Bíblia em Contos

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Bíblia

O Juízo das Nações

O sol da tarde pesava sobre o vale, um branco impiedoso que fazia tremer o ar sobre a poeira seca. Na minha sombra, escassa e rente ao chão, anotei as palavras. Não eram minhas. Vinham dele, Ezequiel, cujo rosto parecia talhado na mesma pedra árida que nos cercava, mas cujos olhos ardiam com um fogo que não era deste mundo. O exílio babilônico cheirava a cinza e cânticos roucos à beira dos rios estranhos, mas naquela tarde, naquele pedaço de terra emprestada, ele falava de terras distantes. E eu, Berekiah, filho do exílio, tentava capturar o trovão em frágeis linhas de tinta.

Ele não começou com grandiosidade. A voz veio áspera, baixa, como se fosse parte do vento quente que vinha do leste. “Filho do homem,” disse, e eu senti o habitual calafrio, “volta o teu rosto para os amonitas e profetiza contra eles.”

A pena hesitou sobre o papiro. Amom. Lembrava-me de histórias de velhos, de fronteiras disputadas, daquele povo que se alimentava do nosso infortúnio. E então, as palavras jorraram, não como um discurso, mas como a descrição fria de um veredito já assinado. “Porque disseste: ‘Ah! Ah!’ contra o meu santuário quando foi profanado, e contra a terra de Israel quando foi assolada, e contra a casa de Judá quando foi para o cativeiro…”

Ele fez uma pausa, e no silêncio eu ouvia o eco de uma zombaria cruel. Via, na mente, os embaixadores amonitas batendo palmas em Rabá quando a notícia da queda de Jerusalém chegou. Um riso seco, de desprezo e ganância. A sentença veio em seguida, implacável: “Eis que te entregarei por herança aos filhos do Oriente.” A imagem era nítida e terrível. As tendas dos beduínos nômades, ávidos por pastagens, erguidas sobre as cidades fortificadas de Amom. A capital, Rabá, reduzida a um curral de camelos, a um aprisco de ovelhas. A memória deles seria apagada, não por um grande império, mas pela simplicidade nômade que tudo consome. “E sabereis que eu sou o Senhor.”

Enquanto a tinta secava, a atenção dele já se voltava, sem transição cerimonial, para o sul. Um suor frio me correu pelas costas, não pelo calor, mas pela solenidade do que se desenrolava. “Porque assim diz o Senhor Deus: Porquanto Moabe e Seir disseram: ‘Eis que a casa de Judá é como todas as nações’…” Aquela era uma afronta diferente. Não era só o riso diante da tragédia, era um nivelamento teológico, uma negação da eleição. Ao equiparar Judá a qualquer outro povo, Moabe e Edom (este último escondido no nome “Seir”, suas montanhas traiçoeiras) tentavam apagar o próprio caráter de Deus. A punição foi descrita com uma ironia sombria. “Abrirei o lado de Moabe desde as cidades, desde as suas cidades que estão nos seus confins, a glória da terra.” As fronteiras seriam violadas, a famosa fertilidade de sua planície, a sua “glória”, tomada. O povo do oriente, novamente, aparecia como instrumento. E um detalhe ínfimo e devastador: “E exterminarei de Moabe aquele que oferece sacrifício no alto.” A adoração deles, seus rituais nos lugares altos, seria silenciada para sempre. O vazio seguiria o esquecimento.

Edom veio a seguir, e o tom se impregnou de uma frieza ainda maior. “Porquanto Edom se houve vingativamente contra a casa de Judá…”. A palavra “vingativamente” ecoou. Era a traição fraterna, o ódio de Esaú a Jacó, eternizado em política cruel. Ele descreveu a vingança do Senhor com imagens de mão estendida e furor despejado. “E em Edom executarei juízos.” A terra seria devastada de Temã a Dedã, de sul a norte, “ao fio da espada”. Mas não por um exército humano organizado. A sentença era: “Porei a minha vingança em Edom pela mão do meu povo Israel.” Aquilo me fez erguer os olhos do papiro por um instante. Era uma promessa dentro do juízo. Algo remoto, além do nosso exílio presente, um vislumbre de que as mãos que então estavam acorrentadas um dia seriam o instrumento da justiça divina. “E saberão que eu sou o Senhor,” repetiu-se, um refrão terrível e necessário.

A sombra alongava-se, e o ar começava a esfriar. O último oráculo foi para os filisteus, o povo do litoral, sempre um espinho no flanco de Israel. “Porquanto os filisteus se houveram vingativamente… para destruírem com ódio perpétuo.” O ódio deles era antigo, visceral. A resposta seria radical. “Eis que estendo a minha mão contra os filisteus, e exterminarei os queretitas, e destruirei o restante da beira do mar.” A linguagem era de aniquilação total. Não sobraria resquício da sua força, simbolizada nos “queretitas”, seus guerreiros mercenários célebres. E, no fim, a mesma fórmula seca e devastadora: “E saberão que eu sou o Senhor, quando eu executar neles a minha vingança.”

Ele calou-se. O silêncio que se seguiu não era pacífico; era pesado, carregado dos ecos da ira solene que acabara de ser proclamada. Olhei para as minhas anotações. A tinta, o papiro, tudo parecia comum. Mas as palavras… eram como brasas. Não havia exultação nelas, nenhum prazer sanguinário. Era a descrição, com a friez de um escrivão celestial, de um princípio cósmico: o Senhor da História é também o Guardião da Sua honra. A zombaria contra o Seu povo, quando este está sob o seu juízo, é um risco terrível. A vingança pertence a Ele. As nações, em sua soberba, pensavam que o colapso de Judá era um espetáculo para seu entretenimento ou uma oportunidade para sua expansão. Descobririam que era o palco onde a soberania de Yahweh se revelaria, de forma tremenda, também contra elas.

Dobrei o papiro com mãos que tremiam ligeiramente. O horizonte ao longe, para onde seus olhos ainda pareciam fitar, já não era apenas uma linha geográfica. Era um mapa moral, onde as fronteiras do juízo estavam traçadas com uma precisão assustadora. E no centro de tudo, a razão final, repetida até à exaustão, para que até os mais surdos ouvissem: “E saberão que eu sou o Senhor.” Era um conhecimento que viria pelo fogo. E, de alguma forma, naquele crepúsculo que caía sobre a Babilônia, aquela verdade terrível trazia consigo um fio de consolo, tão tênue quanto o primeiro frescor da noite. Pois se Ele era juiz das nações, também era, e sempre seria, o Deus de Israel.

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