Bíblia em Contos

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Bíblia

Dos Lodos à Rocha

O barro era frio. Uma umidade que não vinha da chuva, mas da própria terra encharcada, subia pelas canelas de Davi, entorpecendo-o. Ele não sabia há quanto tempo estava ali, naquele brejo escuro, com os pés presos na lama movediça. Horas? Dias? O tempo se dissolvia naquela escuridão úmida. A cada movimento, um ruído baixo e glutinoso, e a sensação de ser puxado para baixo, um pouco mais. Era um lugar de silêncio, mas não de paz. Era o silêncio do abandono, do poço cujas paredes são de puro desespero.

Ele ergueu os olhos, mas não havia estrelas. Apenas a abóbada negra do seu próprio juízo. Tudo o que tentara construir – a própria reputação, a força, a fé robusta dos dias fáceis – afundava com ele naquele lodo. As promessas que fizera a si mesmo soavam agora ocas, como cascas quebradas. Este era o “poço da perdição”, o lodo do pântano. E não havia saída. Suas próprias forças se haviam esvaído na luta inútil. Restava-lhe apenas o peso do corpo e o peso, maior ainda, da alma.

Um gemido saiu de seus lábios, mas não era uma oração elaborada. Era um som gutural, animal, de criatura acuada. “Socorro.” A palavra não tinha eloquência, não tinha poesia. Era úmida e suja como a lama que o prendia. Ele a repetiu, e cada vez era menos um pedido e mais um fato: ele estava perdido.

E então, naquele fundo absoluto, algo mudou. Não foi um raio de luz, não foi um ruído. Foi uma quietude diferente. Como se o próprio silêncio se inclinasse para ouvir. Davi parou de se debater. A resignação, filha da extrema fraqueza, apoderou-se dele. E naquele instante de rendição total, ele *ouviu*. Não com os ouvidos, mas com o centro do seu ser. Era como se um fio de pura atenção tivesse sido esticado entre o seu coração em frangalhos e uma Presença que estava sempre ali, apenas velada pelo seu próprio frenesi.

Ele não viu mãos, mas sentiu-as. Foram firmes, resolutas. Não puxaram seus braços, que estavam fracos, mas *ergueram-no pelos pés*. A sensação foi de deslocamento puro, de alívio físico tão intenso que beirava a dor. A lama soltou sua presa com um último suspiro grudento, e ele foi colocado, de pé, sobre uma rocha. Não uma pedra qualquer, mas uma rocha maciça, ampla, cuja solidez transmitia-se através das solas dos seus pés descalços e nus. Tremia incontrolavelmente. Olhou para baixo, para o brejo escuro e silencioso. Olhou para os próprios pés, limpos agora, sobre a pedra firme.

O ar que entrava em seus pulmões parecia novo, como se nunca tivesse verdadeiramente respirado antes. A primeira coisa que fez não foi correr, nem gritar de alegria. Ficou parado, sentindo a firmeza. A segunda foi cair de joelhos, não em desespero, mas em reconhecimento. A gratidão que brotou nele não era um sentimento decorado; era uma onda primária, um êxtase quieto. Ele estava em pé. Estava seguro.

Os dias que se seguiram foram de uma lucidez estranha. Cada passo firme no chão seco era um milagre. Cada gole de água limpa, um cântico. E da sua garganta, rouca do silêncio e dos gritos abafados, começou a nascer uma nova canção. Não era uma melodia que ele tivesse aprendido. Era uma linha melódica que parecia brotar do ritmo dos seus próprios passos sobre a rocha, do bater do seu coração aliviado. Era um “cântico novo”, um hino que só poderia ser composto por alguém que havia sido tirado do buraco. Falava de confiança, não a confiança ingênua de antes, mas uma confiança forjada no resgate. “Bendito o homem que põe no SENHOR a sua confiança”, ele murmurou para si mesmo, sabendo que agora entendia o peso e a leveza daquelas palavras.

Anos mais tarde, um Davi mais velho, com o rosto marcado por outras batalhas e outras falhas, sentou-se à entrada da sua tenda. O reino pesava sobre seus ombros, e as conspirações sussurravam nos corredores. Ele se lembrava perfeitamente do brejo, do frio da lama. Mas a memória que mais o sustentava não era a da queda, era a da rocha sob seus pés. A segurança não era uma ausência de perigo, era a qualidade do fundamento.

Pegou uma távola de madeira e um estilo. A canção, há muito tempo guardada no íntimo, pedia para ser partilhada. Começou a gravar as palavras, e elas fluíam como água de uma fonte reencontrada. “Inclinou-se para mim, e me ouviu quando clamei por socorro.” A escrita era simples, direta, sem a pompa dos anais reais. Era o registro de um encontro.

Ele escreveu sobre a felicidade do homem que confia, sim, mas sua pena não se deteve aí. A experiência do resgate tinha-lhe dado novos olhos. Percebia agora que sacrifícios e ofertas, holocaustos e oblações, embora prescritos, não eram o que aquele Ouvinte atento, que se inclinara para o brejo, verdadeiramente desejava. O que Ele quisera, naquele momento crucial, não foram os cordeiros mais gordos do rebanho, mas os ouvidos abertos de Davi. A obediência atenta. O coração quebrantado e grato.

“Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro está escrito a meu respeito: Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; a tua lei está dentro do meu coração.” Davi parou a escrita, a emoção apertando sua garganta. Ele não era um servo perfeito. Sabia disso demasiado bem. Mas naquele instante de puro socorro, ele havia compreendido: a verdadeira religião não era um sistema de pagamento por serviços divinos. Era uma resposta. Um “Eis-me aqui” proferido por quem fora primeiro encontrado, primeiro amado, primeiro tirado do poço.

A canção tomava forma, um monumento mais duradouro que um altar de pedra. Ela falava do seu louvor na grande assembleia, do não conter os lábios que o SENHOR bem sabia. Mas também, com honestidade crua, voltava ao presente. Os perigos eram outros, mas a sensação de estar cercado por males incontáveis era familiar. “Pois já me cercaram males sem número; alcançaram-me as minhas iniquidades, de modo que não posso ver; são mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; de modo que me faltam as forças.”

A fé do homem salvo não era uma imunidade ao sofrimento. Era um refúgio dentro dele. Por isso a súplica final brotava, não do brejo, mas da rocha: “Apressa-te, SENHOR, em socorrer-me.” Era o grito de quem conhece o salvador. De quem, tendo os pés firmados na Rocha, podia olhar a nova tormenta e clamar, não por um primeiro resgate, mas por uma fidelidade contínua.

Davi pousou o estilo. O cântico estava completo. Não era apenas uma memória. Era um testemunho vivo, uma profecia de sua própria jornada e, ele intuía, da jornada de muitos outros que ainda pisariam no lodo e conheceriam a firmeza da rocha. Respirou fundo. Lá fora, o reino agitava-se com seus problemas. Mas dentro dele, ecoava o som do barro soltando seus pés e o silêncio solene que se seguira, prenúncio do grande e amoroso puxão que o colocara, para sempre, em terreno firme.

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