Bíblia em Contos

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O Sonho de Sabedoria em Gibeão

O sol da manhã ainda era baixo, mas já carregava a promessa de um calor pesado, típico dos meses secos em Gibeão. A poeira fina, levantada pelos pés dos servos e dos animais, pairva no ar como uma névoa dourada, iluminada pelos raios oblíquos. Salomão sentia o peso do manto real sobre os ombros, um peso que ia além do tecido pesadamente bordado. Havia semanas que ele não dormia uma noite inteira. O eco dos passos de seu pai, Davi, parecia ressoar nos corredores de pedra do palácio, nos sussurros dos conselheiros, no olhar esperançoso do povo que se aglomerava para vê-lo passar.

Ele não fora até Gibeão por mero ritual. O grande altar, ali no alto, era o lugar. O último lugar onde, em sua mente, talvez pudesse encontrar um sussurro de direção. O cheiro de terra seca, de madeira queimada e de incenso era denso e antigo. Enquanto os sacrifícios eram preparados, ele se afastou um pouco da comitiva, olhando para o horizonte acidentado de Judá. Rei. A palavra soava oca dentro dele. Herdara um trono, um reino unificado por um gigante, mas que ainda guardava as fraturas antigas entre norte e sul, as lealdades volúveis, a complexa rede de alianças e ameaças com os reinos vizinhos. Herdara também a promessa feita a Davi, uma promessa que agora pousava sobre seus ombros, demasiado jovens, demasiado inexperientes.

A noite anterior fora a pior. Deitado em sua câmara, ouvira o vento uivar como uma voz sem palavras, e cada som noturno se transformava numa decisão por tomar, num conflito por resolver. Como julgar com justiça? Como discernir entre a verdade conveniente e a Verdade? Como ser mais do que um administrador astuto, como ser um pastor, como seu pai havia cantado? A oração que brotara de seus lábios na escuridão não fora eloquente. Fora um gemido seco, a admissão crua de sua própria pequenez. “Eu sou apenas uma criança, não sei como me conduzir.”

O sacrifício foi consumido, as chamas crepitando alto contra o céu azul pálido. A fumaça subia em espiral reta, um coluna que parecia querer tocar o firmamento. A cerimônia se estendeu até o cair da tarde. A quietude que desceu sobre Gibeão ao final não era apenas a ausência de cânticos e trombetas; era uma quietude pesada, expectante. Exausto, corpo e alma, Salomão ordenou que sua tenda real fosse armada ali mesmo, no lugar alto. Não queria voltar para Jerusalém, para a cama de marfim e o silêncio opressivo dos aposentos reais. Aqui, pelo menos, respirava-se o mesmo ar que seus ancestrais haviam respirado.

O sono veio rápido, um abismo de esgotamento. E então, no sono, o mundo se transformou. Não foi um relâmpago, nem uma tempestade. Foi uma presença. O interior da tenda, antes escuro, foi preenchido por uma luz que não ofuscava, mas que revelava a essência de todas as coisas, como se cada fio da lona, cada tapete no chão, fosse iluminado desde dentro. E uma voz falou. Não com os ouvidos, mas dentro do seu próprio espírito, com uma clareza que fazia o pensamento parecer gaguejar.

“Pede o que quiseres que eu te dê.”

A simplicidade da oferta era aterradora. Não havia instruções, nem condicionantes. Um cheque em branco assinado pelo próprio céu. Naquele instante, todas as fantasias humanas desfilaram por sua mente: glória militar, riquezas inimagináveis, uma vida longa de prazeres, a aniquilação silenciosa de todos os seus inimigos reais ou imaginados. Ele as viu passar, como sombras, e percebeu o seu vazio. Elas não resolveriam o nó que apertava seu peito todas as madrugadas. Não o fariam dormir em paz.

A resposta de Salomão não surgiu como um discurso preparado. Surgiu aos pedaços, entrecortada pela mesma vulnerabilidade que o consumira na noite anterior. Lembrou-se da *chesed*, da misericórdia leal que Deus havia mostrado a Davi. Lembrou-se do povo, uma vastidão de rostos, histórias, conflitos e esperanças que ele fora chamado a conduzir. E então as palavras vieram, molhadas de sinceridade áspera:

“Tu usaste de grande benevolência para com teu servo Davi, meu pai… E agora, ó SENHOR meu Deus, tu me fizeste rei em lugar de Davi, meu pai. Eu, porém, sou apenas um menino pequeno; não sei como sair, nem como entrar. E teu servo está no meio do teu povo que elegeste, povo grande, tão numeroso, que não se pode contar… Dá, pois, ao teu servo um coração compreensivo para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; pois quem poderia julgar a este teu tão grande povo?”

Houve um silêncio dentro do sonho. Um silêncio que não era de reprovação, mas de profunda atenção. Quando a voz voltou a ressoar, trazia uma qualidade diferente, uma calorosa aprovação que permeou o ser de Salomão como o primeiro raio de sol da manhã após uma noite gélida.

“Porque pediste isso, e não pediste para ti longos dias, nem riquezas, nem a vida de teus inimigos, mas pediste entendimento para discernir o que é justo… Eis que faço segundo as tuas palavras. Eis que te dou um coração sábio e inteligente, como nunca houve antes de ti e depois de ti não haverá. E também até o que não pediste eu te dou: tanto riquezas como glória, de maneira que não haverá rei semelhante a ti em todos os teus dias. E, se andares nos meus caminhos, guardando os meus estatutos e os meus mandamentos, como andou Davi, teu pai, também prolongarei os teus dias.”

A luz então começou a esmaecer, não como um apagar, mas como um recuar suave para além dos limites do mundo visível. Salomão acordou de súbito, sentado em sua esteira. O interior da tenda estava escuro, apenas com a fraca luminosidade do luar filtrando pela entrada. Mas algo havia mudado. O peso nos ombros ainda estava lá, mas agora era diferente. Já não era o fardo esmagador da insegurança, mas o peso solene de uma responsabilidade que vinha acompanhada de uma ferramenta. Uma paz profunda, não a paz da ausência de problemas, mas a paz da presença de uma promessa, encheu seu peito.

Ele saiu da tenda. O ar da madrugada era frio e límpido. As estrelas pareciam mais próximas, cintilando como diamantes sobre veludo. Olhou para o altar escuro, silhueta contra o céu que começava a clarear no oriente. O cheiro de cinzas ainda pairava. Era o cheiro de um fim e de um começo.

A viagem de volta a Jerusalém foi feita em silêncio, mas não num silêncio angustiado. Salomão observava a paisagem passar, os vilarejos começando a acordar, os pastores levando seus rebanhos. Via agora cada cena não como um problema administrativo, mas como um fragmento do grande povo que lhe fora confiado. A sabedoria que recebera não era um manual completo de respostas. Era uma lente, uma capacidade de escavar até o coração das questões, de ouvir o não dito, de pesar motivos e consequências com uma balança que buscava o equilíbrio divino da justiça temperada pela misericórdia.

E não demorou muito para que aquela sabedoria, dada num sonho em Gibeão, fosse posta à prova nas ruas de pedra de Jerusalém, diante do clamor de duas mulheres e do choro de uma criança que não tinha palavras para pleitear sua própria causa.

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