Era uma época em que não havia rei em Israel, e cada qual fazia o que achava correto aos próprios olhos. A estrada poeirenta que descia das montanhas de Efraim em direção a Belém de Judá era um fio de poeira e pedras sob um sol inclemente. Um levita, homem de certa dignidade e dono de uma voz usada nas recitações sagradas, caminhava com o passo pesado de quem carrega uma decisão difícil. Ele ia buscar sua concubina, que havia partido para a casa de seu pai, em Belém, após uma discussão cujas palavras exatas o tempo e o orgulho haviam apagado. Há quatro meses ela estava lá.
O pai da moça, um homem de rosto curtido pelo sol dos vinhedos, ao vê-lo, encheu-se de alegria genuína. “Fica, meu genro, fica conosco alguns dias. Converse com ela. Acalma o coração.” E o levita ficou. Um dia, que se tornou dois, que se tornaram cinco. As manhãs eram preenchidas com o silêncio pesado entre o casal, aliviado apenas pela hospitalidade insistente do velho. Pães quentes, vinho escuro, queijos de cabra. A rotina da casa tentava costurar o que estava rasgado.
No quinto dia, o levita levantou-se decidido ao amanhecer. “Preciso retornar. Minha casa, meus deveres.” O sogro, com a mão pesada no seu ombro, suplicou: “Come algo primeiro, fortalece-te para a jornada.” E ele comeu. Mas quando se aprontou para partir, o velho tornou a insistir: “Vê como o dia já declina. Fica mais esta noite, que o teu coração se alegre. Amanhã cedo partireis.” O levita cedeu. Só que, no dia seguinte, saíram tarde, já pela tarde, quando a sombra alongada das oliveiras anunciava o crepúsculo próximo.
A viagem era longa. A concubina, agora silenciosa como uma sombra ao seu lado, caminhava com os olhos fixos no chão. Ele conduzia dois jumentos, um para montaria, outro para a carga. O sol mergulhou atrás das colinas, e o azul do céu escureceu para um púrpura inquietante. Estavam próximos a Jebus, a cidade dos estrangeiros. O servo, um homem prático, sugeriu: “Senhor, entremos nesta cidade dos jebuseus. Passaremos a noite ali.” O levita hesitou, olhando as muralhas estranhas. “Não. Não entraremos em cidade de gente que não é dos filhos de Israel. Seguiremos até Gibeá, cidade de Benjamim.” Havia um orgulho tribal, um fio de fé mal costurado naquela decisão.
Chegaram a Gibeá já sob um manto de escuridão total. Sentaram-se na praça principal, onde deveria haver movimento, vida, o burburinho do final do dia. Mas a praça estava deserta. As portas das casas permaneciam fechadas, nenhuma lâmpada acesa nas janelas. Apenas o vento frio da noite circulava entre as edificações de pedra, carregando um presságio. Esperaram, sentados sobre os fardos, até que um homem idoso surgiu do caminho do campo, carregando feixes de lenha. Era um lavrador, também de Efraim, mas que agora vivia em Gibeá como estrangeiro. Seus olhos, ao ver o pequeno grupo parado no desamparo, estreitaram-se de preocupação.
“Para onde ides? Donde viestes?”, perguntou, sua voz rouca cortando o silêncio.
“Viemos de Belém de Judá, rumo às montanhas de Efraim, que é o meu lugar”, respondeu o levita. “Estamos de passagem, mas ninguém nesta cidade nos ofereceu abrigo. Temos palha e forragem para os jumentos, e pão e vinho para nós. Não carecemos de nada, senão de um teto.”
O velho homem comoveu-se. “Paz seja convosco. Todo o necessário eu providenciarei. Mas não fiqueis na rua.” E os levou para sua casa humilde. Lavou-lhes os pés empoeirados, deu água aos animais, e partilhou com eles a sua simples refeição. Estavam ali, os corações começando a descontrair-se com o calor do fogo e da comida, quando o som chegou.
Primeiro, foram golpes na porta. Depois, vozes. Não eram vozes de boas-vindas, mas um coro rouco e exigente. Batiam com força, com a palma da mão e com os nós dos dedos, fazendo a estrutura da porta tremer. O velho levantou-se, alarmado. “Tragam para fora o homem que entrou em tua casa”, gritavam de fora, “para que o conheçamos.” A expressão era clara, carregada de uma violência sexual e desumanizante. O velho, pálido, saiu e enfrentou o grupo. “Não, meus irmãos, não façais semelhante mal. Este homem entrou em minha casa. Não cometais esta vileza.” A turma, no entanto, não recuava. A pressão na porta aumentava.
Então, em um ato de pavor e de cálculo desesperado que gelaria o sangue de qualquer leitor por séculos, o levita agarrou sua concubina e a levou para fora, para a multidão. “Eis-vos minha mulher”, disse, sua voz possivelmente trêmula, possivelmente firme de um terror egoísta. “Fazei-lhe o que bem vos parecer.” Ele a entregou. E fechou a porta.
A noite inteira eles a violentaram, uma sucessão de sombras brutais contra sua silhueta na escuridão da rua. O grupo se dispersou somente ao romper da alvorada, quando a primeira faixa de luz cor de cinza riscou o horizonte. A mulher rastejou até a soleira da casa onde seu senhor estava, e ali caiu, com as mãos sobre o umbral, como se mesmo na agonia buscasse o abrigo que lhe fora negado.
Ao amanhecer, o levita abriu a porta para seguir viagem. Encontrou-a ali, prostrada. Talvez pensasse que ela dormia. “Levanta-te”, disse ele, “vamos indo.” Não houve resposta. Ele a colocou sobre um dos jumentos, seu corpo um fardo inerte, e partiu para sua casa, nas montanhas de Efraim. Ao chegar, tomou uma faca de talhar a carne. E, com um gesto que transformaria um crime local em um clamor nacional, dividiu o corpo dela em doze partes. Enviou cada pedaço, como um manifesto macabro, a todas as tribos de Israel.
A notícia percorreu o país como um choque. “Jamais se fez nem se viu coisa assim, desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egito”, diziam os mensageiros, e a palavra ecoava de tenda em tenda, de cidade em cidade. Um horror tão concreto, tão visual, que não podia ser ignorado. O povo se reuniu, como um só homem, diante do SENHOR em Mispa. A história foi contada, o pedaço de evidência sangrenta estava diante de todos.
E o texto sagrado, com sua sobriedade devastadora, registra apenas o silêncio final da mulher, e o clamor do povo. Mas entre as linhas, ouvimos o rangido da porta sendo fechada, o baque surdo do corpo contra a soleira, e o silêncio abissal que se instalou no coração do levita e de toda uma nação à beira do abismo. Era uma época sem rei, e cada qual fazia o que achava certo. E o que achavam certo era, frequentemente, um caminho direto para a escuridão.




