Bíblia em Contos

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O Cerco na Argila e na Alma

O sol de Tel-Abibe não era um astro, era um peso. Uma lâmina branca de calor que descia sobre o vale e esmagava tudo, transformando a sombra em um artigo de luxo fugidio. Ezequiel sentia o suor escorrer por suas costas, misturando-se ao pó fino que tudo cobria. Mas o incômodo maior não vinha do céu. Vinha daquilo que ele tinha de fazer. Novamente.

Havia dias – ou seriam semanas? o tempo se dissolvia naquela monotonia de exílio – que a palavra do SENHOR pesava em seus ossos de um modo diferente. Não era apenas ouvir, era *incorporar*. Era tornar-se um sinal vivo, uma parábola de carne e osso para aqueles olhos incrédulos de Judá, desterrados como ele, mas com a mente ainda presa aos muros de Jerusalém.

Naquele dia, a ordem havia sido clara, e o profeta sentira um frio no estômago. “Pega um tijolo”, dissera a voz que ecoava em seu íntimo. Ele pegara. Não um tijolo assado, mas uma tabuinha de argila úmida, daquelas que as crianças usavam para rabiscar. Sobre ela, com a ponta de uma haste de ferro, começara a gravar. Cada sulco era um gemido. Traçou os contornos da Cidade, não como a via em sonhos, bela no monte, mas como um diagrama de cerco. Linhas retas, ângulos duros, torres, aterros. Desenhou a rampa do invasor com mão firme, e cada risco na argila parecia cavar um buraco em sua própria alma.

Ao terminar, colocou a placa diante de si, no chão poeirento. A próxima parte ele sabia que seria pior. Ergueu o rosto para o sol impiedoso e, com uma lentidão cerimonial, deitou-se sobre o lado esquerdo. A terra quente queimava através de suas vestes. O tijolo de argila, com o desenho cruel, ficava ali, sob o arco de seu corpo, como se ele mesmo fosse o cerco, o peso da condenação a esmagar a cidade.

E foi ali, imóvel, que os cálculos começaram a girar em sua mente, não como números, mas como ciclos de dor. Trezentos e noventa dias para o lado esquerdo. Um dia para cada ano da culpa de Israel. A nação do Norte, já dissipada, mas cuja dívida ainda pairavano ar. Depois, quarenta dias para o lado direito. Um dia por ano do pecado de Judá. A contagem era um fardo mais pesado que o sol. Como suportaria? Não era apenas a imobilidade. Era a solidão daquela pantomima divina. Os vizinhos passavam, olhavam de esguelha, cochichavam. “O profeta enlouqueceu de vez”, diziam. E ele não podia explicar. A explicação estava no ato, na persistência absurda, no corpo que se tornava um relógio de juízo.

Os dias se arrastaram. Seu corpo protestava. Dores lancinantes nas costelas, nos quadris, cãibras que faziam seus músculos tremerem incontrolavelmente. A noite trazia um alívio relativo, mas também o frio úmido do vale e a escuridão onde sua mente vagava pelos pátios do Templo que talvez já estivessem em chamas. A comida e a água eram medidas, como a palavra ordenara. Um punhado de grãos – trigo, cevada, favas, lentilhas, painço e aveia – tudo misturado, cozido numa única pasta sobre uma fogueira de excremento humano. O SENHOR fora explícito: o pão deveria ser impuro, assado sobre esterco. Ezequiel suplicara, e um clemência permitira o uso de esterco de boi. Mas o gosto permanecia: o gosto da escassez, do desespero, da imundície do cerco que viria. Comia com parcimônia, pesando cada porção numa balança imaginária. Vinte siclos por dia. A água, um sexto de him, medida em tempos precisos. Não era fome que o consumia, era o símbolo. Cada mordida era o racionamento de Jerusalém. Cada gole era a sede dos que ficariam encurralados.

Às vezes, no torpor do meio-dia, suas visões se misturavam à realidade. Via não o acampamento babilônio ao redor, mas fileiras de anjos silenciosos, observando o drama. Ouvia, no zumbido das moscas, o som distante de aríetes batendo contra portas de cedro. Seu corpo, magro e dolorido, já não lhe parecia seu. Era um altar, um púlpito de carne. O lado esquerdo, depois o direito. A mudança, quando chegou o tempo, foi uma agonia nova, músculos atrofiados gritando ao se moverem para uma posição diferente, mas igualmente cruel.

Certa manhã, antes do alvorecer, uma revelação mais nítida o atingiu, não como visão, mas como compreensão amarga. Enquanto lutava para manter o braço direito exposto, como ordenado, simulando o ataque contra Jerusalém, entendeu o cerne da parábola. Não era apenas sobre fome e sede. Era sobre a fragmentação. A mistura dos grãos representava a desordem, o fim da identidade pura. O pão impuro era a ruptura final com o culto, com o altar, com a presença do SENHOR. Judá seria dispersa entre as nações, e lá, comeriam o pão da impureza, da assimilação forçada, da saudade que corroeria a alma. Seu estômago, já encolhido, revirou-se.

O último dia sobre o lado direito chegou. Quarenta dias. Quando a ordem interior finalmente o liberou, ele não conseguiu se levantar de imediato. Ficou de bruços, o rosto na poeira, respirando o cheiro seco da terra. Aos poucos, com esforço sobre-humano, ergueu-se. O corpo era um mapa de dores, cada articulação uma cidade arrasada. Olhou para o tijolo de argila, agora rachado pelo sol, o desenho do cerco quase ilegível. A mensagem estava dada. Não em palavras, mas em silêncio. Não em discursos, mas em ossos que rangiam. O cerco de Jerusalém, ele sabia, não aconteceria apenas com máquinas de guerra. Aconteceria primeiro na alma, na fome do espírito, na ruptura com tudo que era sagrado.

Ele se limpou devagar, bebeu um pouco mais de água, sentindo-a descer como um rio por um leito seco. Olhou para os rostos curiosos e temerosos que espreitavam das tendas. Eles ainda não entendiam. Talvez nunca entendessem plenamente. Mas a semente da palavra, plantada através daquele sofrimento voluntário, estava ali. Um profeta não era apenas um que falava. Era um que vivia, e morria um pouco, pela mensagem que carregava. O sol começava a se inclinar, pintando o vale de ouro e sangue. O cerco, na argila e em seu corpo, terminara. Mas Ezequiel sabia, com uma certeza que doía mais que qualquer cãibra, que o verdadeiro cerco, lá longe, na cidade amada, mal havia começado.

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