Bíblia em Contos

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Raízes no Exílio

O ar em Babilônia carregava um peso diferente. Não era apenas o calor, que subia das pedras do calçamento como um sopro de forja, nem o cheiro agridoce do rio Eufrates misturado com o incenso de mil templos. Era o peso da ausência. A ausência dos montes em torno de Jerusalém, do cheiro da terra após a chuva outonal, do som das trombetas no templo – sons que agora só existiam na memória, já embaçada pelo tempo e pela distância.

Hanâniah ben-Azur cuspiu no canto da oficina, onde moldava tijolos de barro sob um sol impiedoso. O suor lhe corria em filetes pelas costas, marcando o tecido grosseiro da túnica. Seus dedos, calejados, trabalhavam com uma raiva contida. Cada tijolo era uma maldição silenciosa. Ao seu lado, seu filho mais novo, Ezequiel, um rapaz de olhos sérios além da idade, observava em silêncio.

— Outro ano, outro mês, outro dia nesta fornalha — rosnou Hanâniah, sem olhar para o filho. — E ainda ouvimos falar de profetas entre nós, tagarelando sobre um retorno rápido. Palavras vazias. Somos como estes tijolos: moldados por mãos estrangeiras para construir uma cidade que nunca será nossa.

Ezequiel não respondeu. Seu olhar perdeu-se na poeira dourada que dançava no ar, iluminada pelo sol da tarde. Ele lembrava dos sussurros que circulavam no bairro dos exilados, perto do canal Quebar. Profetas de ocasião, homens com olhos ardentes, prometendo que o jugo de Nabucodonosor se quebraria em dois anos, que o Senhor interviria como um furacão, varrendo-os de volta para casa. Essas promessas eram como água no deserto para o espírito sedento de seu pai. Mas em Ezequiel, elas plantavam uma inquietação.

A mudança começou com um burburinho diferente. Não era o frenesi das profecias triunfalistas, mas um rumor contido, sério. Diziam que uma carta havia chegado de Jerusalém. Não de um patriota exaltado, mas de Jeremias, o profeta que havia ficado para trás, aquele que falava de jugo e submissão, cujas palavras eram tão amargas quanto absinto.

A reunião aconteceu na casa de Seraías, um homem respeitado entre os exilados, irmão de Baruque, o escriba de Jeremias. A sala, escura e fresca, cheirava a argila úmida e óleo de lamparina. Um grupo de homens estava aglomerado, seus rostos sulcados pela ansiedade. Hanâniah estava lá, com os braços cruzados, uma fortaleza de ceticismo. Ezequiel se postara atrás, no limiar, quase invisível.

Seraías, com mãos trêmulas, desenrolou um rolo de papiro. A lamparina projetou sombras dançantes sobre os caracteres hebraicos.

— “Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados que eu deportei de Jerusalém para a Babilônia” — leu Seraías, sua voz grave ecoando na sala abafada.

Um silêncio pesou. Eram palavras diretas, sem floreios. E então, veio a sentença que fez Hanâniah cerrar os punhos:

— “Edificai casas e habitai nelas; plantai jardins e comei do seu fruto. Tomai mulheres e gerai filhos e filhas; tomai mulheres para vossos filhos e dai vossas filhas a maridos, para que tenham filhos e filhas; multiplicai-vos aí e não vos torneis poucos.”

Murmúrios de incredulidade percorreram a sala. “Plantar jardins?” sussurrou um homem. “Aqui? Como se fôssemos ficar?”

Seraías ergueu a mão, pedindo silêncio, e continuou, sua voz ganhando uma estranha firmeza:

— “Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai ao Senhor por ela, porque na sua paz vós tereis paz.”

Foi então que Hanâniah explodiu.

— Paz? Oração por estes pagãos? Por estes que destruíram o templo, que profanaram tudo o que era sagrado? Este Jeremias enlouqueceu! Ele nos pede para nos acomodarmos, para nos rendermos! — Sua voz era um rugido contido, carregado de uma dor tão antiga quanto o exílio.

Ezequiel, porém, sentiu algo diferente. Enquanto seu pai via uma capitulação, ele começava a enxergar um… plano. Uma estranha e profunda sabedoria. Não era a voz do conformismo, mas de uma paciência ativa. “Procurai a paz da cidade.” A palavra “procurai” em hebraico, “dárash”, ecoou em sua mente. Não era um consentimento passivo; era um engajamento, uma busca intencional. Deus não os estava abandonando em Babilônia; Ele os estava plantando.

Os dias que se seguiram foram tensos na casa de Hanâniah. O homem viveu à base de raiva e desilusão. Ezequiel, porém, começou a agir. Silenciosamente, sem alarde, ele passou a se envolver mais com seus vizinhos babilônios no mercado, aprendendo melhor a língua, os costumes. Tropeçava nas palavras, cometia erros, gerando às vezes risos, outras vezes uma paciência surpreendente. Um dia, ajudou um velho mercador a erguer uma barraca que havia desabado. O homem, de nome Mardukà, ofereceu-lhe um figo seco em agradecimento. Era um gesto pequeno, insignificante. Mas para Ezequiel, tinha o sabor de algo novo.

A carta de Jeremias foi lida e relida. As palavras finais, em particular, fixaram-se no coração de alguns, como uma sonda lançada nas profundezas do seu desespero:

— “Porque eu bem conheço os pensamentos que penso de vós, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais. Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei. E buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração.”

“Buscar-me-eis e me achareis.” Ezequiel compreendeu, então, que o exílio não era apenas geográfico. Era espiritual. E a busca por Deus não podia estar condicionada às paredes de pedra de Jerusalém. Ele começou a se retirar para as margens silenciosas do canal, longe do barulho da cidade pagã, para orar, para buscar. Não com a fúria demandante de seu pai, mas com uma petição humilde, cheia de perguntas e de um desejo surdo de compreensão.

Anos se passaram. O retorno rápido profetizado pelos falsos profetas nunca aconteceu. Hanâniah, aos poucos, foi-se consumindo. Sua fé, baseada na expectativa de um milagre espetacular, murchou como uma planta sem raiz. Ele ainda moldava tijolos, mas agora era apenas um gesto vazio, um hábito de corpo cuja alma já partira.

Ezequiel, porém, florescia. Casou-se com uma jovem da comunidade do exílio, uma moça chamada Débora, cuja família havia decidido “procurar a paz da cidade”. Ele tornara-se um escriba respeitado, transcrevendo a Lei e os profetas, mas também atuando como intérprete e mediador em pequenos conflitos entre hebreus e babilônios. Sua casa, simples mas sólida, erguia-se não muito longe do canal. No quintal, ele plantara uma figueira e algumas videiras. Era um jardim pequeno, modesto, mas suas raízes já se firmavam no solo babilônico.

Certa tarde, muitos anos depois da chegada da carta, Ezequiel sentou-se à sombra da figueira, agora frondosa. Seu pai, Hanâniah, um homem encolhido e amargurado, fitava o horizonte de telhados planos e zigurates distantes.

— Você estava certo, meu filho — disse o velho, numa voz rouca que parecia vir do fundo da terra. — Aqueles que prometiam o caminho rápido… eram mentirosos. Ficamos aqui. E vamos morrer aqui.

Ezequiel colocou a mão no ombro encurvado do pai. Olhou para seu jardim, para os filhos que brincavam correndo entre as videiras, para a cidade estrangeira que, de algum modo, já não lhe parecia totalmente hostil.

— Não, pai — respondeu, com uma calma que só as décadas podem dar. — Não estamos apenas ‘ficando’. Estamos sendo preparados. A promessa de Jeremias não era sobre um retorno fácil. Era sobre um encontro. ‘Buscar-me-eis e me achareis.’ Eu O busquei aqui, neste lugar de desterro. E de um modo que jamais compreenderei, Ele se fez encontrar. A Sua paz… começa dentro de nós. Até mesmo em Babilônia.

Hanâniah não respondeu. Talvez não pudesse. Mas uma lágrima teimosa sulcou a poeira em seu rosto ressequido. Era uma lágrima de despedida de um sonho antigo, e talvez, só talvez, o primeiro orvalho de uma aceitação tardia.

Ezequiel ergueu os olhos. O sol poente tingia os tijolos de Babilônia com um dourado que, por um instante, lhe lembrou a luz sobre os muros de Jerusalém. Ele sabia que um dia, os filhos de seus filhos veriam aqueles mulos. Mas entenderiam, então, que a verdadeira pátria que carregavam não era feita de pedras, mas da fidelidade de um Deus que, mesmo no cativeiro, continuava a escrever Sua história com as linhas tortas de suas vidas. A carta fora lida. E, lentamente, dolorosamente, gloriosamente, eles estavam aprendendo a vivê-la.

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