Bíblia em Contos

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Bíblia

Unguento e Traição

O ar em Betânia era denso, carregado do aroma do pão assado e dos últimos raios de sol quente sobre as oliveiras. Dentro da casa de Simão, o leproso, uma refeição se desenrolava com a lentidão pesada de quem sente um fim se aproximar. Jesus estava reclinado à mesa, seus olhos pareciam repousar em cada detalhe com uma estranha doçura, como se estivesse memorizando a textura da luz no cântaro de barro, o som rouco da voz de Pedro contando uma história antiga.

Foi então que Maria entrou. Não anunciada, mas com uma urgência silenciosa que fez as conversas morrerem aos poucos. Em suas mãos, um vaso de alabastro, tão puro que a luz das lamparinas parecia nascer dentro dele. Ela não disse uma palavra. Quebrando o gargalo fino do vaso, o perfume invadiu o espaço, não suave, mas como uma onda poderosa e doce de nardo puro, um cheiro de sepultura rica e jardim fechado. Os discípulos respiraram fundo, alguns com surpresa, outros com incômodo. Ela se aproximou de Jesus, e com gestos lentos, quase cerimoniais, derramou o unguento sobre sua cabeça, e depois, ajoelhando-se, ungiu seus pés, enxugando-os com seus próprios cabelos soltos. O silêncio era quase físico.

Judas Iscariotes foi o primeiro a rompê-lo, e sua voz soou estridente, calculada. “Para que este desperdício? Este perfume poderia ser vendido por uma grande quantia e dado aos pobres.” Outros murmuraram concordâncias, aliviados por terem um motivo prático para disfarçar o desconforto que aquele gesto profundo lhes causava. Mas Jesus voltou-se para Judas, e seu olhar era pesado, uma tristeza infinita por trás das palavras. “Deixai-a. Por que a molestais? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pois sempre tendes os pobres convosco, mas a mim nem sempre me tendes. Ao derramar este perfume sobre o meu corpo, ela o fez para o meu sepultamento.”

A palavra caiu como uma pedra na água parada. Sepultamento. Ninguém quis perguntar mais. Judas levantou-se abruptamente, a boca apertada em uma linha fina. O cheiro do nardo, agora misturado ao do pão e do vinho, tornou-se para ele o cheiro do dinheiro perdido, da lógica desprezada. Naquela noite, enquanto a cidade dormia, ele se dirigiu às sombras do palácio do sumo sacerdote. O ar era frio, e suas sandálias faziam um ruído seco e solitário nas pedras. A negociação foi rápida, sórdida. Trinta moedas de prata. O tilintar metálico quando as bolsas foram pesadas na sua mão pareceu ecoar no vazio do seu peito.

Na noite seguinte, a Páscoa, a atmosfera era outra. Uma sala ampla, alugada, com os tapetes estendidos e o cordeiro assado sobre a mesa. Jesus parecia mais interiorizado, aquele olhar de despedida agora transparente. Enquanto comiam, ele pegou o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos. “Tomai, comei; isto é o meu corpo.” As palavras eram simples, mas o ato tinha uma solenidade que os aterrorizou em silêncio. Depois, o cálice. “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.” O vinho azedo e forte queimou na garganta de João, que estava reclinado ao lado dele. Era um sabor de pacto e de fim.

E então, a voz baixa, carregada de uma dor antecipada: “Em verdade vos digo que um de vós me trairá.” O tumulto foi instantâneo. “Acaso sou eu, Senhor?” Uma pergunta atropelando a outra, olhares desconfiados cruzando a mesa. Jesus respondeu com uma calma que cortava como uma faca. “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá. Em verdade o Filho do homem se vai, como a respeito dele está escrito, mas ai daquele por quem o Filho do homem é traído! Melhor lhe fora não haver nascido.” Judas, pálido, também perguntou: “Acaso sou eu, Rabi?” Jesus fitou-o, e naquele olhar não havia ódio, mas uma compreensão devastadora. “Tu o disseste.”

Depois da ceia, foram para o Monte das Oliveiras. A noite estava estrelada, fria. Jesus levou Pedro, Tiago e João mais para dentro, no recinto do Getsêmani. Sua angústia então transbordou, tornou-se visível. “A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo.” Afastando-se alguns passos, caiu com o rosto em terra. Sua oração não era um murmúrio decorado, era um lamento arrancado das entranhas: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.” Suor escorria de seu rosto como gotas de sangue, caindo sobre a terra escura. Quando voltou, encontrou os três dormindo, pesados de tristeza e de vinho. “Nem uma hora pudestes vigiar comigo?” A pergunta era um suspiro de solidão absoluta.

Duas vezes mais ele orou, a mesma súplica desesperada e submissa. E na terceira vez, disse: “Basta, é chegada a hora. Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos de pecadores.” E então, o ruído. Tochas, espadas, bastões. A multidão liderada por Judas, cujo rosto era uma máscara rígida. O beijo. “Salve, Rabi!” O beijo prolongado, teatral, o sinal combinado. Jesus olhou para dentro dos olhos dele: “Amigo, a que vieste?” Foi quando Pedro, em um acesso de fúria cega, puxou a espada e cortou a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote. O grito, o sangue, a confusão. A voz de Jesus ergueu-se acima do tumulto, firme: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão. Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?” E, tocando a orelha do homem, ele o curou, ali mesmo, no meio do caos, um último gesto silencioso de um reino que não era daquilo.

Preso, levado à casa de Caifás, o processo foi uma farsa sinistra. Testemunhas falsas se levantavam, contradizendo-se umas às outras, até que duas afirmaram: “Este disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias.” Jesus permanecia em silêncio. Finalmente, Caifás, exasperado, bradou: “Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.” O silêncio se rompeu. “Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.” Foi o que bastou. Rasgou as suas vestes, gritando: “Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vós ouvistes agora a blasfêmia. Que vos parece?” O coro veio uníssono: “É réu de morte!”

Lá fora, no pátrio frio, Pedro aquecia-se junto ao fogo dos servos. Uma serva aproximou-se, apontou: “Tu também estavas com Jesus, o galileu.” O medo, súbito e gelado, agarrou-o. “Não sei o que dizes.” Afastou-se para a porta. Outra serva o viu e disse aos que estavam ali: “Este também estava com Jesus, o nazareno.” Novamente, com juramento: “Não conheço esse homem!” Um pouco depois, os circunstantes se aproximaram, reconhecendo seu sotaque galileu: “Verdadeiramente também tu és deles, pois a tua fala te denuncia.” Então Pedro começou a praguejar e a jurar: “Não conheço esse homem!” E naquele instante, o galo cantou.

Pedrou levantou os olhos. Através da porta entreaberta, viu Jesus sendo levado pelo pátio. E o Senhor voltou-se e olhou diretamente para ele. Não era um olhar de acusação, mas daquela mesma compreensão terrível e terna que vira na mesa, dirigida a Judas. A memória das palavras invadiu-o como um dilúvio: “Antes que o galo cante, três vezes me negarás.” Saído dali, Pedro desceu pelas escadas escuras, e o pranto que o acometeu não tinha consolo, era amargo como fel, um som rouco e seco de um homem cujo mundo tinha acabado de desmoronar.

A noite chegava ao fim. A primeira luz cinzenta da alvorada começava a desenhar os contornos do pátio e das altas paredes do palácio. Dentro, o réu aguardava o veredito final de um tribunal humano. Fora, um homem chorava no lusco-fusco, e o perfume fantasma do nardo ainda parecia pairar sobre a cidade, promessa e presságio de um sepulcro que em breve não estaria vazio.

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