O dia amanhecera turvo na cidade baixa de Jerusalém. Uma umidade pesada, carregada do cheiro de terra molhada e pedra antiga, subia dos vales e se instalava entre as vielas. No templo, a rotina matinal dos sacrifícios já findara, e um silêncio diferente, espesso, pousara sobre os átrios. Era um daqueles dias em que o mundo parecia conter a respiração.
No compartimento dos levitas responsáveis pela guarda dos utensílios, um homem mais velho, de cabelos grisalhos misturados ao negro resistente, olhava para a nesga de céu visível por uma abertura alta. Seu nome era Eliazar, e anos de serviço lhe haviam ensinado a ler o tempo não pelas horas, mas pela qualidade da luz e pelo murmúrio distante da cidade. Hoje, a luz era de chumbo, e o murmúrio, abafado. Uma inquietação, não sua, mas do próprio ar, fazia-o levantar e caminhar em direção às áreas mais externas, perto do pórtico de Salomão.
Foi então que o primeiro som veio. Não um trovão, mas um longo gemido, como se as fundações dos montes em redor estivessem rangendo. Seguiu-se um silêncio ainda mais profundo, e então, o céu se rasgou. A chuva não caiu; ela se despenhou, em cortinas densas e barulhentas, golpeando as lajes de mármore e as telhas com fúria. Em instantes, o Cedrom, aquele fio de água mansa, transformou-se num rugido espumante e marrom, arrastando consigo galhos, pedras soltas e a espuma de sua ira repentina.
Eliazar recuou para a cobertura do pórtico, mas não entrou. Ficou ali, na fronteira entre o abrigo e o dilúvio, observando. As águas subiam, batendo com força contra os muros de contenção do templo, lambendo as pedras com línguas turbulentas. O ribeiro, agora um rio furioso, levantava a voz. Não era mais um som, era uma presença, um clamor profundo que falava de força bruta, de caos, de uma potência que não conhece lei senão a sua própria voracidade. Ele via as águas levantarem-se, suas cristas espumantes pareciam querer alcançar o próprio céu, desafiantes. Era um espetáculo de força pura, uma demonstração de um poder que fazia as fundações humanas parecerem brinquedos frágeis.
E ali, parado naquela linha seca, uma memória antiga, quase um sussurro na alma, começou a se formar em seus lábios. Não eram suas palavras iniciais, mas palavras que haviam sido depositadas em seu espírito por gerações de servos do Santuário. Eram palavras que falavam de outra voz, mais profunda que o ribeiro, mais alta que o trovão que agora estremecia os céus.
“O SENHOR reina.” A frase ecoou dentro dele, não como um pensamento, mas como uma afirmação gravada na rocha. E o mundo ao seu redor pareceu mudar de perspectiva. As águas, em sua fúria descomunal, já não eram senão um manto que ele vestira. Aquele poder desenfreado, aquele clamor que ameaçava os ouvidos, era apenas a orla de seu vestuário. O caos tinha dono. A força tinha um Trono.
Ele continuou, baixinho, quase sibilante, competindo com o estrondo das águas: “Revestiu-se de majestade; de majestade se revestiu o SENHOR e se cingiu de poder.” E olhava para a tempestade, e já não via apenas destruição, mas a vestimenta de Alguém. A majestade não era serena e estática como a de um ídolo; era dinâmica, terrível, viva. Ele se cingira daquele poder como um guerreiro ata a espada à cintura. O mundo era o campo de sua demonstração.
E então, o pensamento mais sólido, a verdade que fez seus pés, plantados no chão molhado do pórtico, sentirem-se firmes sobre a rocha: “Firmou o mundo, que não vacila.” O ribeiro rugia, a terra parecia tremer com os trovões, mas o *mundo* – a criação, a ordem subjacente, o eixo da existência – não vacilava. Porque havia sido firmado por mãos que não tremiam. As águas podiam levantar-se, podiam rugir, podiam fazer um barulho ensurdecedor de rebelião, mas havia um limite. “Mais poderosas do que os estrondos das muitas águas, mais poderosas do que as ondas do mar, poderoso é o SENHOR nas alturas.”
Eliazar fechou os olhos. O som das águas agora chegava a seus ouvidos de outro modo. Já não era um clamor de vitória do caos, mas o coro barulhento e derrotado de forças que haviam encontrado seu Senhor. Sua fúria era, na verdade, o testemunho involuntário de um poder maior que as continha. O rugido era a prova de que havia Alguém, lá nas alturas, cuja voz, se fosse totalmente desembainhada, reduziria tudo isto a um silêncio absoluto.
A chuva começou a diminuir. O estrondo do Cedrom foi aos poucos baixando de tom, de um rugido para um rosnado, depois para um murmúrio cansado. As águas recuaram, mostrando a ravina desolada e lavada que haviam deixado. O céu começou a clarear em fissuras de um azul pálido e lavado.
Ele voltou para dentro, para a penumbra tranquila dos compartimentos de guarda. O cheiro de incenso seco e óleo de oliva substituía o cheiro da tempestade. Ao passar por uma porta entalhada, seus dedos tocaram as tábuas suaves do arcaz que guardava os rolos. E a última linha do canto veio a ele, suave como o azeite que ungia os utensílios sagrados: “Os teus testemunhos são mui fiéis; à tua casa convém a santidade, SENHOR, para todo o sempre.”
O mundo lá fora havia mostrado sua face barulhenta e passageira. As águas levantaram suas vozes e depois se calaram. Mas aqui, naquela casa, a verdade era diferente. Era uma verdade testemunhada, fiável, tão sólida quanto as pedras do monte Moriá. A santidade – essa separação absoluta, essa pureza imutável – não era uma conquista do lugar, mas uma convivência eterna. Enquanto o Cedrom voltava a ser um fio mudo, a casa do Senhor permanecia, e com ela, a quieta e terrível verdade de um trono estabelecido antes que houvesse abismo, antes que houvesse mar.
Eliazar sentou-se num banco baixo, o corpo ainda vibrando com a memória do trovão, mas o coração assentado numa quietude mais profunda. O dia continuaria, com seus afazeres e seus silêncios. Mas ele sabia, agora com uma certeza fresca como o ar após a tempestade, que havia visto, na fúria das águas, a orla do manto do Rei. E isso bastava.




