Zéfano ergueu-se devagar, suas juntas estalando. Olhou para suas mãos outra vez. Eram as mesmas. E não eram.
Enquanto a multidão começava a se dispersar, em grupos calados ou conversando em vozes baixas e reverentes, Zéfano não seguiu imediatamente. Ficou ali, olhando para o outeiro agora vazio. O ensinamento não era uma lista. Era um chamado para uma nova forma de ver, de viver a partir de um centro transformado. O reino dos céus não era um lugar distante; era uma realidade que começava no espírito humilde, no coração pacificado, na mão aberta para o inimigo.
A caminho de casa, o peso nos ombros ainda estava lá, mas sua natureza tinha mudado. Já não era só o cansaço da idade; era o peso solene e bom de uma responsabilidade nova. Ele era sal. Era luz. A construção de sua casa, sua vida, começava agora, no alicerce daquelas palavras. E pela primeira vez em muitos anos, Zéfano sentiu, não uma alegria efusiva, mas uma paz profunda e estranha, como a rocha que permanece quando as águas da tempestade descem da colina.




