Bíblia em Contos

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Bíblia

O Preço da Fidelidade

O sol da tarde pesava sobre as colinas de Gileade, um calor úmido que grudava nas vestes e tornava lento o pensamento. Na pequena aldeia de Quiriat-Dota, o ar cheirava a pó, a folhas de oliveira esmagadas e ao fumo denso que subia do altar de pedra no centro do povoado. Era o cheiro da vida comum, da rotina abençoada pela Lei.

Elias, filho de Jafé, encostava-se ao umbral de sua casa, observando os filhos menores correndo entre as cabras. Seu coração, porém, estava inquieto. Há três luas, chegara à aldeia um primo distante, Malom, da cidade de Betel ao norte. Malom trouxera histórias. Histórias de cidades com muros altos, de caravanas ricas, e, sussurrava-se à noite, de deuses novos. Deuses que não demandavam sacrifícios complicados, que prometiam fertilidade à terra e aos ventres com ritos mais… acolhedores.

No início, Malom apenas falava em mercados, em negócios. Depois, começou a contar sonhos. “Um anjo do Senhor me apareceu”, dizia ele, reunindo alguns homens à sombra do grande carvalho. “E mostrou-me um caminho de prosperidade. Um atalho que o próprio Eterno, em sua misericórdia, agora revela.” Elias sentia um frio na nuca ao ouvir aquilo. O Eterno era um só, e seu caminho estava escrito na Lei de Moisés, não em sonhos convenientes.

A tensão foi crescendo como o riacho no inverno. Malom, com seu jeito persuasivo e olhos brilhantes, conquistara parte da aldeia. A mulher de Josias, estéril por anos, foi vista levando oferendas de bolos de mel a um pequeno ídolo de Astarote, escondido na gruta nos arredores. “Malom disse que a deusa ouve com mais clemência”, justificou-se, com os olhos baixos e cheios de uma esperança dolorosa. Rapazes, atraídos pelas promessas de glória fácil, começaram a falar em Baal, o senhor da tempestade, que supostamente dava vitórias sem exigir a pureza de coração que o Deus de Abraão demandava.

O ponto de ruptão veio num sábado. Após a leitura da Torah, Malom levantou-se. Não era sua vez, mas sua presença impunha silêncio. “Irmãos!”, exclamou, a voz melíflua cortando o ar poeirento. “Por que penamos tanto? Nossas colheitas são magras, nossos rebanhos mirrados. O Deus que nossos pais serviram no deserto é um Deus de severidade. Mas eis que ele, em sua infinita bondade, enviou-me para vos guiar a uma nova aliança. Uma aliança com os deuses desta terra, que conhecem seus segredos e nos darão seu favor. Sigam-me ao lugar alto nesta noite. Veremos um sinal. Um fogo descerá do céu, e então saberão que esta é a verdade.”

Um murmúrio eletrizou a assembleia. Alguns rostos brilharam com expectativa avarenta. Outros, como o de Elias, contraíram-se em máscaras de horror. Era a abominação descrita pelo próprio Moisés. O profeta ou sonhador que surge no meio de ti, mesmo que dê um sinal que se cumpra, mas que te incita a afastar-te do Deus Único.

Elias sentiu as palavras da Lei ecoarem dentro de seu peito, como um tambor grave e antigo: *”Não ouvirás as palavras daquele profeta ou daquele sonhador…”*

A noite caiu, carregada de estrelas frias. Um grupo subiu ao outeiro, levando tochas que dançavam como espíritos inquietos. Elias os seguiu, não por curiosidade, mas com um peso de ferro no estômago. Viu Malom erigir um altar tosco a Baal. Viu-o invocar nomes estranhos, com uma eloquência que fazia tremer os mais simples. E então, para o terror e êxtase dos presentes, um clarão laranja e azul irrompeu de uma fenda nas rochas, lambendo o altar e consumindo a oferenda de carne. Gritos de admiração, de triunfo, encheram a noite.

“Vês?”, gritou Malom, transfigurado pela luz das chamas e pelo próprio sucesso. “É o sinal! O novo caminho é verdadeiro!”

Elias, porém, não viu a glória de Deus naquelas chamas. Viu uma armadilha. Lembrou-se do restante do mandamento: *”Porque o Senhor, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o Senhor, vosso Deus, com todo o vosso coração e com toda a vossa alma.”* Aquele sinal espetacular não era uma confirmação, era uma isca. Uma prova para o coração da aldeia.

Os dias seguintes foram de fermento amargo. A aldeia dividiu-se. Famílias brigavam. O altar ao Senhor ficou negligenciado, coberto de cinzas frias. A palavra de Malom tornou-se lei para muitos. Elias, junto com outros anciãos que ainda tremiam diante da Aliança, reuniu-se em segredo. A conversa era áspera, cheia de angústia. A Lei era clara, terrivelmente clara, sobre o que fazer com aquele que buscava desviar o povo, ainda que fosse da própria carne: *”Não o pouparás, nem o encobrirás. Mas certamente o matarás.”*

Era uma ordem que ia contra todo instinto humano, todo laço de parentesco. Matar o primo? Aquele com quem brincaram na infância? A mão de Elias suou frio. Era fácil recitar a Lei no conforto da tradição. Era outra coisa aplicá-la quando o pecado tinha o rosto de alguém conhecido, e vinha envolto em sinais milagrosos.

A manhã da decisão amanheceu cinzenta. Elias saiu de casa antes do alvorecer, foi até o campo e, ali, sozinho, lutou. Lembrou-se do bezerro de ouro, da fúria santa de Moisés. Lembrou-se que a aliança não era um acordo flexível, mas um pacto de vida ou morte. A idolatria não era um mero erro teológico; era um vírus que, se não extirpado, infectaria todo o corpo do povo, levando-o à ruína, à dissolução, ao esquecimento de quem eles eram. A misericórdia para com o sedutor era crueldade para com toda a comunidade.

Com o coração feito de pedra e lágrimas secas, ele retornou. Encontrou os outros fiéis. Seus olhos se cruzaram, e não houve necessidade de palavras. A resolução, dura como sílex, estava ali.

Confrontaram Malom no largo, diante de todos. A acusação foi feita, clara, baseada nas palavras imutáveis recebidas no Horebe. Malom riu, desdenhoso, apelando para a multidão. “Matar-me? Por vos trazer a bênção? Olhai para o sinal que foi dado!”

Mas Elias, com uma voz que não reconheceu como sua, tão firme e fria saiu, declarou: “O sinal foi a prova. E tu falhaste. E nós, se te pouparmos, falharemos também.”

Não foi um ato de ódio. Foi um ato de cirurgia, doloroso e necessário. Um silêncio gelado tomou conta da praça quando a sentença foi executada. O falso brilho dos milagres de Malom extinguiu-se, deixando apenas a realidade crua da desobediência e seu preço.

Naquela tarde, um vento forte varreu as colinas, limpando o ar do cheiro do incenso estranho. O altar ao Senhor foi limpo, as pedras rearrumadas. O sacrifício da tarde foi oferecido novamente, e o fumo que subiu era fino e reto, como uma oração.

Elias olhou para os filhos, agora quietos e impressionados. O coração doía, uma dor profunda e limpa. Não havia triunfo, apenas a consciência esmagadora do custo da fidelidade. A aldeia fora salva da apostasia, mas a memória daquele dia, do rosto de Malom, da escolha terrível, ficaria marcada em sua alma para sempre. Era o jugo da Lei. Pesado. E, ele entendia agora, essencial. Pois o Deus Único não dividia seu coração com ninguém, e amar-Lhe com tudo exigia, às vezes, um amor tão radical que era capaz de se parecer, aos olhos do mundo, com a mais dura das justiças. A noite caiu sobre Quiriat-Dota, uma noite silenciosa, sob a mesma vastidão estrelada que testemunhara a Aliança. E, naquela quietude, havia um temor renovado. E, para quem soubesse sentir, uma paz antiga e austera.

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