O sol de Jerusalém escorria como mel derretido pelas pedras claras do palácio, um calor pesado e dourado que parecia amassar o próprio ar. Abias ajustou o cinto de linho sobre a túnica, sentindo o suor escorrer pelas costas. Na sua frente, o pátio real fervilhava. Mercadores de Arã discutiam preços em voz áspera, soldados assírios, agora a soldo do rei, encostavam-se às colunas com uma indolência vigilante, e eunucos atravessavam os corredores sombrios com passos de gato. Ele, um escriba da corte, um homem que conhecia a letra da lei e os meandros dos decretos reais, sentia, não pela primeira vez, um cansaço antigo nas juntas da alma.
O rei, um homem de humor variável e coração imperscrutável, governava com mão que podia ser aberta em generosidade ou fechada em punho de ferro. E ali estava a primeira e grande verdade, aquela que Abias ruminava todas as manhãs ao amarrar as sandálias: “Conserva o mandado do rei, e isto por causa do juramento a Deus”. Não se tratava de uma submissão cega, mas de uma lealdade tecida ao próprio Deus que, em Sua sabedoria insondável, colocara governantes sobre os homens. Rebelar-se contra a autoridade constituída era como tentar conter o vento com as mãos – um esforço vão e cheio de perigo. “Não te apresses a sair da sua presença”, pensou Abias, recordando os conselhos de seu velho mestre. A precipitação era irmã da ruína. Havia um tempo para tudo, até para se afastar do olhar real, mas esse tempo exigia uma paciência de águia.
Naquela tarde, porém, a paciência de Abias foi posta à prova. Trouxeram à sua mesa o caso de um homem de Anatote, um vinicultor acusado de sonegar os tributos devidos às terras da coroa. As evidências eram frágeis, tecidas de suspeitas e do testemunho de um vizinho invejoso. Abias examinou os papiros, a tinta escura sobre o material fibroso, e sentiu um nó no estômago. Sabia, com a clareza de quem vira muitas cortes, que o homem provavelmente era inocente. Mas sabia também que o ministro das finanças, um homem ambicioso e sem escrúpulos, desejava um exemplo. “O coração do sábio discernirá o tempo e o juízo”, murmurou para si mesmo. Qual era o juízo aqui? Aplicar a lei fria, que engoliria o vinicultor? Ou arriscar seu próprio cargo, talvez sua segurança, para defender um desconhecido?
Ele se levantou e foi até a janela. Lá embaixo, na cidade baixa, a vida seguia seu curso turbulento. Viu crianças correndo, mulheres carregando cântaros, o lento andar de um velho apoiado num bordão. E o pensamento, amargo e doce, veio como sempre vinha: “Para todo propósito há tempo e juízo, mas a miséria do homem pesa sobre ele”. O peso da decisão era seu. O vinicultor de Anatote não sabia que seu destino era disputado naquele quarto abafado. A miséria do homem, sua angústia, era um fardo solitário.
Abias decidiu interceder. Foi um caminho cuidadoso, cheio de palavras medidas e olhares interpretados. Usou sua influência, que não era pouca, mas era delicada como vidro sírio. No fim, o vinicultor foi absolvido, com uma advertência. O ministro das finanças ficou irritado, mas Abias soubera “discernir o tempo”. A satisfação, porém, foi curta. No dia seguinte, soube de outro caso, este em Berseba, onde um juiz corrupto, protegido por laços de família com a corte, condenara uma viúva à penúria. E Abias nada pôde fazer. A rede de poder era vasta e escorregadia. Havia mal que se passeava impune sob o sol, e essa era uma das feridas abertas no mundo. “Ainda que o pecador faça mal cem vezes, e os dias se lhe prolonguem”, refletiu, com um sabor de cinzas na boca. A justiça imediata era um conto para crianças. O ciclo da vida e da morte, da bondade e da maldade, seguia seu curso misterioso, e muitas vezes os ímpios eram honrados na morte como se fossem santos, seu funeral um espetáculo de hipocrisia.
Essa falta de sentido, esse vácuo entre a ação e sua recompensa, era o que mais atormentava Abias nas noites silenciosas, quando os ruídos da cidade adormeciam. Ele, que temia a Deus, não conseguia decifrar os Seus caminhos. “Nenhum homem tem domínio sobre o espírito, para o reter; nem tem poder sobre o dia da morte.” Essa era a grande equalizadora. O sábio e o tolo, o rico e o pobre, o justo e o injusto – todos chegavam ao mesmo portão sombrio. Essa certeza podia levar à libertinagem, ao “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Abias sentiu essa tentação, um cansaço doce e perigoso. Para que tanto esforço? Para que buscar a justiça em um mundo torto?
Foi então que lembrou de seu avô, um homem de mãos calejadas e fé quieta. Em uma tarde semelhante, muitos anos antes, ele dissera a Abias, então um adolescente cheio de perguntas: “Ainda que o homem não saiba o que há de vir, porque tudo quanto sucede é vaidade, há um descanso em saber que não é dono da história. O sol se levanta, o sol se põe. As estações vêm e vão. E Deus, no seu tempo, fará justiça. Não a nossa justiça, apressada e falha, mas a dEle, perfeita e definitiva.”
Abias não teve uma revelação espetacular. Não houve vozes do céu nem visões. Apenas, naquela tarde, ao sair do palacio e mergulhar nos becos estreitos que levavam à sua casa, ele viu um velho oleiro em sua porta. O homem trabalhava o barro no torno, as mãos firmes e suaves. O vaso, sob seus dedos, tomava uma forma bela e útil. Um pedaço de argila rebelde soltou-se e caiu no chão, uma massa informe. O oleiro nem sequer pestanejou. Recolheu o barro, amassou-o novamente e começou outro vaso.
Ali, naquele gesto simples e milenar, Abias vislumbrou um fragmento de sentido. Ele era o barro, não o oleiro. Seu dever não era compreender toda a roda do mundo, mas ser fiel na sua pequena porção de barro, no seu ofício de escriba, no seu temor a Deus. “Apesar de tudo, conheci que há bem para os que temem a Deus, para os que temem diante dele.” Não um bem garantido em riquezas ou longevidade, mas um bem profundo, um descanso na confiança. O mal existia, sim, denso e real. A injustiça triunfaria muitas vezes. A morte, certa. Mas entre o nascer e o pôr do sol, havia espaço para a bondade, para o trabalho honesto, para um copo de água fria oferecido ao sedento. E isso, em um mundo passageiro, já não era vaidade. Era um ato de resistência. Era um eco, ainda que tênue, da harmonia original.
Ao entrar em casa, o crepúsculo pintava o céu de púrpura e laranja. Sua esposa, sem perguntar sobre o dia, trouxe-lhe pão ainda quente e azeitonas. O silêncio entre eles era confortável. Abias olhou para as mãos, manchadas de tinta, e depois para o horizonte que desaparecia. Não sabia o que o amanhã traria. Não desvendara os mistérios de Deus. Mas, pela graça que sustenta todas as coisas, podia escolher, naquele instante, partir o pão e agradecer. O resto pertencia às mãos do Oleiro. E isso, por enquanto, era suficiente.




