Bíblia em Contos

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A Justiça de Tamar

A história começava, como tantas outras, com um homem e um caminho que não deveria ter tomado. Judá, filho de Jacó, desceu de seus irmãos. Foi uma descida geográfica, de Hebrom em direção às planícies, mas também um desvio do espírito. A terra de Adulão era diferente. O ar carregava menos o peso das promessas feitas a seus antepassados e mais o cheiro seco da terra de cananeus. O sol, naquela região, batia com uma insistência branca e implacável.

Foi lá que ele viu a filha de um homem chamado Suá. Ela não tinha nome na memória que seria passada adiante, apenas o título de sua relação: filha, esposa, nora. Mas naquele dia, para Judá, ela era uma moça de olhos escuros e pesados, e o pai dela um homem útil para se ter por perto. O casamento foi arranjado, uma transação prática como muitas naquelas paragens. Ela entrou na tenda dele, e por um tempo, a vida seguiu seu curso previsível sob o sol daquela terra estrangeira.

Ela lhe deu três filhos. O primeiro, Er, veio ao mundo com o grito rouco de um recém-nascido. Judá, seguindo o costume, arranjou-lhe uma esposa. O nome dela era Tamar. Ela não era cananeia, mas uma mulher de família hebreia, talvez um último laço com o povo de onde Judá viera. Er, porém, era mau aos olhos do Senhor. A expressão é curta e terrível, um véu que cobre um abismo de ações. E o Senhor o fez morrer. A morte chegou súbita, deixando Tamar viúva, sem filhos, e o status de uma mulher à beira do esquecimento.

Então Judá falou a Onã, seu segundo filho: “Casa com a mulher do teu irmão. Cumpre para com ela o dever de cunhado. Suscita descendência ao teu irmão.” A lei não estava escrita em pedra, mas gravada nos costumes mais antigos. Onã entendeu. Mas o seu raciocínio era mesquinho e terreno. Sabia que a descendência que gerasse não seria considerada sua, mas do irmão morto. A herança, o nome, a memória — tudo pertenceria a um fantasma. Então, cada vez que se deitava com Tamar, deixava o sémen perder-se na terra, num ato que era tanto uma negação à viúva quanto uma afronta ao irmão que deveria honrar. O que ele fez também desagradou ao Senhor, que o fez morrer também.

Dois filhos mortos. Duas mortes que carregavam o peso do julgamento divino. Um frio percorreu a espinha de Judá quando olhou para Tamar. Não a viu mais como nora, mas como um presságio. Um laço de fatalidade. Em sua mente, confusa pelo luto e pelo medo, a lógica era cruelmente simples: esta mulher traz a morte. Meu filho mais novo, Selá, não pode tocá-la. Ele ainda é jovem. “Vai à casa de teu pai, Tamar”, disse-lhe Judá, com uma voz que tentava soar autoritária, mas que traía um tremor. “Fica como viúva até que meu filho Selá cresça.” Era uma promessa, mas também um adiamento indefinido. Talvez um esquecimento.

Tamar obedeceu. Retirou-se para a casa de seu pai. Vestiu-se novamente com as roupas de uma filha, mas a alma continuava vestida de luto e de espera. Os anos passaram. O pó das estações cobriu os caminhos. Judá tornou-se viúvo também. A esposa sem nome faleceu, e o luto dele foi sincero, mas breve. A vida, especialmente para um homem com rebanhos e obrigações, precisava seguir. Selá cresceu. Tornou-se um homem, sua barba encorpando, seus ombros alargando. Mas Judá não falava em cumprira promessa. Selá era agora o único fio que lhe restava. O fantasma de Er e Onã pairando sobre Tamar era forte demais.

A notícia chegou a Tamar, sentada na casa de seu pai, tecendo talvez um pano cujas cores já haviam desbotado de tanto esperar. “Teu sogro sobe a Timna para tosquiar suas ovelhas.” Timna. Um lugar de trabalho, de suor, de homens concentrados no rebanho. E também um lugar distante das vistas da comunidade. Tamar compreendeu num instante. A promessa havia se desfeito no ar como fumaça. Ela estava condenada a uma não-vida, uma viúva sem filhos, um ramo cortado da árvore.

Então, algo firme brotou dentro dela. Não era apenas revolta; era um senso feroz de justiça, um apego desesperado ao direito que lhe era devido: o direito a uma descendência, a um nome, a um lugar na história daquela família. Ela agiu com uma astúcia silenciosa. Despiu as vestes de viuvez, essas roupas que eram um símbolo público de sua condição estagnada. Guardou o manto que usava. Banhou-se, talvez, sentindo a água levar simbolicamente anos de espera passiva. Ungiu-se com óleo. Cobriu o rosto com um véu, não o véu de uma noiva, mas o de uma mulher que não queria ser reconhecida. E sentou-se à entrada de Enaim, um lugar de cruzamento, no caminho para Timna.

Judá passou por ali. Viu uma figura sentada à beira do caminho, o rosto velado. Na penumbra da tarde, ela não parecia uma prostituta comum — havia algo no porte, na quietude. Ele pensou que era uma prostituta cultual, dessas que frequentavam os santuários cananeus. A cegueira dele era total: não viu a nora, viu apenas uma solução para um desejo momentâneo.

“Deixa-me possuir-te”, disse ele, direto, como um homem que negocia um animal.
“O que me darás por me possuir?”, respondeu a voz por trás do véu.
“Enviar-te-ei um cabrito do rebanho.”
“Está bem. Mas que penhor me darás até que o envies?”

Judá pensou. O que tinha consigo? “Que penhor te darei?”
“O teu selo, o teu cordão e o cajado que tens na mão.”

Eram objetos íntimos. O selo cilíndrico, com sua inscrição única, era sua identidade, sua firma. O cordão, que o prendia, talvez à túnica. O cajado, marca do pastor, extensão de sua autoridade. Ele os entregou. Naquele momento, o desejo ofuscou a prudência. Possuiu-a, e dela engravidou. Ela se levantou depois, tomou seu véu e vestiu novamente as roupas da viuvez. Tornou-se Tamar novamente, a viúva esquecida.

Judá cumpriu a parte material do acordo. Enviou o cabrito por um amigo adulamita, com a ordem tácita de recuperar os penhóis. Mas a mulher à entrada de Enaim havia desaparecido. Ninguém na região conhecia uma prostituta cultual naquele lugar. O amigo voltou perplexo. “Não a encontrei. E os homens do lugar disseram que nunca esteve aqui prostituta cultual.” Judá encolheu os ombros, um misto de irritação e alívio. “Fique ela com as coisas, para que não nos tornemos objeto de zombaria. Eu tentei cumprir. Não posso sair à caça dela.”

Três meses depois, a notícia chegou a Judá como um soco. “Tamar, tua nora, prostituiu-se. E eis que está grávida da sua prostituição.” A reação dele foi imediata, violenta, fundamentada na lei que ele mesmo havia violado ao negar-lhe Selá. “Tirai-a para fora!”, bradou. “Que seja queimada!” A hipocrisia vestia-se de zelo moral.

Quando a levaram, Tamar não gritou. Em vez disso, mandou dizer ao sogro: “Do homem a quem pertencem estas coisas eu estou grávida.” E enviou o selo, o cordão e o cajado. O mensageiro deve tê-los colocado nas mãos de Judá, que os reconheceu no mesmo instante. A revelação foi como um raio que ilumina uma paisagem noturna, mostrando todos os contornos tortos de seus atos.

Ele tremeu. A vergonha foi mais profunda que a raiva. “Ela é mais justa do que eu”, disse, e a frase ecoou na poeira do tribunal improvisado. “Porquanto não a dei a meu filho Selá.” A justiça de Tamar não era de pureza imaculada, mas de perseverança feroz. Ela lutou pelo seu direito dentro do labirinto de leis e costumes, usando as próprias armas de um mundo que a queria invisível.

Judá não a conheceu nunca mais. Mas a história dela não terminou ali. Os gemidos do parto chegaram, fortes e complicados. Quando a parteira viu a mãozinha sair primeiro, amarrou um fio escarlate nela, anunciando: “Este saiu primeiro.” Mas a mão recolheu-se, e seu irmão rompeu a barreira antes. “Que brecha abriste para ti?”, exclamou a parteira. E ele foi chamado Perez, que significa “Brecha” ou “Rompimento”. Depois veio o outro, com o fio escarlate na mão, e foi chamado Zerá, “Alvorada” ou “Esplendor”.

Dois meninos. Uma linhagem. Perez, o rompedor, aquele que forçou a passagem. Dele, gerações depois, nasceria Boaz, e de Boaz, Obede, e de Obede, Jessé, e de Jessé, um pastor que se tornaria rei. A brecha aberta por Tamar na muralha do esquecimento tornou-se um portal na história da salvação.

E Judá? Aprendeu. A justiça de Tamar o marcou mais que qualquer reprovação direta. Ele, que havia descido de seus irmãos, começou, ali, uma lenta e difícil subida de volta. A história silencia sobre seus sentimentos posteriores, mas o nome de Tamar e de seus filhos ficou gravado na memória do clã. Não como escândalo a ser escondido, mas como um capítulo difícil, humano, e profundamente trabalhado pela mão teimosa de um Deus que escreve direito mesmo com as linhas mais tortas dos homens.

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