Bíblia em Contos

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Clamor no Deserto

O sol do meio-dia era uma lâmina branca a fender a terra ressequida. Davi não era rei naquela hora; era apenas um homem com a túnica em farrapos, grudada ao corpo pelo suor e pela poeira do deserto. O abrigo entre as rochas ásperas, que antes parecera uma fortaleza, agora se assemelhava mais a uma sepultura de pedra quente. O silêncio era tão pesado que ele conseguia ouvir o sangue pulsar em seus ouvidos, um ritmo acelerado de fuga e medo. De longe, muito longe, talvez do acampamento de seus homens ou talvez de sua própria memória, vinha o eco de uma risada traiçoeira, a lembrança do olhar de Absalão. Não era apenas o trono que estava em jogo; era algo dentro dele que parecia ter rachado, um vaso de barro secando sob aquele calor implacável.

Foi então que o clamor brotou, não como uma oração ensaiada, mas como um gemido rouco, uma continuação do próprio ato de respirar. “Ouve, ó Deus, o meu clamor,” a voz saiu áspera, quase inaudível. Ele não ergueu as mãos em ritual; ele as enterrou no cascalho quente, como se buscasse uma raiz, uma conexão com algo sólido. “Atende à minha oração.” Os olhos, ardidos pela claridade e pela falta de sono, percorreram o horizonte ondulado pelo calor. Tudo era miragem e desolação. “Desde os confins da terra eu clamo a ti, com o coração abatido.”

*Os confins da terra.* A frase ecoou dentro dele. Aquela solidão não era apenas geográfica. Era o confim da sua própria resistência, o fim da coragem, a borda do abismo onde a fé parece uma história contada para crianças. Sentiu-se pequeno, insignificante, um grão de areia a ponto de ser levado pelo vento seco. Mas no fundo desse abatimento, uma imagem teimou em se formar. Não era um palácio de cedro, não eram as muralhas de Jerusalém. Era uma rocha. Uma única rocha, mais alta que as colinas ao redor, imponente e inabalável, coroada apenas pelo céu. Uma ânsia física tomou conta dele, uma fome por algo que não fosse essa terra movediça da incerteza.

“Conduze-me à rocha que é mais alta do que eu,” suplicou, e as palavras tinham o sabor do pó e da necessidade crua. Ele não pedia por exércitos naquele instante, nem por estratégia política. Pedia por chão firme. Pedia um lugar onde pudesse ficar de pé novamente, onde a visão se clareasse, acima da poeira da conspiração e do tumulto dos seus próprios pensamentos. Um lugar de perspectiva. Porque lá de baixo, tudo era confusão. Lá em cima, talvez pudesse enxergar.

A imagem da rocha transformou-se lentamente em outra, mais terna, mais íntima. Lembrou-se, num lampejo, do tabernáculo. Não da estrutura de peles e madeira, mas do que ele representava: a sombra protetora. “Pois tens sido o meu refúgio, uma torre forte contra o inimigo.” A memória do calor opressivo deu lugar, por um segundo, à sensação de frescor, de abrigo. Como uma asa enorme se estendendo sobre um filhote indefeso. O desejo que surgiu então foi simples, quase infantil na sua pureza: “Permitir-me-ia habitar no teu tabernálo para sempre, refugiar-me-ei no esconderijo das tuas asas.” Ali, naquele deserto, Davi não desejava a volta ao poder, mas à proteção. Desejava o permanente, o eternamente seguro, em contraste com a fugacidade traiçoeira de tudo que ele havia construído e que agora via desmoronar.

E então, algo começou a mudar. Não no deserto ao redor – o sol continuava a castigar, o silêncio a pesar – mas dentro do seu peito. O clamor, que nascera do desespero, havia tocado alguma coisa. Ou Alguém. A promessa que ele fizera a Deus em tempos de paz, um voto de louvor e dependência, veio à tona como uma tábua de salvação. “Pois tu, ó Deus, ouviste os meus votos,” ele murmurou, e era uma afirmação, não mais uma petição. Havia uma mudança de tom. A fé, que estava adormecida sob as camadas de medo, começou a se mover, a responder ao próprio ato de ter clamado. “Deste-me a herança dos que temem o teu nome.”

A herança não eram terras ou riquezas. Naquele contexto, a herança era a própria segurança, a certeza do refúgio. Era o direito de pertencer àquela sombra protetora. E, num movimento quase involuntário, os lábios ressecados de Davi se curvaram levemente. A petição por sua própria vida transformou-se, naturalmente, em intercessão. “Prolonga os dias do rei; que os seus anos se estendam por muitas gerações.” Ele falava de si? Falava do ungido de Deus, da linhagem da qual fazia parte? Era um pedido pelo futuro, por algo maior que sua pessoa, uma dinastia de fé que não poderia perecer no deserto.

A conclusão não foi um grito triunfante. Foi uma afirmação serena, conquistada a duras penas naquele lugar árido. “Que ele permaneça para sempre diante de Deus; designa que o amor e a fidelidade o protejam.” O amor, *hesed*, aquele amor pactuado, leal, que não se retira. A fidelidade, *emet*, a verdade sólida como rocha. Ele pedia que essas duas realidades fossem os guardiães não apenas do trono, mas da sua própria alma conturbada.

Davi não saiu imediatamente da sombra da rocha. O calor não diminuiu num passe de mágica. Mas quando ele finalmente se levantou, os joelhos rangendo, havia uma firmeza diferente em seu olhar. A paisagem era a mesma, mas ele já não se sentia no “confim da terra”. Sentia-se, de alguma forma misteriosa, já conduzido àquela rocha mais alta. O refúgio não era um lugar para onde ele iria; era uma realidade na qual ele já podia habitar, mesmo ali, no meio do deserto. E assim, com os lábios ainda murmurando um louvor rouco e imperfeito, começou a caminhar de volta em direção ao seu destino, carregando consigo, não a solução para seus problemas, mas a Rocha que os sustentaria.

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