O sol da tarde batia forte sobre as paredes de pedra da cidade, misturando a poeira das ruas com o suor do dia. Dentro de uma casa modesta, à sombra de um pequeno pátio, um homem chamado Eliú tentava encontrar um pouco de frescor, mas o calor que mais o atormentava vinha de dentro. Sentado em um banco de madeira irregular, ele olhava para as mãos calejadas, as mesmas mãos que, anos antes, haviam segurado coisas das quais ele agora fugia em pesadelos. A paz era um conceito estranho para ele; a cada sombra alongada no chão, vinha a lembrança de erros passados, como uma dívida sempre presente, um peso que seus esforços para ser bom jamais pareciam aliviar.
Eliú não era um homem de letras, mas ouvira falar, nas reuniões discretas que aconteciam à beira do rio, de um tal Sha’ul, um homem que escrevera de um lugar distante. Alguém, numa tarde quente como esta, recitara partes de uma carta. As palavras, naquele momento, lhe pareceram como água ouvida mas não bebida. Agora, porém, no silêncio abafado do pátio, um fragmento voltou-lhe à mente, insistente: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”.
A palavra “paz” ecoou no vazio do seu peito. Ele olhou em volta, para a vida simples e dura que construíra após tantas fugas. Onde estava essa paz? Sua vida era uma sequência de reparações silenciosas, de olhos baixos, de tentativas de acertar contas com um céu que parecia sempre fechado. A teologia daqueles homens à beira do rio falava de um acesso, uma porta aberta de par em par pela fé. Para ele, contudo, a fé parecia mais uma corda bamba sobre um abismo do que um caminho sólido. Ele cria, sim, mas sua crença estava misturada com um temor antigo, o temor de que, no fundo, a conta ainda não estivesse quitada.
Dias se passaram. A seca apertava, e com ela vieram as dificuldades. Uma febre levou sua filha mais nova. A dor foi uma onda brutal, um sofrimento tão tangível quanto a pedra que ele apalpava na parede. No desespero mudo da vigília ao lado do leito da criança, algo curioso começou a germinar na sua alma atormentada. A angústia não produzia em si revolta contra o Deus distante, mas uma espécie de busca desesperada, um grito mudo por algo que fosse além daquela dor. Ele se lembrava, vagamente, de outra parte da carta: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança”.
Aquelas palavras soavam como loucura. Gloriar-se no sofrimento? Ainda assim, no processo lento e doloroso de perder e chorar, Eliú percebeu uma mudança imperceptível. A perseverança não era uma força hercúlea que surgia do nada, mas uma teimosia frágil, um “continuar a respirar” mesmo quando tudo pedia para desistir. E dessa teimosia, dia após dia, nascia uma experiência. Não uma experiência de triunfo, mas a experiência íntima, crua, de que ele não estava sozinho naquela escuridão. Algo, ou Alguém, sustentava sua respiração. E dessa experiência brotou, como um verde tenro após a chuva, uma coisa que há muito ele não sentia: esperança. Não a esperança vaga de que as coisas melhorassem, mas uma esperança específica, arraigada. A esperança de que a história não terminava ali, naquela cova rasa à beira do campo.
Foi numa manhã enevoada, enquanto trabalhava no campo de um vizinho para pagar uma dívida, que a compreensão o atingiu, não como um raio, mas como o amanhecer lento que dissipa a névoa. Ele contemplava uma velha oliveira, retorcida, parte de seu tronco queimado por um incêndio passado. Do lado mais são, porém, brotavam ramos novos, cheios de folhas prateadas e pequenas flores. A árvore não negava o dano; ele estava lá, exposto, marcado. Mas a vida fluía por outros caminhos.
Pensou então no paralelo que o pregador citara, aquele que para ele sempre fora um enigma: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”.
Sempre olhara para si mesmo através da lente do primeiro homem, Adão. Sentia-se herdeiro de uma queda que não escolhera, mas que ecoava em cada uma de suas próprias escolhas erradas. A culpa parecia um rio sujo correndo no sangue da humanidade, e ele estava imerso nele. Mas o pregador dissera que havia um Segundo Homem. Um que não era apenas um exemplo, mas um novo começo, uma nova fonte. Enquanto de Adão herdara uma natureza inclinada à queda, de Cristo, esse segundo Adão, poderia herdar uma nova posição: a de justificado.
A justificação. Ele ruminou a palavra. Não era um sentimento. Era um veredicto. Um decreto judicial. Se o ato de Adão no Éden o colocara sob condenação, o ato de Cristo na cruz – aquele “um só ato de justiça” – poderia colocá-lo em um estado de graça. A sua fé, vacilante como fosse, era o meio de se apropriar desse veredicto. Não era o mérito da sua fé que o salvava, mas o objeto dela: Cristo, e seu ato definitivo.
E então, como peças de um mosaico se encaixando, ele entendeu a paz. A paz com Deus não era a ausência de problemas, nem um sentimento tranquilo e constante. Era o fim da guerra. Era o cessar-fogo declarado pelo próprio Rei, baseado na obra de outro. Enquanto tentara construir sua própria justiça, ele mantivera as hostilidades. Ao crer na justiça de Cristo, depondo as armas da sua auto-suficiência, a paz foi estabelecida. Era um fato. Tão objetivo quanto o tronco queimado da oliveira. Sua culpa não foi simplesmente ignorada; foi colocada sobre Outro, e a justiça desse Outro foi creditada a ele.
O amor de Deus, que antes lhe parecia uma ideia abstrata e distante, ganhou contornos dramáticos e inesperados. O texto dizia: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. Eliú balançou a cabeça, quase rindo de tão profundo que era. O amor não foi revelado em um gesto fácil, em uma bonança concedida. Foi revelado no momento mais escuro, no sacrifício do Justo pelos injustos, enquanto eles ainda estavam mergulhados em sua rebeldia. Aquele amor era ativo, ofensivo, que invade o território inimigo para resgatar. Ele olhou para suas más memórias e, pela primeira vez, não viu apenas condenação. Viu o cenário de onde esse amor resgatoso o arrancara.
Eliú não se tornou um homem perfeito naquela hora. As marcas do passado, as tendências antigas, permaneceriam como o tronco queimado. A tribulação ainda viria, ele sabia. Mas algo fundamental mudara. Ele já não estava tentando escalar os céus para se reconciliar com Deus. Estava, a partir de agora, caminhando *a partir* da reconciliação já consumada. A esperança que nascera no sofrimento agora tinha uma âncora: “E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”.
O Espírito. Essa presença interior, sutil, que começara a transformar sua perseverança em caráter e sua experiência em confiança. Era ele quem derramava, gota a gota, o sentido real do amor de Deus no coração ressecado de Eliú.
Ao anoitecer, Eliú saiu do campo. A poeira ainda grudava em seus pés, o cansaço pesava em seus ombros. Mas dentro dele havia um silêncio novo, um espaço aberto. Não era a paz de um mar sempre calmo, mas a paz de um porto seguro em meio a qualquer tempestade. Ele olhou para o horizonte, onde as primeiras estrelas começavam a cintilar. A justificação era o alicerce. A paz, sua consequência. A tribulação, agora, um campo onde a esperança poderia crescer. E o amor? O amor era a fonte de tudo, um rio que nascia no coração de Deus e que, através de uma cruz e de um túmulo vazio, agora corria, insondável e seguro, até o fundo do seu próprio ser. Ele respirou fundo. O ar ainda estava quente, mas trazia, vinda de não se sabe onde, a sugestão de um frescor.




