O calor da tarde em Jerusalém tinha um peso particular, um manto úmido e pesado que carregava o cheiro de pão, esterco e pedra aquecida. Jeremias sentia esse peso nos ombros, mais do que os outros. A palavra do Senhor dentro dele era como uma pedra de moinho no peito, uma agonia constante que lhe roubava o sono e o sabor da comida. Naquele dia, porém, a agitação interior tomara um rumo diferente. Não era o clamor denunciador, o fogo contido. Era um puxão silencioso, uma insistência suave, mas inescapável, como a mão de um amigo no cotovelo.
“Levanta-te”, parecia sussurrar-lhe o espírito, “e desce à casa do oleiro.”
Descer. Para os vales. Para os bairros dos artesãos, onde o cheiro do barro úmido e da lenha queimada substituía o incenso do Templo. Jeremias obedeceu. Seus pés, calçados com sandálias gastas, encontraram o caminho íngreme e poeirento que serpenteava para fora dos portões superiores, em direção ao vale do Filho de Hinom. O ar, ao descer, mudava. Ficava mais espesso, mais terreno. O som dos martelos sobre o metal e o chiado das rodas de madeira sobre a pedra formavam uma sinfonia rude.
A oficina do oleiro era uma caverna de sombra convidativa, escavada parcialmente na colina, protegida por um teto de esteiras de palha. A primeira coisa que Jeremias percebeu não foi o homem, mas o silvo constante, rítmico, da roda. Um som hipnótico, contínuo, como a respiração da terra. Então, seus olhos se ajustaram à penumbra.
O oleiro era um homem de meia-idade, os braços musculosos salpicados de respingos de argila cinzenta. Sua atenção estava totalmente absorvida pela massa que girava no centro da roda, impulsionada pelo movimento constante de seus pés descalços na roda inferior. A argila, um torrão informe e úmido, começava a se erguer. Sob a pressão certa dos dedos do oleiro, ela crescia, como uma flor desabrochando em câmera lenta. Os polegares do homem criavam uma cavidade, os dedos a alargavam com uma paciência infinita. Era um vaso que nascia, um cântaro de pescoço estreito e corpo arredondado.
Jeremias ficou parado à entrada, esquecido de si mesmo. Havia uma beleza sagrada naquela cena cotidiana. A terra, inerte em si mesma, submetia-se à vontade do artesão. Mas então, algo aconteceu. Uma imperceptível resistência na argila, um grão de pedrinha que o oleiro não sentira ao amassar o barro. O vaso, quase perfeito, perdeu o equilíbrio. Suas paredes oscilaram, bambearam, e num instante, desmoronaram sobre si mesmas, tornando-se uma massa torcida e assimétrica, girando ainda, mas agora sem forma nem propósito.
Um suspiro profundo escapou dos lábios do oleiro. Não era de raiva, nem de frustração. Era o som de um conhecimento profundo, a aceitação de um contratempo dentro do processo. Sem hesitar, sem um momento de dúvida, suas mãos fortes cerraram-se sobre a massa falhada. Ele a achatou, transformou-a novamente em um torrão úmido e maleável. E começou de novo. Os mesmos movimentos calmos, a mesma pressão experiente. Daquele mesmo barro, daquela mesma falha, ele começou a modelar um vaso diferente. Talvez mais baixo, mais largo, uma bilha para água em vez de um cântaro fino para azeite.
E então, como se um véu se rasgasse diante de seus olhos, Jeremias entendeu. O ar da oficina pareceu carregar-se com um significado tão vasto que lhe faltou o fôlego. A palavra do Senhor veio a ele, não como um trovão, mas como o desdobrar lógico de uma verdade que sempre estivera ali.
“Não poderei eu fazer de vocês como fez este oleiro, ó casa de Israel?”, pareceu ecoar no coração do profeta, mesclando-se ao silvo da roda. “Como o barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos.”
A visão explodiu em sua mente, transcendendo a oficina escura. Ele viu a nação, Judá e Jerusalém, não como um reino poderoso, mas como barro na roda do Divino Oleiro. Viu os esforços de Deus para erguê-los, para dar-lhes uma forma nobre, um propósito: ser um povo santo, um vaso de honra. Mas havia pedrinhas no barro. A dureza da idolatria nos altos, a injustiça que gritava nas praças, a falsidade dos líderes que untavam as feridas do povo como se fossem leves. O vaso estava se deformando. A forma desejada não se sustentaria.
Mas o oleiro não jogara o barro fora. Ele o tinha recomprimido, para um novo começo. A mensagem não era de destruição final, mas de soberania amorosa e corretiva. Se uma nação, da qual Eu tenha falado para edificar e plantar, se desviar do bem, Eu me arrependerei do bem que intentava fazer-lhe. E se, anunciando contra ela o juízo, ela se converter, Eu me arrependerei do mal. A escolha, o arrependimento, a resposta do barro à pressão das mãos – tudo isso importava.
Jeremias saiu da oficina com os olhos cheios de lágrimas que não derramou. O caminho de volta à cidade parecia diferente. Cada parede de tijolos cru, cada vaso à venda no mercado, falava do oleiro. A mensagem que ele agora carregava era ao mesmo tempo terrível e esperançosa. Terrível, porque significava que a forma atual, o orgulho frágil de Judá, seria desfeita. As mãos soberanas esmagariam o vaso torto. Esperançosa, porque das mesmas ruínas, das mesmas cinzas, o mesmo Oleiro poderia começar novamente. Um vaso diferente, talvez. Mas ainda em Suas mãos.
Ao passar pelos portões, ele olhou para as torres altivas de Jerusalém, para o Templo no monte. Já não via apenas pedra e glória passada. Via argila na roda, girando, girando, à beira de uma decisão. E soube que sua voz, a partir daquele momento, seria a lembrança incômoda do silvo da roda e das mãos que, com paciência e dor, nunca desistem de dar forma ao barro.




