Bíblia em Contos

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O Peso da Aliança Renovada

A praça estava abarrotada de gente, um mar de cabeças sob o sol ainda brando da manhã. O ar cheirava a poeira levantada e a lã suada da multidão. Não era um dia de festa, apesar de todos estarem ali, reunidos. Havia um peso no silêncio que se instalou quando Esdras, o escriba, subiu no estrado de madeira. Nenhum murmúrio, apenas o som distante de uma criança chorando, rapidamente acalmada. Aquele silêncio era úmido, carregado de uma tristeza antiga.

Havia semanas que o muro estava de pé. A cidade de Jerusalém, depois de décadas de vergonha, tinha novamente um contorno, uma fronteira que a separava do mundo. A pedra cinzenta, ainda bruta em muitos lugares, era um testemátilho visível da fidelidade de Deus. Mas, paradoxalmente, quanto mais o muro se erguia, mais algo dentro deles parecia desmoronar. A completude da obra externa revelara, com crueldade, a ruína interna. Neemias, o governador, percebera isso. Não bastava ter muros. Era preciso reconstruir a alma.

Por horas, eles ficaram ali. Primeiro, ouviram a Lei. As palavras, familiares e ao mesmo tempo estranhas, caíam como marteladas sobre seus corações. “Lembrai-vos… não esquecereis… guardareis…” E com cada mandamento lido, uma memória particular surgia: um negócio desonesto no mercado, uma palavra áspera à esposa, uma negligência no sábado, um olhar de cobiça. A Palavra funcionava como uma luz clara entrando num quarto empoeirado, revelando cada partícula de sujeira que, na penumbra, passara despercebida.

Então os levitas subiram a um palanque mais alto. Não para ensinar, mas para falar com Deus. E o povo era apenas ouvinte de uma conversa colossal, uma oração que era espelho da sua própria história.

“Tu, só Tu, és o SENHOR.” A voz do levita era grave, mas quebrada pela emoção. Ele não começou por seus pecados, mas pela grandeza d’Aquele contra quem tinham pecado. Falou dos céus estrelados, obra dos Seus dedos. Falou do abismo primordial, da luz comandada à existência. E falou de um homem, Abrão, tirado do meio dos ídolos de Ur, um nômade com uma promessa no bolso e areia nos pés. O povo se via naquele homem. Eles também eram peregrinos.

A narrativa fluía, vívida e dolorosa. O levita descreveu o mar aberto como um sulco no deserto líquido, a coluna de fogo que era ao mesmo tempo luz e calor na noite fria do Sinai. As palavras criavam imagens na mente daquela gente simples: o maná, branco e redondo como geada, sobre a terra escura ao amanhecer; a água jorrando da rocha ferida, fresca e milagrosa. Deus não fora um espectador distante. Ele caminhara com eles, alimentara-os, vestira suas sandálias que não se gastavam.

E aqui, a voz do levita se embargou. “Mas os nossos pais se tornaram arrogantes.” A frase caiu como uma lápide. A história virou. A descrição das maravilhas deu lugar ao catálogo vergonhoso das rebeliões: o bezerro de ouro fundido ainda com o eco do trovore no ar, as constantes murmurações no deserto, a recusa em entrar na terra boa. O levita não poupava detalhes. Falava de como, mesmo na Terra Prometida, se misturaram com os povos, adotaram seus costumes vazios, profanaram o sábado, oprimiram os pobres. A culpa não era só dos antepassados. Era uma herança de sangue que corria em suas próprias veias.

Um homem ao meu lado, um pedreiro que trabalhara no muro, encostou o rosto nas mãos calejadas. Seus ombros tremiam levemente. Não era um choro alto, mas um pranto silencioso de reconhecimento. Aquele não era um relato histórico; era um diagnóstico. Eles eram os filhos teimosos, o povo de coração duro.

Então veio o refrão. E era esse refrão que cortava mais fundo que a lista dos pecados. “Tu, porém, na tua grande misericórdia, não os abandonaste no deserto… Tu os sustentaste por quarenta anos… Tu lhes deste reinos e povos…” Era um paradoxo desconcertante. A infidelidade deles, constante e criativa. A fidelidade d’Ele, mais constante ainda, teimosa, implacável em seu amor. Deus punia, sim. Permitia que fossem entregues nas mãos de opressores. Mas ao primeiro grito de socorro – um grito muitas vezes interesseiro e pouco arrependido – Ele enviava um juiz, um libertador. Era como um ciclo de respiração: eles expiravam a rebeldia, Deus inspirava a salvação.

“Eis que hoje somos escravos.” A afirmação era corajosa. Escravos. Ali, em sua própria terra, com um muro novo. Escravos dos impérios, sim, pagando tributos à Pérsia distante. Mas, pior, escravos de seu próprio caráter, de sua inclinação para o erro. A reconstrução dos muros era um ato de graça, mas eles ainda não eram livres.

O sol já estava alto, quase no zênite, derramando uma luz branca e implacável sobre a praça. A poeira suspensa brilhava como partículas de ouro. A oração chegava ao fim, não com um pedido desesperado, mas com um acordo solene. “Uma firme aliança.” As palavras finais ecoaram: “Não abandonaremos a casa do nosso Deus.”

O silêncio retornou, mas agora era diferente. Não era o silêncio pesado da culpa não nomeada, mas o silêncio profundo de uma decisão tomada coletivamente. Era o som de uma pá encontrando terra para um novo alicerce, invisível. Homens e mulheres se levantaram, os rostos marcados por lágrimas secas, mas os olhos com um brilho novo. Algo havia sido refeito naquele dia. Não com pedra e cal, mas com memória, confissão e o espanto redentor diante de um Deus que, insistentemente, teima em ser fiel quando tudo e todos falham. O muro ao redor era importante. Mas a muralha que começavam a edificar naquele dia, feita de arrependimento e compromisso, era o que, de fato, os guardaria. Eles saíram da praça não aliviados, mas responsáveis. Caminhavam mais devagar, carregando o peso bom da aliança renovada.

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