A estrada que descia do monte das Oliveiras era um sulco poeirento e sofrido na face da terra. Davi, com os pés descalços e a cabeça coberta, caminhava com um peso que não era apenas o do cansaço. O ar, quente e parado, cheirava a poeira e a medo. À sua volta, uma multidão abatida: seus homens leais, rostos curtidos pela guerra, agora marcados pela perplexidade da fuga; famílias inteiras arrastando trouxas e tristeza; o ruído abafado de choro, o arrastar de pés, o suspiro coletivo de um reino desfeito em horas.
Ele sentiu, antes de ver, a sombra que se aproximava. Era Ziba, servo de Mefibosete, vindo com uma comitiva que fazia contraste gritante com a debandada geral. Dois jumentos albardados, carregados de pães, cachos de uvas passas, frutas de verão e odres de vinho. O animal parecia mais digno do que o rei naquele momento.
— Senhor — chamou Ziba, baixando a cabeça com um respeito que, naquelas circunstâncias, soava a uma esmola.
Davi parou. A dor nos pés era viva, aguda. O cansaço era um manto úmido sobre seus ombros.
— O que trazes aí, Ziba?
— Para o rei, e para os que com o rei estão, para que comam e tenham forças no deserto — respondeu o servo, e seus olhos faiscavam com uma inteligência rápida, calculista.
Davi olhou para os jumentos, para a provisão farta. Uma imagem lhe atravessou a mente: Mefibosete, filho de Jônatas, seu amigo de alma, coxo dos dois pés, permanecendo em Jerusalém. A pergunta veio seca, carregada de um amargor que ele ainda não sabia se era dirigido a si mesmo ou ao mundo.
— E onde está Mefibosete, teu senhor?
Ziba não hesitou. A resposta foi entregue como um produto acabado, envolto em plausibilidade.
— Eis que ficou em Jerusalém, porque disse: ‘Hoje, a casa de Israel me restituirá o reino de meu pai.’
As palavras caíram como pedras no silêncio abafado. ‘O reino de meu pai’. Saul. A antiga casa, a sombra da qual Davi sempre tentara escapar, reaparecendo no momento de sua maior fraqueza. A lógica era perversa, mas soava verdadeira. Na desgraça do rei ungido, os ressentimentos antigos brotariam. Davi sentiu uma onda de fúria, rápida e cega. A decepção cortou mais fundo que a traição de Absalão. Era a traição da memória, da aliança feita com Jônatas, profanada.
— Teu é tudo quanto era de Mefibosete — disse Davi, e a voz soou rouca, estranha até para ele. Era um decreto nascido da raiva e da urgência, uma decisão tomada na névoa quente do desespero.
Ziba inclinou-se profundamente. — Que eu ache graça aos teus olhos, rei, meu senhor. — E quando se ergueu, havia nos seus cantos de boca algo que não era gratidão, mas a satisfação silenciosa de quem jogara bem suas pedras no tabuleiro.
A jornada recomeçou, mais pesada. A comida de Ziba aqueceu estômagos, mas não aliviou almas. E então, ao se aproximarem de Baurim, a paisagem humana mudou de novo.
De uma das casas na encosta, um homem surgiu como um corvo furioso. Era Simei, filho de Gera, da família de Saul. Seus traços eram duros, talhados a machado pelo ódio. Ele não veio com presentes. Veio com palavras. E começou a amaldiçoar, lançando pedras para o meio do cortejo real, não se importando se atingia servos ou soldados. A poeira das pedras se misturava à poeira da estrada.
— Fora, fora, homem sanguinário e vil! — gritava, sua voz estridente rasgando o ar pesado. — O SENHOR tornou a cair sobre ti todo o sangue da casa de Saul, em cujo lugar tens reinado; e o SENHOR entregou o reino na mão de teu filho Absalão. Eis que te achas na tua desgraça, porque és homem sanguinário!
Cada palavra era uma facada. ‘Homem sanguinário’. Urias, o heteu, morto pela espada dos amonitas após Davi ter tomado sua mulher. Aquele pecado, enterrado no silêncio do palácio, agora era escancarado no caminho público, vomitado por um inimigo. A maldição de Simei era cruel, mas não era mentira. Era uma terrível versão da verdade, distorcida pelo ressentimento, mas com uma raiz de realidade que fazia Davi estremecer por dentro.
Abisai, filho de Zeruia, irrompeu com a fúria típica de sua linhagem. Seu rosto estava congestionado de ira.
— Por que esse cão morto amaldiçoaria o rei, meu senhor? Deixa-me passar e tira-lhe a cabeça.
Davi, porém, já tinha a fúria transformada em outra coisa: numa aceitação árida e dolorosa. Ele colocou a mão no braço de Abisai. O gesto era de uma canseira infinita.
— Que tenho eu convosco, filhos de Zeruia? — disse, e sua voz era um sussurro grave. — Se ele amaldiçoa, e se o SENHOR lhe disse: ‘Amaldiçoa a Davi’, quem então dirá: ‘Por que fizeste assim?’
Ele olhou para os homens ao seu redor, viu a perplexidade nos olhos deles. E continuou, como se pensasse em voz alta, decifrando um terrível desígnio divino.
— Eis que meu filho, que saiu das minhas entranhas, procura a minha vida. Quanto mais ainda este benjamita? Deixai-o que amaldiçoe, porque o SENHOR lho mandou. Talvez o SENHOR olhe para a minha aflição e me restitua o bem, em lugar da sua maldição deste dia.
Foi um ato de fé desesperada, não de fraqueza. Ele não estava se rendendo a Simei, mas à mão invisível que permitia que Simei agisse. Era a teologia do sofrimento aceito. Se Deus estava por trás daquela humilhação, resistir seria lutar contra o próprio Deus. Melhor engolir o fel, aceitar a pedrada, e esperar que, no fim, a misericórdia divina visse a sua humilhação e julgasse com equidade.
E assim seguiram. Davi, seus homens, seu povo, subindo o monte, com os ombros caídos, a poeira nos lábios, e o eco das maldições de Simei pairando no ar como um enxame de moscas. Simei, do outro lado do vale, acompanhava-os pela encosta paralela, atirando pedras e terra, gritando suas acusações até a voz ficar rouca. Era um salmo torto, um culto profano de ódio, que Davi era obrigado a ouvir como penitência.
Ao longe, Jerusalém desaparecia na névoa do calor. À frente, o deserto e a incerteza. E no coração do rei, uma tempestade silenciosa: a dor da traição do filho, o peso do pecado confessado, a humilhação pública, e uma frágil, tenaz esperança de que o mesmo Deus que o ferira, um dia o restauraria. Tudo isso, enquanto seus pés descalços pisavam em pedras afiadas, e a poeira das maldições de um benjamita se misturava com o suor de seu rosto.




