Bíblia em Contos

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Bíblia

O Tabernáculo Provisório

O sol da tarde caía pesado sobre o telhado de barro do casebre, e o calor parecia vibrar no ar, um espesso véu sobre a terra ressecada. Dentro, sentado numa cadeira de madeira gasta, o velho Téo observava as mãos. Observava não com desgosto, mas com uma curiosidade antiga, como quem estuda um instrumento familiar que, sabe-se, um dia há de falhar. A pele era mapa de rios secos, os nós dos dedos proeminentes, as unhas espessas e curvas. Ele fechou a mão direita, devagar, sentindo o roçar áspero da pele, o leve tremor que vinha de algum lugar profundo, alheio à sua vontade. “Tabernáculo provisório”, murmurou, as palavras soando estranhas e ao mesmo tempo íntimas na solidão da sala.

A expressão vinha das cartas do apóstolo, daquelas que o pastor lia aos domingos na capela de taipa. Téo nunca aprendera as letras, mas guardava as palavras no ouvido, como sementes que, com o tempo, brotavam entendimento no silêncio de seu trabalho. Era carpinteiro, ou fora, até os ossos começarem a cantar uma canção de desgaste a cada movimento. Passara a vida construindo e reparando: cercas, portais, gamelas, a própria casa que agora o abrigava. Sabia o que era uma tenda, um abrigo temporário. Usara uma na juventude, nas longas viagens até a feira do município. Era boa contra a chuva fraca, mas o vento forte a fazia estremecer toda; o calor do dia a transformava num forno, e o orvalho da noite a deixava úmida e fria. Você se agasalha dentro, mas não é lar. É algo que se carrega, que se arma e desarma, sempre sabendo que é passageiro.

Assim eram estas mãos, este corpo. Um ofício de conserto constante. Uma telha quebrada aqui, um estômago embrulhado ali, uma memória que escapava como água entre os dedos. Ele sentia, não com angústia, mas com uma saudade antecipada, o gemido interior de que falava o apóstolo. Não era o gemido da doença apenas, mas da inadequação. Como se esta carne, este “eu” de pele e osso, fosse um casulo apertado demais para algo que, lá dentro, ansiava por desdobrar asas que nem sabia ter.

Lembrou-se de Dona Marta, sua mulher, partida havia seis invernos. Nos últimos dias, ela, sempre tão vigorosa, mirrada na cama, os olhos pareciam ter ficado maiores, fixos num ponto além do teto de madeira. Ele segurara sua mão, a mesma que tantas vezes amassara o pão e acariciara a face dos netos, agora leve e fria como pássaro morto. E no último suspiro, um estranho suspiro que soou mais como alívio do que dor, ele jurou ter visto nos olhos dela não o vazio, mas um clarão. Uma centelha de reconhecimento, como quem, após longa viagem num veículo desconfortável, finalmente avista a luz da casa natal. A “morte” ali, naquela hora abafada do quarto, não parecera um fim. Parecera um desmonte. O desarmar daquela tenda frágil e cansada.

Téo levantou-se, devagar, e foi até a porta. A paisagem se estendia, o capim seco dourado pelo sol baixo, a linha de eucaliptos ao longe sussurrando com a viração que começava a soprar. Um pássaro, um sabiá, cantou de repente, uma nota clara e limpa que cortou a tarde. Aquilo tudo – a terra, o céu, o canto – tinha uma solidez, uma beleza que doía. E ele, dentro da pele que enrugava, sentia-se um estrangeiro. Não um estrangeiro que rejeita a terra, mas um que, amando-a, sabe que sua pátria está em outro lugar. Como o apóstolo dissera: “andar por fé, não por vista”. Era isso. A visão era esta beleza caduca, o corpo que falhava. A fé era a certeza, tecida no tear quieto da alma, de que havia uma casa “não feita por mãos humanas, eterna nos céus”.

Ele não temia o desmonte. O que lhe pesava às vezes era a sombra daquele dia do juízo. A vida inteira estendida como um pano, e cada ato, cada palavra não dita, cada gesto de impaciência ou de bondade pequena, tudo ali, claro como a luz do meio-dia. Essa era a parte que o fazia tremer. Saber que daria contas. Mas a mesma carta trazia o remédio para esse tremor: “Se alguém está em Cristo, é nova criação”. Não era sobre ser perfeito no tabernáculo velho. Era sobre ter o coração remendado por uma mão divina, sobre ser, mesmo agora, uma criatura diferente. O juízo, então, não seria o olhar de um estranho irado, mas do carpinteiro que conhece cada nó da madeira, cada falha do material, e que, apesar disso, vê nele a obra que Ele mesmo começou.

O céu começou a se incendiar em tons de púrpura e laranja. Téo respirou fundo, o ar agora mais fresco trazendo o cheiro da terra molhada de um regador distante. Ele era um velho num casebre, seus tesouros eram um martelo enferrujado, uma Bíblia que não sabia ler, e a lembrança do sorriso de Marta. Mas naquele instante, de pé na soleira entre a casa de barro e o crepúsculo glorioso, sentiu uma alegria quieta. O gemido dentro de si não era de desespero. Era de parto. A ansiedade não era por um fim, mas por um começo. A tenda balançava, sim, e as dores aumentavam. Mas eram dores de chegada.

Entrou, acendeu o lampião. A chama vacilou, depois firmou, lançando sombras dançantes nas paredes. Ele olhou para suas mãos outra vez, à luz amarela. Já não eram apenas mapa de rios secos. Eram ferramentas que, por um tempo, ajudaram a construir coisas aqui. E um dia, quando esta tenda se desfizesse no chão, ele, Téo – aquele que ele realmente era – de pé e revestido do que não pode se desgastar, veria face a face o Arquiteto. E talvez, quem sabe, encontraria novas ferramentas, em uma oficina onde a madeira nunca apodrece, e o trabalho não conhece a fadiga.

Soprou o lampião. Na escuridão que se instalou, não havia medo. Apenas a paciência sólida do viajante que, cansado da estrada, sabe que a próxima curva não traz o abismo, mas o portão de casa. E até lá, ele caminharia. Por fé, não por vista.

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