O sol da nona hora derramava sobre Jerusalém um calor pesado e dourado, o mesmo que amaciava as pedras das ruas e fazia o ar sobre os telhados tremular como um véu. Na sala de escrita, à sombra, o velho escriba Eben enxugou a testa com a manga de linho. Diante dele, o jovem Natã, seu aprendiz, bocejava, os olhos pesados da sesta que não pôde ter.
“Acorda, meu filho”, disse Eben, a voz rouca como o som de uma porta antiga. “A sabedoria não espera pela fresca da tarde. Ela grita nas ruas agora, neste exato momento, no meio do bulício e da poeira. E, às vezes, o que ela tem a dizer não é um canto suave, mas um aviso severo.”
Natã assentiu, forçando a atenção. Eben não abriu o rolo dos Provérbios. Em vez disso, inclinou-se para a frente, seus olhos profundos fixos no jovem, como se visse através dele, para alguma cena distante e perigosa.
“Deixe-me contar-lhe de algo que vi, não uma, nem duas, mas muitas vezes. E vejo ainda hoje, sob outros véus, em outros cantos. Veja só.”
Ele fez uma pausa, deixando o som distante de um pregão do mercado preencher a sala.
“Há um tipo de jovem”, começou Eben, “que vagueia perto da casa daquele que não tem juízo. Ele não tem maldade no coração, talvez. Tem é vazio. Um vazio que ele confunde com fome de aventura. Anda sem rumo, ao cair da tarde, na penumbra que não é dia nem noite. É a hora dos contornos incertos, Natã. A hora perfeita para se perder.”
Eben descreveu a cena com os olhos meio fechados, como se a estivesse revivendo. O jovem, vestido de forma comum, caminhando pela rua estreita que contornava o bairro menos honrado. A escuridão que se adensava, tecendo sombras compridas. E então, a mulher.
“Ela surgiu como um sopro repentino de perfume forte no meio do fedor da rua. Incenso barato e óleo caro, uma mistura que atordoa. Estava vestida como uma noiva, mas seus olhos não tinham a pureza do véu. Tinham a astúcia do caçador. Seus pés, calçados com finas sandálias, não conheciam a tranquilidade do lar. Estavam sempre inquietos, prontos para a investida.”
A narrativa de Eben era lenta, cheia de pormenores viscerais. A mulher era agressiva, decidida. Segurou o jovem, beijou-o com uma ousadia que mais parecia um desafio. Suas palavras eram melífluas, uma torrente de justificativas: o marido havia viajado, levando muita prata, só voltaria na lua cheia. A casa estava vazia, perfumada, as finas colchas do Egito estendidas sobre o leito. Tudo estava preparado.
“E ela não falava de amor, Natã”, sussurrou o escriba, a voz carregada de amargura. “Falava de prazer imediato, de carícias furtivas, da embriaguez do segredo. Comparava o marido ausente, o provedor, a um inimigo do qual eles se vingariam com seu adultério. Era um convite não para a paixão, mas para a rebelião contra a ordem, contra o pacto. E o jovem… ah, o jovem.”
Aqui, Eben fez uma longa pausa, bebendo um gole de água. Seu rosto mostrava uma tristeza profunda.
“O jovem cedeu. Seguiu-a, imediato como um boi indo para o matadouro, como um cervo correndo para a flecha que lhe perfurará o fígado. Até que uma seta lhe atravesse as entranhas. Ele não sabia, naquela hora embriagada de promessas e perfumes, que aqueles passos o levavam para a câmara da morte. Que os lençóis finos eram seu sudário. Porque o caminho para o seu quarto desce para a sepultura, para as moradas dos mortos.”
A sala ficou em silêncio. O calor parecia ter dado lugar a um frio súbito. Natã não bocejava mais. Estava pálido, absorto.
“Agora, filho meu”, disse Eben, erguendo-se com dificuldade e apontando para a janela, de onde se via o vaivém da cidade, “ouça-me. Que o teu coração guarde as minhas palavras. Afasta dela o teu caminho. Não te aproximes da porta da sua casa. Porque ela fez cair muitos feridos, e muitos são os que por ela foram mortos. A sua casa é o caminho do Sheol, que desce às câmaras da morte.”
Ele voltou a sentar, o peso dos anos e do que havia testemunhado curvando seus ombros.
“Não é apenas uma mulher, Natã. É a encarnação da insensatez sedutora. Ela se veste de necessidade, de amor proibido, de aventura. Fala a língua do desejo imediato e sussurra que as consequências são invenções dos velhos e dos amargos. Mas a sabedoria grita: o preço é a tua alma. A tua honra. A tua paz. Tudo o que és, entregue a estranhos, esvaindo-se como água na areia.”
O velho escriba estendeu a mão e tocou o rolo de Provérbios, ainda fechado.
“A sabedoria não é apenas conhecer os caminhos retos. É reconhecer, no crepúsculo da tua própria indecisão, o sussurro mortal que se disfarça de convite. É ter os olhos tão cheios da luz da Lei do Eterno, que as trevas do falso prazer não consigam te fascinar. Vigia, meu filho. Porque os tolos que a seguem não sabem que estão construindo, tijolo a tijolo, com seus próprios atos, a própria masmorra.”
Fora, o sol começava a se inclinar, alongando ainda mais as sombras. Dentro da sala, porém, uma luz diferente se acendera nos olhos de Natã – não a luz dourada e enganosa do entardecer, mas a luz clara e firme do entendimento, duramente conquistada diante do relato da queda alheia. Eben sorriu, um sorriso triste e sábio. A lição do dia, mais poderosa do que qualquer cópia de preceitos, estava gravada. Não no papiro, mas no coração que, por um instante, havia vislumbrado o abismo e recuado.




