O sol da tarde derramava um mel pálido sobre os cumes das serras que cercavam o pequeno vale. Elias observava, sentado na pedra lisa à entrada de sua casa de taipa, o longo véu de sombras que se estendia desde as encostas rochosas, engolindo aos poucos as plantações de milho e feijão. O ar cheirava a terra molhada e a fumaça distante de um fogão a lenha. Seus ossos doíam com uma previsão antiga – uma nova frente fria se aproximava, vinda do sul.
Ele não era um homem dado a grandiosidades. A vida no vale era tecida de rotinas simples e duras: o levantar antes do amanhecer, o cuidado com os animais magros, a luta constante contra a erosão que levava seu solo pedra abaixo nos temporais. Mas havia um conhecimento nele, herdado de seu pai e do pai de seu pai, um conhecimento que era menos pensamento e mais parte da paisagem de sua alma: a sensação profunda de estabilidade. Não a estabilidade da facilidade, que ele nunca conhecera, mas a estabilidade daquilo que é fundamento.
Seus olhos, marcados por milhares de pores-do-sol, percorriam a linha do horizonte serrano. O Morro da Cruz, à esquerda, maciço e imutável. A Serra dos Ventos, à direita, com seus picos dentados que pareciam rasgar o céu. Por gerações, aquelas montanhas estavam ali. Por elas, os ventos mais ferozes do inverno eram quebrados; por elas, as chuvas torrenciais de verão eram em parte contidas. O vale, ainda que sujeito às intempéries, existia sob um abraço de pedra. Ninguém no vale temia que as montanhas um dia cedessem. Elas eram a certeza silenciosa sobre a qual tudo mais se apoiava.
Foi pensando nisso que a lembrança do antigo cântico veio à sua mente, não como uma recitação formal, mas como um sussurro que se confundia com o farfalhar das folhas de bananeira. *“Os que confiam no Senhor são como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.”* A frase ecoou dentro dele não como teologia de livro, mas como a verificação de uma experiência. Sião ele não conhecia, mas conhecia as montanhas que o cercavam. E conhecia a fé que o sustentava. Era a mesma coisa. Não um sentimento efervescente, mas uma firmeza adquirida, uma rocha interna moldada por anos de confiança silenciosa, de orações murmuradas no escuro, de gratidão por mais um dia, de resignação diante da perda.
Dentro de casa, sua neta pequena, Ana, tossia. Um resfriado insistente que a friagem do outono trouxera. Sua filha, Marta, cantarolava baixo uma canção de ninar, e o som misturava-se ao chiar ritmado da rede onde a menina repousava. Elias sentiu um frio na nuca que não era do vento. Era o medo. Um medo antigo, rasteiro, que falava de vulnerabilidade, de ver aqueles que amava frágeis diante de um mundo que podia ser cruel. Ele fechou os olhos por um instante, e em sua mente, as montanhas ao redor do vale transformaram-se em promessa. *“Como estão os montes ao redor de Jerusalém, assim o Senhor está ao redor do seu povo, desde agora e para sempre.”*
Não era uma barreira mágica contra a doença ou a dor. Ele havia enterrado sua esposa, anos atrás, e a saudade era uma sombra familiar. A promessa não era de imunidade, mas de cerco. De presença. Assim como os montes não impediam a chuva de cair no vale, mas a continham, a moderavam, a cercavam com sua solidez, a presença divina era aquela realidade imutável que cercava sua vida, mesmo quando a tempestade caía dentro do seu próprio quintal. Ana tossiria, se recuperaria ou não. A colheita poderia ser farta ou escassa. Mas aquilo que estava ao redor dele – e dentro dele, por causa da confiança – não se moveria.
Um caso recente veio à sua memória. Seu vizinho, homem impulsivo e de temperamento curto, envolvera-se numa disputa tola pela divisa de uma nascente. Palavras foram trocadas, ameaças veladas surgiram. O clima no vale ficou carregado. Elias, respeitado por todos, fora procurado. Em vez de tomar partido, falara de raízes profundas, da água que beneficiava a todos se compartilhada, do desgaste que a discórdia trazia à terra e à alma. Falou com a calma de quem sabia que a justiça verdadeira não nasce da força do punho, mas da persistência do bom senso, e que, no fim, “o cetro dos ímpios não repousará sobre a sorte dos justos”. A frase do salmo ganhava carne naquela situação. O domínio dos precipitados, dos que agem sem retidão, não é definitivo. Não pode se estabelecer sobre aquilo que é fundamentado na rocha. A nascente fora compartilhada, um acordo simples foi feito. O cetro da insensatez não prevaleceu.
A noite caíra de vez. As montanhas agora eram apenas massas de escuridão mais densa contra o céu estrelado. Elias entrou em casa. O ambiente era quente, cheirava a sopa de mandioquinha e a lenha queimada. A tosse de Ana havia acalmado. Marta sorriu para ele, cansada, mas serena. Ele se sentou à mesa rústica, e antes de começar a refeição, inclinou a cabeça num silêncio que era toda uma oração. Não pedia por milagres. Agradecia pela cercania. Pela solidez invisível que, como os montes ao redor de Jerusalém, guardava seu pequeno universo de afetos e lutas.
A fé, ele pensou enquanto saboreava o caldo simples, não é um voo sobre as montanhas. É a quieta e profunda convicção de se habitar no vale que elas protegem. De saber que, embora os pés pisem na lama da labuta diária e o coração se contraia com medos e dores, os contornos permanentes da Graça estão ali, inabaláveis, contornando toda a sua existência. Desde agora. E para sempre.
E do lado de fora, sob um céu coalhado de estrelas frias, as montanhas velavam. Silenciosas, imóveis, elas eram a metáfora perfeita que Deus plantara na paisagem para que um lavrador de alma simples, em um vale distante, entendesse o coração inquebrantável do Seu cuidado.




