A luz da tarde entrava pela fenda na parede de tijolos, poeira dançando no raio estreito que ia morrer no chão de terra batida. Lucas limpou o suor do rosto com a manga do túnico, já encardida. O tear rangia, um som ritmado e monótono que marcava as horas na pequena oficina em Tessalônica. Fora, o burburinho do porto, o cheiro misturado de peixe, especiarias e estrume. Dentro, o cheiro do linho úmido e do suor.
Havia uma inquietação no ar, algo que ia além do calor abafado do fim de verão. As palavras do apóstolo, lidas na reunião daquela primavera, ecoavam dentro dele de um jeito novo e, ao mesmo tempo, doloroso. “A respeito dos que dormem”, ele dissera. Lucas parou por um momento, as mãos calejadas imóveis sobre a trama inacabada. Seus olhos se voltaram para o canto da sala, onde um pequeno vaso de barro repousava sobre um banco baixo. Dentro, um punhado de terra da Macedônia e uma mecha de cabelos muito finos, loiros como o linho antes de ser tingido. Eleni. Partira com a febre no inverno, sem completar três anos. O sono. Era um jeito bonito de dizer. Mas era só um jeito de dizer? A dor era real e pesada, um bloco de mármore no peito.
Na sexta-feira, na reunião na casa de Jason, o assunto voltou. O rolo da carta, já desgastado nas bordas, foi passado de mão em mão. Marcos, cuja voz era grave e pausada, leu trechos em voz alta. “Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes acerca dos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança.” Lucas prendeu a respiraça. O luto dele, aquela saudade que doía fisicamente, era diferente? Não parecia. Chorava igual.
Foi a velha Lídia, a vendedora de púrpura, quem falou depois. Seus olhos, profundos e cheios de histórias, fitaram Lucas. “Minha filha, Lucas. Você acha que a dor de uma mãe que espera é igual à dor de uma mãe que não espera nada?” Ela não esperou resposta. “Quando meu filho partiu com as legiões para o norte, eu chorei todos os dias. Mas chorava olhando para a estrada. A tristeza tinha uma borda de luz. Agora, eu sei que meu Senhor vai voltar. E Ele trará Eleni com Ele. Não é um adeus. É um ‘até já’.”
As palavras ficaram martelando na mente de Lucas enquanto caminhava de volta para casa, evitando as tavernas barulhentas da Rua Egnácia. “Até já”. Soava estranho. Doce, mas estranho. A esperança era como um fio de ouro tecido num pano grosseiro de dor. Não tirava o peso do tecido, mas reluzia aqui e ali, lembrando que aquilo não era toda a história.
Os dias se passaram. A vida seguiu com seus afazeres: o tear, o mercado, os impostos cobrados pelos romanos com olhos impacientes. E havia outras tensões. Demétrio, o aprendiz, vivia se gabando de suas conquistas na casa das dançarinas perto do porto. Ria quando Lucas, constrangido, tentava falar sobre pureza. “Essas são ideias de judeu, mestre! Aqui somos gregos. O corpo é para o prazer.”
Uma noite, Demétrio chegou com os olhos vidrados e o hálito pesado de vinho barato. Lucas estava terminando um pedido urgente, a luz de uma lamparina fraca iluminando suas mãos ágeis. O jovem começou a provocá-lo, falando obscenidades sobre uma das mulheres que frequentavam as reuniões na casa de Jason. A raiva, quente e repentina, subiu pelo pescoço de Lucas. Ele se levantou, os punhos cerrados. Mas então, como se uma voz calma sussurrasse em seu ouvido interno, veio o fragmento da carta: “…que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra…” Possuir o próprio vaso. O próprio corpo. Não como os gentios que não conhecem a Deus. A ira se dissipou, deixando um cansaço triste. “Vá para casa, Demétrio”, disse Lucas, a voz mais rouca do que pretendia. “E pense no que você está usando para construir ou destruir.”
O rapaz saiu, resmungando. Lucas ficou olhando para as mãos, aquelas ferramentas que podiam criar tecidos belos ou, em um momento de fúria, causar dano. Santificação não era um termo para o templo apenas. Era para o tear, para a rua, para o impulso do coração.
O outono chegou, trazendo ventos frios do monte Olimpo. A espera começou a ganhar um novo sabor. Antes era uma doutrina, algo discutido com certo nervosismo. Agora era um suspiro no dia a dia. Lucas pegou o hábito de parar seu trabalho ao meio-dia e olhar para o leste, para além das muralhas da cidade, onde o céu se encontrava com o mar Egeu. Não por superstição, mas por uma espécie de exercício do coração. “Porque o próprio Senhor descerá do céu com alarido, com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus.” Ele imaginava o som. Não uma melodia suave, mas um alarido. Um grito de comando que rasgaria o céu de vez. Seria assustador? Talvez. Mas também seria a resposta a todos os “porquês” silenciosos que carregava dentro de si.
Numa tarde nublada, estavam todos reunidos quando um mensageiro, ensopado pela chuva que começara a cair, chegou com notícias perturbadoras de Filipos. Perseguições, prisões. Um ar de medo pairou na sala abafada. Foi então que João, o mais velho dos irmãos, um ex-vendilhão do templo com um rosto marcado, levantou-se. Sua voz era como o rangido de uma porta de madeira velha, mas cheia de uma autoridade tranquila.
“Irmãos”, disse ele, “lembrem-se do resto. ‘Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo.’ Esta tribulação… é apenas a poeira levantada pela carruagem do Rei que se aproxima. Não é a Sua ira. Ele nos salvou dela. Então, consolem-se uns aos outros com estas palavras.”
Consolar-se. Não era um consolo vazio, um “não se preocupe”. Era um consolo alicerçado numa promessa colossal. Lucas olhou ao redor. Viu o rosto pálido de Marcos, a preocupação nos olhos de Lídia, a inquietação dos mais jovens. E pela primeira vez, entendeu o fio que costurava tudo aquilo: a esperança diante da morte, a santidade no corpo, a vigilante espera pela volta. Tudo era uma coisa só. Uma vida ajustada àquela espera.
Ao sair, a chuva havia parado. O céu estava lavado, e uma única estrela brilhava fraco por entre as nuvens que se dissipavam. Lucas caminhou devagar. O vaso de barro com a lembrança de Eleni ainda estava lá, em sua casa. Mas agora, quando seus olhos pousavam sobre ele, a dor não era mais um bloco sólido. Era uma ondulação no peito, que vinha e partia. E na esteira dela, como o aroma no ar após a chuva, vinha a lembrança de uma promessa: “E assim estaremos para sempre com o Senhor.”
Ele não sabia o dia, nem a hora. Talvez fosse amanhã. Talvez daqui a cem anos. Mas sua tarefa, naquele momento, era clara: viver de tal maneira que, ao ouvir o alarido, pudesse levantar a cabeça não com terror, mas com um reconhecimento alegre, como quem finalmente ouve os passos há muito aguardados no caminho de casa. E, pensando nisso, seus próprios passos no chão úmido de Tessalônica pareceram ganhar um novo propósito, firme e quieto, sob o céu noturno que um dia se partiria.




