A brisa que descia das colinas de Samaria carregava o cheiro misturado de terra seca e incenso. Era um odor pesado, adocicado, que se infiltrava pelas ruas estreitas e se agarrava às roupas, como se a própria cidade estivesse embebida em um perfume ritual. Efraim, um velho mercador de linho cujas mãos finas conheciam o peso do shekel e a textura de cada tecido, observava a movimentação do pátio do templo real a partir da sombra de sua tenda. Seus olhos, cansados de tantas décadas de sol e poeira, viam não a gloriosa adoração que os sacerdotes do bezerro proclamavam, mas uma coreografia de ansiedade.
Eles tinham construído um novo altar naquele lugar alto, de pedras lavradas trazidas de Tiro. Brancas demais, pensava Efraim, brilhantes demais sob o sol implacável. Pareciam dentes de uma fera aberta sobre a cidade. O bezerro de bronze, fundido com o ouro da arrecadação do ano anterior, reluzia como um segundo sol menor, seu contorno arredondado mais uma afirmação de poder do que uma imagem de divindade. O povo se aglomerava, trazendo cordeiros, cestos de primícias da colheita de trigo — uma colheita magra, diga-se, pois as chuvas tinham sido escassas — e a ansiedade era palpável. Era um culto barulhento, cheio de cantos em ritmo acelerado e toques de shofar que mais pareciam sinais de alarme do que de reverência.
“Israel lançou fora o que é bom”, sussurrou Efraim para si mesmo, lembrando-se das palavras do profeta que andava pelos vales, vestido de pano áspero e com um coração partido. O povo não queria ouvir sobre alianças quebradas, sobre um amor divino traído. Queriam garantias. Queriam segurança. E, na ausência de fé, forjavam segurança em metal.
Um homem gordo, um dos administradores do palácio, passou por sua tenda carregando um documento com selos. Efraim conhecia aquele tipo de papiro — era um tratado. Mais uma aliança, desta vez com a Assíria. “Eles nomearam reis, mas não por mim; fizeram príncipes, mas eu não o soube”, ressoou em sua mente outra frase do profeta. O rei de Samaria era um fantoche erguido por facções, um homem fraco que buscava se firmar comprando a proteção de potências estrangeiras. Com a prata e o ouro do tesouro — o mesmo que faltava para consertar os muros da cidade —, ele comprava promessas de exércitos que nunca viriam, ou que viriam para cobrar a dívida com juros de sangue.
Efraim viu um grupo de agricultores da região de Gilead trazendo ofertas. Seus rostos estavam marcados pela preocupação. A terra, outrora farta, parecia estar se retraindo. A semeadura fora feita com esperança, mas a colheita era de vento. Ele pensou na imagem que o profeta usara: “Quem semeia vento, colherá tempestade”. Eles semeavam a idolatria, a confiança em potências carnívoras, a justiça negociada nos tribunais. Colheriam o que? O vento já soprava quente e carregado de poeira do leste, e nele alguns juíam sentir o cheiro de ferro e fumaça.
À noite, quando os cultos cessavam e a cidade se recolhia a um silêncio inquieto, Efraim subia ao terraço de sua casa simples. Dali, via as fogueiras dos altares nos outeiros, pontinhos de luz laranja manchando a escuridão. Cada vila, cada clã, parecia ter erguido seu próprio santuário, seu próprio bezerro menor, seu próprio ritual para aplacar medos diferentes. “Multiplicaram os altares para pecar”, murmurava. A unidade que outrora vinha da lembrança do Êxodo, da Aliança no Sinai, se fragmentara em mil pedacinhos de devoção conveniente. Era como se, ao invés de se voltarem para a única fonte, cavassem mil poços rasos e achassem, no fundo de cada um, apenas a imagem refletida de sua própria face ansiosa.
Um dia, trouxeram até sua tenda um manto fino, bordado com símbolos egípcios — um presente de um oficial para sua amante. Efraim passou os dedos sobre o tecido. Era bem feito, de um linho trançado que não era produzido ali. “Israel esqueceu-se do seu Criador”, pensou. Aquele manto era um símbolo. Construíam palácios e fortalezas, como se a força estivesse na pedra. Adornavam-se com joias e tratados, como se a sabedoria estivesse no ouro ou nas palavras de um embaixador assírio. O Criador, Aquele que os tirara do Egito não com exércitos, mas com prodígios, era reduzido a uma lembrança vaga, um nome invocado em ritos apressados antes de se correr para tratar de “coisas importantes”.
O profeta andava por aí, dizendo coisas duras. Dizia que as festas de Israel, outrora tempos de alegria e gratidão, tinham se tornado abomináveis. Efraim via isso. A Festa da Colheita que se aproximava não era mais sobre gratidão pela provisão, mas sobre exibir a provisão que se tinha, mesmo que escassa. Era sobre barganha: “Eu te dou isto, e você me dá aquilo”. A relação com o Divino se transformara numa transação comercial, e numa transação desvantajosa, pois ofereciam o que era dele por direito e esperavam em troca um produto que não podiam controlar: a segurança.
A tempestade, quando chegou, não veio primeiro como exércitos. Veio como um silêncio. Um silêncio pesado que caiu sobre as colinas, interrompendo os cantos. Veio como a notícia, trazida por um mercador a cavalo, coberto de poeira e terror, de que as primeiras cidades do norte, aquelas que mais se vangloriavam de suas alianças com a Fenícia e seus altares decorados, haviam sido varridas do mapa. O vento que semearam começava a girar, rápido, formando um redemoinho que avançava do horizonte.
Efraim olhou uma última vez para o bezerro de bronze no alto. O sol batia nele, e ele brilhava, cego e mudo. Não tinha olhos para ver o desastre, nem boca para advertir. Era apenas um objeto. Um ídolo. E o povo que nele confiava começava a entender, no frio que subia da espinha, o peso terrível das palavras que tentaram calar: “Pois semeiam vento, e colherão tempestade”. A colheita estava apenas começando, e os ceifadores não seriam os sacerdotes de Samaria. E o altar de pedras brancas, ali no alto, logo não teria ninguém para acender seu fogo, exceto, talvez, o fogo do juízo que eles mesmos, com suas mãos ansiosas e seus corações distantes, acenderam.




