Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

O Som dos Escudos de Bronze

O calor do verão em Jerusalém carregava um peso que ia além da temperatura. Era o décimo quinto ano do reinado de Roboão, e o ar parecia denso, satisfeito, entorpecido pela prosperidade. Nos pátios do palácio, o brilho do bronze polido ofuscava a vista. Ele, Roboão, filho de Salomão, havia fortificado cidades, armado exércitos, e visto o reino de Judá se firmar. A lembrança da divisão com Israel ao norte, da rebeldia de Jeroboão, era agora uma cicatriz distante, quase um motivo de orgulho. Tínhamos nos fortalecido sem eles, pensava a corte. O SENHOR havia estabelecido o reino em suas mãos; eles haviam entendido o recado.

Acontece que, com a realeza firmada, Roboão deixou-se levar. A lei do SENHOR, aquela que exigia fidelidade de coração, foi lentamente sendo relegada aos rolos nos aposentos dos escribas, algo a ser consultado em cerimônias, não um rumo para a vida. Ele e todo o Judá com ele abandonaram a aliança. A fé tornou-se ritual, vazia como os vasos de ouro que reluziam sem propósito nas mesas dos banquetes. A segurança veio das muralhas, da força dos homens, do metal brilhante. O coração, aquele órgão invisível e decisivo, afastou-se, sutil e fatalmente.

O profeta Semaías, homem de cabelos já brancos e olhos que pareciam ver além da pedra e do bronze, observava em silêncio. Seus lábios estavam selados, aguardando o momento. E o momento chegou, não com um trovão, mas com o rumor surdo de notícias que corriam pelas estradas empoeiradas. Sisaque, faraó do Egito, movia-se. Não era um exército qualquer. Era a tempestade do sul, a vingança de décadas de esquecimento. Mil e duzentas carruagens, sessenta mil cavaleiros, e uma multidão incontável de líbios, suquitas e etíopes deslocavam-se como um rio de ferro e poeira em direção às colinas de Judá.

O medo, então, substituiu a soberba. De repente, o bronze das fortificações parecia frágil, fino. Os escudos pendurados nas paredes do palácio eram adornos inúteis. A notícia varreu Jerusalém como um vento gelado: “Sisaque tomou as cidades fortificadas de Judá e já se aproxima da própria Jerusalém.”

Foi quando a palavra do SENHOR veio a Semaías. Ele se apresentou diante do rei e dos príncipes de Judá, que se haviam reunido apavorados na cidadela, não mais como conselheiros confiantes, mas como homens encurralados. A voz do profeta não era um grito; era grave, clara, cortando o ar pesado de pânico.

“Assim diz o SENHOR: Vocês me abandonaram; por isso, eu também os abandonei, entregando-os nas mãos de Sisaque.”

A frase ecoou na sala de pedra. Não havia acusação furiosa, apenas a declaração terrível de uma consequência. O abandono deles não havia passado despercebido. Havia sido correspondido. Deus não os destruía ativamente; simplesmente retirava o muro invisível que os protegia. A exposição era total.

Então, algo quebrável surgiu no rei e em seus líderes. Não foi um arrependimento perfeito, puro como a água da fonte de Giom. Foi um reconhecimento humilhante, visceral, de dependência. “O SENHOR é justo”, confessaram. E ao verem que o coração do rei se abrandava, mesmo que sob o esmagador peso do desastre, o SENHOR falou novamente por Semaías.

“Visto que se humilharam, não os destruirei. Em breve lhes darei livramento. Minha ira não será derramada sobre Jerusalém por intermédio de Sisaque. No entanto, serão subjugados por ele, para que saibam a diferença entre servir a mim e servir aos reinos da terra.”

A lição seria custosa, mas a vida seria preservada. O cerco se fechou. A cidade da promessa, a herança de Davi, viu-se obrigada a abrir seus portões. Sisaque entrou, não como um destruidor total, mas como um saqueador metódico e avassalinho. Os tesouros da casa do SENHOR e do palácio real, acumulados por Salomão em dias de glória, foram levados. Tudo. Os escudos de ouro, feitos com tanto esmero, símbolos máximos da riqueza e do poder, foram arrancados das paredes e carregados para o Egito.

O que restou foi uma cidade intacta, mas profundamente pobre. Pobre de riquezas, e mais ainda, pobre de ilusões. Roboão, para manter alguma aparência, ordenou que fossem feitos escudos de bronze. Bronze, não ouro. Metal comum, de soldado, não de rei. Era uma imagem perfeita do novo estado das coisas: a proteção ainda existia, mas era áspera, pesada, barulhenta. Sem o brilho.

E estabeleceu-se um ritual melancólico. Sempre que o rei ia à casa do SENHOR, os guardas traziam os escudos de bronze, e os carregavam na procissão solene. Ao passar pelos portões, o bronze batia contra o bronze, um som seco e oco que ecoava pelos pátios. No fim da cerimônia, os escudos eram devolvidos à guarda, trancados novamente, aguardando o próximo ato de humilhação pública.

Os últimos anos de Roboão foram assim. Havia paz, sim. Havia um reino. Mas era um reino menor, consciente de sua pequenez. A lição havia ficado gravada a fogo, ou melhor, a bronze: servir aos reinos da terra significava viver sob a constante ameaça, trocando ouro por metal comum, liberdade por subsistência. Servir ao SENHOR… bem, eles haviam esquecido o que era isso de verdade. Mas o som dos escudos, aquele tinir roufenho, era um lembrete constante. Talvez, naquela humilhação repetida, começasse a brotar, muito lentamente, a memória do que significava existir sob uma proteção que não faça barulho, que não precise ser carregada por guardas, e que brilhe com uma luz que nenhum faraó pode roubar.

O cronista, ao final, resume com uma sobriedade que dói: “E Roboão reinou por dezessete anos em Jerusalém… e fez o que era mau, porque não dispôs o seu coração para buscar o SENHOR.” A história não é de uma conversão dramática, mas de uma consequência que, quiçá, preparou o terreno para um coração que, em outro rei, em outro tempo, pudesse se dispor diferente. A graça havia poupado a vida. O bronze, pesado e sonoro, ensinava o resto.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *